Como esperado, a definição sobre a disputa eleitoral para a Presidência da República abriu a temporada de movimentações pelo comando das pastas da Esplanada. Embora ainda sejam preliminares — poucos dias se passaram desde o resultado que sacramentou a reeleição de Lula —, ninguém parece querer perder tempo. Em meio a essas negociações está o comando do Ministério de Minas e Energia (MME).
De um lado, o PSD surge após o seu período de neutralidade no segundo turno para tentar convencer aliados do Planalto de que a manutenção de Alexandre Silveira no cargo de ministro de Minas e Energia é uma boa ideia. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas
No caso do ministro, o principal trunfo continua sendo a relação pessoal com Lula. Silveira passou boa parte do terceiro mandato desfrutando de uma proximidade com o presidente que, em diferentes momentos, o protegeu de pressões políticas.
Em março deste ano, foi o próprio Lula quem pediu que Silveira desistisse de disputar uma vaga no Senado por Minas Gerais e permanecesse à frente do ministério. Essa proximidade, no entanto, tem sido colocada em dúvida nos últimos meses, durante a campanha eleitoral.
Não passou despercebido para políticos e agentes do setor que Silveira teve uma atuação pública discreta no primeiro turno — ele chegou a deixar de participar de eventos do governo relacionados diretamente à sua área, como anúncios de medidas para conter os preços dos combustíveis, onde sempre fez questão de estar presente.
Fontes disseram ao JOTA que o afastamento estaria relacionado ao desgaste do ministro com membros do PT de Minas Gerais, que teriam se irritado com a proximidade entre Silveira e Mateus Simões, candidato ao governo mineiro pelo PSD. No segundo turno, o ministro voltou a fazer manifestações públicas de apoio ao presidente, embora bem menores do que já foi o costume.
Do lado de lá, interlocutores do PSD defendem que Silveira participou ativamente das articulações eleitorais pela reeleição de Lula em Minas Gerais e procuram afastar a percepção de que o ministro perdeu espaço político. Por conta disso, Silveira seria não apenas uma cota pessoal de Lula, mas também uma cota partidária da legenda.
Na última terça-feira (27/10), o presidente do partido, Gilberto Kassab, afirmou publicamente que permitirá a participação de integrantes do PSD no próximo governo, mas sem submissão ao PT. A expectativa é que ele se reúna com Lula na próxima semana, e a composição ministerial deverá estar entre os assuntos discutidos.
A boa relação com Lula pode ajudar qualquer candidato ministeriável, mas não exclui as dificuldades que Silveira teria de enfrentar para continuar no cargo. A resistência de boa parte do mercado privado ao seu nome é relevante, mas não mais do que a (falta de) relação com Davi Alcolumbre (União-AP).
O presidente do Senado já pressionou o Planalto pela saída do ministro em diferentes momentos. As investidas, até agora, não prosperaram.
A diferença desta vez é que Alcolumbre chega ao fim de 2026 em uma posição distinta na relação com o presidente da República. Durante o segundo turno, o senador apostou na virada de Lula e pautou a proposta do fim da escala de trabalho 6×1, uma das principais bandeiras políticas do governo.
O momento agora é de organização política para a reeleição do presidente do Senado e da Câmara, com participação do governo. Isso não significa que Alcolumbre tenha se convertido em um aliado incondicional do Planalto, mas indica uma relação de negociação em outro patamar.
Caso o presidente do Senado volte a pedir a saída de Silveira, o peso político da demanda poderá ser diferente. Caso Master
Um terceiro ponto de atenção surgiu com as declarações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em tentativas de negociação de um acordo de colaboração premiada, Vorcaro afirmou ter repassado R$ 40 milhões em recursos não declarados a Silveira, divididos entre a campanha ao Senado de 2022 e as eleições municipais de 2024 em Minas Gerais; o ministro nega ter recebido recursos de caixa dois.
Trata-se de delações rejeitadas pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) — ou seja, sem efeitos jurídicos até o momento. Mas a possibilidade de novos desdobramentos — e de uma eventual exposição do governo — podem representar um risco político a ser considerado pelo Planalto.
Enquanto o PSD trabalha para preservar seu espaço, a dança das cadeiras da Esplanada passou a despertar o interesse de uma ala do PT ligada a uma visão mais desenvolvimentista da política energética. O ex-ministro da Casa Civil Rui Costa aparece como uma das possibilidades para o MME. Na Bahia, maior colégio eleitoral do Nordeste, a vitória de Lula foi expressiva.
O presidente obteve 71,31% dos votos válidos, ampliando sua votação em mais de 820 mil votos entre o primeiro e o segundo turno. Integrantes do PT atribuem a Rui, ex-governador do estado e senador eleito neste ano, um papel relevante na mobilização política na região, inclusive pela articulação de investimentos federais enquanto comandava a Casa Civil.
A pasta implementou o Novo PAC, que destinou R$ 904 milhões em convênios na Bahia para obras firmados nos 12 meses anteriores à eleição, um dos maiores valores entre os estados. Caso tenha interesse em retornar à Esplanada, o histórico de Rui fortalece politicamente um pedido ao Planalto, mesmo após conquistar uma cadeira no Senado.
Não elimina, é claro, resistências ao seu nome dentro do próprio PT e do Congresso — acumuladas durante sua passagem pela Casa Civil — nem a recepção negativa de agentes do setor privado a uma maior influência sua sobre a política energética. A visão de parte do PT seria de ampliar sua participação na definição da estratégia, especialmente do segmento de óleo e gás.
As promessas de campanha O programa apresentado por Lula na campanha reforçou compromissos com a expansão da capacidade de refino da Petrobras, o retorno da estatal à distribuição de combustíveis e o fortalecimento de sua atuação como empresa integrada de energia.
São propostas que recuperam uma visão de política energética presente em governos anteriores do PT, com maior protagonismo estatal e integração entre produção, refino, logística e comercialização. O contexto internacional pode acrescentar alguma urgência a essa agenda, na visão dessa ala petista.
A guerra no Oriente Médio manteve os preços do petróleo e dos derivados sob pressão ao longo de 2026, levando o governo a adotar sucessivas medidas de desoneração tributária e subvenção para tentar limitar os impactos sobre os consumidores. Seria uma forma, inclusive, de alinhar melhor a relação entre o MME e a Petrobras.
É fato que Silveira tinha problemas com o ex-presidente da petroleira Jean Paul Prates, mas a relação com Magda Chambriard também não é das melhores. Magda chegou à presidência da estatal em 2024 com apoio de Rui Costa, mas começou a divergir do atual ministério em agendas de gás natural e de gás liquefeito de petróleo.
Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email O caso da comercialização do gás da União é um dos exemplos mais claros.
O governo levou meses tentando viabilizar os leilões dos volumes pertencentes à União no pré-sal, por meio da PPSA, enquanto a Petrobras resistia a propostas relacionadas às condições de acesso às infraestruturas de escoamento e processamento. O resultado foram meses de adiamentos das reuniões do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
O presidente da República ainda terá que negociar espaços com outros partidos, como MDB, PSB e Republicanos, acomodar aliados sem mandatos que participaram da campanha e decidir o destino de integrantes do próprio PT. Além disso, precisará avaliar as demandas das lideranças do Congresso, cuja colaboração será decisiva para a governabilidade do quarto mandato em um cenário com a oposição cada vez maior.
Tudo isso pode influenciar a escolha do comando do MME, que segue em aberto enquanto aguarda o resultado das negociações.
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