A margem do milho da BrasilAgro caiu de 20% para 2% no trimestre de julho a setembro de 2026, o primeiro da safra 2026/27 da empresa. O dado está no relatório de resultados que a companhia entregou à SEC, a autoridade do mercado de ações dos Estados Unidos, em 3 de novembro de 2026.
No mesmo dia, a BrasilAgro cortou o milho do seu plano de plantio. O dono da conta é uma das maiores empresas de terra do país.
A BrasilAgro tem 254.548 hectares em seis estados, no Paraguai e na Bolívia. Ela planta soja, milho, algodão e cana e compra fazendas para desenvolver e vender depois.
O trimestre fechou com lucro líquido de R$ 81,3 milhões. No mesmo período de 2025, a empresa tinha tido prejuízo de R$ 64,3 milhões.
A virada, porém, não saiu da lavoura: saiu da venda de 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, em Correntina, na Bahia. A margem do milho é a sobra entre o preço de venda e o custo de produzir.
No trimestre, a BrasilAgro vendeu 69.923 toneladas de milho a R$ 790 a tonelada, em média. O custo foi de R$ 771 a tonelada.
Sobraram R$ 19 por tonelada. No mesmo trimestre de 2025, o milho saiu a R$ 822 a tonelada e custou R$ 661.
A sobra era de R$ 161 por tonelada. O preço caiu 4% e o custo subiu 17%, segundo a empresa.
Passando para a saca de 60 quilos, que é como o produtor fala, a conta fica assim: Os valores por saca são conta nossa: o valor por tonelada dividido por 1.000 e multiplicado por 60.
O relatório traz os números por tonelada. Isso explica por que a margem do milho virou o centro da conversa.
A empresa vendeu quase três vezes mais milho que no mesmo trimestre de 2025, e mesmo assim o lucro bruto do cereal caiu 65%, para R$ 1,35 milhão. Na soja, a margem ficou em 27%, contra 30% no mesmo trimestre de 2025.
No mesmo 3 de novembro de 2026, a BrasilAgro publicou um fato relevante com a nova estimativa da safra 2026/27. A área total ficou em 164.664 hectares.
A mudança grande está no milho. Comparada com a estimativa inicial da própria empresa para esta safra, a área de milho encolheu assim:
O corte do milho de primeira safra, de 15%, está concentrado em Mato Grosso, segundo a empresa. O de segunda safra é de 5%.
A explicação está no próprio documento. Sem recuperação no preço do milho, parte das terras menos boas para o cereal ficou em pousio ou recebeu plantas de cobertura.
Em outras áreas, a soja, com preço mais firme, passou a dar mais dinheiro que o milho e tomou o lugar dele. Na produção, a BrasilAgro agora projeta 73.123 toneladas de milho de primeira safra e 92.582 toneladas de segunda safra.
Somadas, são 165.705 toneladas, contra 181.430 toneladas da estimativa inicial. A diferença é de 15.725 toneladas, ou cerca de 262 mil sacas de milho a menos (conta nossa).
A soja sobe para 261.192 toneladas. Na coletiva de 3 de novembro de 2026, o presidente da BrasilAgro, André Guillaumon, resumiu o plano, segundo a Exame: “É ano de a gente fazer o feijão com arroz bem feito e colher uma produtividade boa na segunda safra”.
O mesmo fato relevante traz o custo por hectare previsto para a safra 2026/27. É a parte que mais interessa a quem faz a conta do produtor de milho:
O hectare de milho de primeira safra custa quase o mesmo que o de soja, com diferença de R$ 94. Com o milho pagando R$ 19 de sobra por tonelada no trimestre, a conta pende para a soja nas áreas em que as duas cabem.
O lucro veio da terra: em setembro de 2026, a BrasilAgro vendeu 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, em Correntina (BA). Desse total, 1.753 hectares são de área útil, vendidos por cerca de R$ 45 mil o hectare útil, segundo a mensagem da administração no relatório.
A conta da venda da Rio do Meio, como está no relatório: O ganho de R$ 50,8 milhões com a Rio do Meio equivale a cerca de 37 vezes o lucro bruto do milho no trimestre, de R$ 1,35 milhão (conta nossa).
Por hectare total vendido, o ganho foi de cerca de R$ 19,6 mil (conta nossa). O restante do lucro veio de outra fonte ligada à terra: a valorização de R$ 76,0 milhões dos valores que a empresa tem a receber por fazendas vendidas antes.
Esses recebíveis somam R$ 626 milhões, dos quais R$ 218 milhões vencem nos próximos 12 meses. A Rio do Meio já tinha passado por outra venda.
O relatório informa que 4.092 hectares da fazenda voltaram para a BrasilAgro depois que o contrato de venda feito em 2022 foi rescindido. Agora, parte dela foi vendida de novo.
Enquanto corta o milho, a empresa trava a soja. Segundo o relatório de 3 de novembro de 2026, 57% da soja da safra 2026/27 já está vendida com preço protegido, a US$ 12,26 por bushel.
O valor é 11% maior que o travado na safra anterior. A BrasilAgro também comprou 94% dos fertilizantes abaixo do orçamento.
Até a data do relatório, 68% da área de soja prevista estava plantada, 17 dias à frente da safra passada. A empresa diz que, diante da chegada do El Niño, revisou a janela de plantio e a mistura de culturas fazenda por fazenda.
O resultado é o que aparece no plano da safra 2026/27: menos milho em Mato Grosso, mais soja onde a conta fecha e terra em descanso onde o milho não paga. A BrasilAgro não fala pelo produtor, mas a conta dela é a mesma régua de quem planta.
Com preço de R$ 790 a tonelada e custo de R$ 771, a sobra do milho foi de R$ 1,14 por saca no trimestre. Na operação agrícola inteira, a receita líquida ficou estável em R$ 300,9 milhões.
O resultado operacional ajustado caiu 32%, para R$ 43,8 milhões. A dívida líquida ajustada caiu de R$ 280,5 milhões para R$ 136,3 milhões no trimestre.
Na prática, a safra 2026/27 da BrasilAgro vai ter menos milho e mais soja. A margem do milho caiu para 2%, e a empresa que planta em 164 mil hectares decidiu não insistir no cereal onde ele não se paga.
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