A eleição de 2026 terminou. Agora, abram seus dados

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Fonte da notícia: Portal Jota Portal Jota

No domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal. Na véspera, das 14 pesquisas divulgadas, 13 — entre elas Datafolha, Quaest, AtlasIntel, BTG/Nexus, CNT/MDA e PoderData — apontavam Flávio à frente, com margens de erro declaradas entre 1,0 e 2,6 pontos percentuais.

O Datafolha atribuiu 51% a Flávio e 49% a Lula, com uma margem de 2 pontos. Como essa margem se aplica ao percentual de cada candidato isoladamente, a margem de erro utilizada para comparar os dois candidatos é aproximadamente o dobro da informada.

Com isso, a diferença registrada nas urnas ficou dentro do intervalo de confiança em apenas três pesquisas: Ipespe, Vox Brasil e Futura. Vox e Futura foram as que mais se aproximaram do resultado.

Ipespe registrou a mesma diferença que Nexus e Palver e só ficou dentro do intervalo porque declarou uma margem maior (2,6 pontos). Nas outras onze, o resultado ficou fora do intervalo.

Por exemplo, a diferença estimada pelo Datafolha foi de 2 pontos a favor de Flávio, enquanto o resultado das urnas apontou uma vantagem de 3,58 pontos para Lula. Portanto, a diferença entre a estimativa e o resultado das urnas foi de 5,58 pontos, acima da margem de erro aplicável, de aproximadamente 4 pontos.

Em contraste com esses resultados, a maioria das últimas pesquisas do primeiro turno colocava Lula à frente: oito dos doze institutos. A Quaest, por exemplo, estimou vantagem de 1 ponto percentual para Lula nos votos válidos, após ajuste por comparecimento, com margem de erro de 2 pontos percentuais.

Como o resultado do primeiro turno das eleições de 2026  deu Flávio 1,87 ponto à frente, a diferença de 2,87 pontos cabe no intervalo de cerca de 4 pontos aplicável à diferença. Assim, embora estivesse dentro da margem de erro, a pesquisa da Quaest não colocou à frente quem de fato terminou em primeiro lugar.

Quatro institutos — Vox Brasil, Futura, Gerp e Palver — colocaram Flávio à frente, posição que ele confirmou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Pelo critério da diferença, o resultado ficou fora do intervalo em sete das doze pesquisas — e todas as sete davam Lula à frente.

A pergunta óbvia que se repete a cada eleição é: por que a maioria das pesquisas eleitorais registradas não conseguiu captar os movimentos que vimos nas urnas? Ainda que as pesquisas eleitorais não tenham caráter preditivo, elas se propõem a captar o comportamento do eleitorado, suas tendências e mudanças.

Como os dados mostram, não parece que tenham sido capazes de captar esses movimentos corretamente. E é possível que, tal como em 2022, haja chamados à abertura de uma CPI no Senado Federal e a uma investigação pela Polícia Federal.

Mas a resposta honesta é que, hoje, ninguém fora dos institutos sabe a razão das diferenças entre as estimativas das pesquisas eleitorais e o resultado das urnas. Isso porque, sem os dados, não temos como testar hipóteses.

Na eleição de 2022, as previsões dos institutos também foram polêmicas. Como discutimos nesta coluna, há indícios de que as técnicas de amostragem e de ponderação dos institutos naquela eleição não foram divulgadas com clareza suficiente na véspera da eleição.

Dos 28 institutos que registraram no TSE pesquisas nacionais para presidente em 2022, de um total de 240 pesquisas, temos acesso aos microdados de apenas dois: Datafolha e Ipec. Ambos depositaram no Centro de Estudos de Opinião Pública (CESOP) da Unicamp os microdados de 27 de suas 28 pesquisas realizadas ao longo da eleição de 2022, e mesmo nesses casos, há perguntas e microdados importantes que foram excluídos do banco de dados disponível no repositório.

Os demais institutos não tornaram públicos os microdados de suas pesquisas. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

Em 2026, temos a oportunidade de fazer algo diferente. Dos 31 institutos que registraram no TSE pesquisas apresentadas como nacionais, apenas 22 tiveram ao menos uma pesquisa com lista de municípios que cobria 20 ou mais estados, num total de 191 pesquisas.

Há pequenos avanços no detalhamento da metodologia. No segundo turno, quatro institutos declararam, em seus relatórios, que ponderaram ou controlaram a amostra pelo voto no 1º turno de 2026 (CNT/MDA, Ipespe, Palver e PoderData), mas apenas Palver e PoderData o registraram no TSE.

Em 2022, nenhum instituto declarou isso ao TSE. Ainda assim, sem os microdados, não é possível saber se as diferenças no resultado decorrem de mudanças de voto de última hora, da composição das amostras ou da ponderação.

Há grande necessidade de cobrar dos institutos maior transparência. Ela pode ser voluntária, como tem sido até agora, mas isso talvez não seja suficiente.

O caso das pesquisas do segundo turno de 2026 é ilustrativo. As estimativas em votos válidos dependem de quem entra nessa conta: toda a amostra, apenas os eleitores prováveis ou apenas os mais propensos a votar.

E essa definição só aparece nos relatórios divulgados voluntariamente, não no registro do TSE. Nexus/BTG e Datafolha utilizaram modelos de probabilidade de comparecimento.

A Nexus excluiu os 21% dos entrevistados menos propensos a votar e destacou o resultado desse modelo. O Datafolha destacou a amostra total e apresentou o recorte de alta propensão (76% do eleitorado) como informação complementar.

A Quaest divulgou apenas os votos válidos ajustados pelo “padrão e perfil de comparecimento”, sem informar a base de cálculo. Tal instituto também incluiu em seu questionário uma pergunta sobre o voto no 1º turno, mas não informou se o utilizou na ponderação.

A Gerp divulgou, além da estimativa principal, uma projeção baseada na votação oficial do 1º turno. A AtlasIntel informou que ponderou pelo “comportamento eleitoral anterior”.

Seu relatório cruza a intenção de voto com o voto no 2º turno de 2022 e no 1º turno de 2026, mas não especifica qual dos dois é considerado na ponderação, e seu registro no TSE lista apenas variáveis demográficas. Os outros cinco institutos (Alfa, Futura, Instituto França, Real Time Big Data e Vox Brasil) não fazem referência ao 1º turno.

Referências

Publicação Original Portal Jota jota.info
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