Reeleição de Lula contêm virada à direita da América do Sul, pode ser boa notícia para México, China e Europa, mas sem romper com EUA

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A reeleição do presidente Lula tem efeitos para além das fronteiras brasileiras. Não à toa, o pleito foi acompanhado tão de perto pela imprensa internacional.

A vitória de Lula contra Flávio Bolsonaro foi lida mundo afora como uma contenção ao movimento à direita dos países do continente. Ao vencer a eleição, Lula interrompeu sete vitórias consecutivas da centro-direita na América Latina.

Carlos Frederico de Souza Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), destaca que, nesse sentido, Lula impediu que Donald Trump conseguisse a peça mais importante que faltava no quebra-cabeça da América do Sul: alinhar mais esse governo à Casa Branca.

Uma eleição histórica, de emoção e reviravolta, e o desafio do dia seguinte Reeleição de Lula tem destaque na imprensa internacional

— O Brasil está relativamente cercado. Colômbia, Peru, Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Paraguai são hoje governados pela centro-direita.

O Brasil hoje está em minoria, então a integração tende a ficar mais pragmática, talvez com maior foco em comércio, energia e infraestrutura, enquanto a dimensão política perde espaço — diz Carlos Frederico. Se repetir, na nova gestão, os bons números do terceiro mandato, com o desemprego no menor patamar da história, crescimento da renda e inflação sob controle, Leonardo Paz, pesquisador da FGV e professor do Ibmec Rio, acredita que o desempenho de Lula pode influenciar uma mudança de rumo nas eleições presidenciais da Argentina, que acontecem no próximo ano.

— Os governos de direita que assumiram este ano, como os do Peru, Equador e Bolívia, não vêm bem. A imprensa argentina já vem comparando os números do governo Lula e de Javier Milei, o que tem causado incomodo no presidente argentino.

Se mantiver bons resultados no quarto mandato, acredito que possa influenciar uma mudança no país vizinho, diante do fato de que tudo indica que o poder de Donald Trump estará mais esvaziado, confirmada a perspectiva de perda nas eleições de meio de mandato na próxima semana — analisa Paz.

Para além dos Estados Unidos, o resultado acaba sendo recebido de maneira positiva por boa parte do mundo, embora por razões diferentes, afirma o analista de relações internacionais Uriã Fancelli. Ele explica que, para o México, o resultado é bom porque diminui o risco de a presidente Claudia Sheinbaum ficar ainda mais isolada diante das pressões norte-americanas.

Para a China, avalia, a reeleição de Lula significa manter um parceiro que valoriza uma ordem internacional mais multipolar. Para a Europa, pontua o analista, a manutenção da liderança preserva uma alternativa importante de parceria.

E, para muitos países africanos, continua Fancelli, é positivo porque mantém uma política externa brasileira que historicamente procurou dar mais atenção ao continente. — A partir do momento em que o Brasil, maior país da América Latina e uma das maiores democracias do mundo, rejeita a possibilidade de compactuar com esse projeto de Trump, isso manda uma mensagem importante para toda a região.

E aqui é importante fazer uma distinção. Rejeitar esse projeto não significa necessariamente rejeitar as relações com os Estados Unidos, mas rejeitar essa política norteamericana de dominação e de submissão de outros países aos seus interesses.

E isso mostra para a região e para o mundo que esse projeto está longe de ser uma unanimidade por aqui. E era algo que estava sendo observado com bastante atenção — afirma Fancelli.

A reeleição de Lula também é um banho de água fria na pretensão do governo de Donald Trump de levar o Brasil a se alinhar ao Escudo das Américas. Flávio Bolsonaro já tinha manifestado o interesse em aderir à iniciativa coordenada pelos Estados Unidos de combate aos chamados narcotraficantes, em conjunto com os países sul-americanos.

Na visão de Carlos Frederico, o Brasil pode concordar em cooperar, mas não quer fazer parte de uma iniciativa de segurança patrocinada e liderada pelo governo Trump, pelos Estados Unidos. — O combate ao narcotráfico é claramente uma estratégia de política externa americana para ter influência sobre a região.

Está nos documentos nacionais de estratégia dos Estados Unidos. É um retorno do que chamaram agora de Donroe, da América para os americanos.

Então, é um instrumento para exercer influência — ressalta o professor da PUC-Rio e da Eceme. Trump disse que a eleição no Brasil "parece fraudada".

Apesar desse cenário, os analistas não acreditam em qualquer ruptura das relações entre Brasil e Estados Unidos. Paz lembra que, depois do tarifaço americano, num primeiro momento, sob a justificativa do processo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, Trump retrocedeu, encontrou-se com Lula e negociou.

Fancelli também acredita na possibilidade de o presidente americano recalibrar seu discurso. — Acho que a porta do diálogo deve voltar a se abrir, por mais que possa haver algum tipo de tensão inicial, inclusive por conta das tentativas da família Bolsonaro de tumultuar esse processo.

A gente já está vendo o Eduardo Bolsonaro fazendo publicações em inglês, atacando a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, falando em fraude, tentando criar algum tipo de questionamento internacional sobre o resultado. Mas o fato é que Donald Trump não gosta de perdedores.

E, neste momento, Flávio Bolsonaro é um perdedor. Então, eu acho bastante possível que Trump, eventualmente, recalibre o discurso dele em relação ao Brasil.

Talvez Lula e Trump não sejam os melhores amigos, mas isso não significa que não possam construir uma relação mais pragmática — avalia o analista internacional. E acrescenta:

— O Brasil mostrou que não está disposto a embarcar automaticamente no projeto político de Donald Trump. O que não significa, evidentemente, que precise romper com os Estados Unidos, mas que pode continuar construindo relações com Washington, Pequim, Bruxelas e outras partes do mundo sem necessariamente se submeter aos interesses de nenhuma dessas potências.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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