Pela primeira vez na história do Brasil, o Ministério das Relações Exteriores terá diplomatas representantes de povos originários. A quilombola do Retiro, Helen Jaine Gomes Borgens, e os indígenas Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Achkar Terena, do povo Terena, foram aprovados no Curso de Formação de Diplomatas (CFD) do Instituto Rio Branco (IRBr) e tomaram posse como diplomatas em cerimônia nesta quarta-feira, no Palácio Itamaraty, em Brasília.
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A goiana Helen Borgens nasceu na comunidade quilombola do Retiro, que integra a Associação de Comunidades Quilombolas Castelo, Retiro e Três Rios. A jovem estudou no Colégio Estadual Elvira Leão Barreto, no município de Simolândia (GO) e se formou em Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG).
Quando terminou a faculdade, voltou para a comunidade para estudar para o concurso. Incentivada a seguir na profissão por um professor durante estudos para o vestibular, em 2017, Borges disse à UFG que morar no interior dificultou o acesso aos estudos especializados para a prova e que estudou por conta própria.
Nas redes sociais, a jovem comemorou a posse com um versículo bíblico, que fala sobre os alegria e sonhos após momento de dificuldades. “Grande dia”, publicou na legenda acompanhada de fotos da cerimônia.
Natural de Campina Grande (PB), o indígena Marcelo Menezes é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), tem MBA em Digital Business pela Universidade de São Paulo (USP/Esalq) e atuou entre 2021 e 2025 como Engenheiro de Suporte a Produtos.
Ele é autor de um livro infanto-juvenil. Na cerimônia, Menezes afirmou que, na família, havia uma tradição permeando onde as pessoas como ele “enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais", no entanto, sua mãe viu na educação "uma porta para a vida" e o incentivou a estudar.
Já Idjahure Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Natural do Rio de Janeiro (RJ), Terena também é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Ele é filho do primeiro ator indígena do cinema brasileiro, o artista Macsuara Kadiwéu. — Estar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado — disse na ocasião.
O primeiro à esquerda: Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri. O último à direita, Idjahure Achkar Terena, do povo Terena.
Reprodução Instagram/Idjahure Achkar Terena Maior diversidade
Segundo o Ministério, a turma 2026-2028, composta por 60 diplomatas, se destacou pela diversidade, com a maior participação feminina da história, além de 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, duas indígenas e uma quilombola. No grupo, havia representantes de todas as cinco regiões do Brasil.
“O resultado representa avanço na promoção da diversidade no corpo diplomático brasileiro e dá continuidade à trajetória pioneira do Instituto Rio Branco na implementação de ações afirmativas, por meio da concessão de bolsas de preparação ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) e do mecanismo de convocação adicional de candidatas mulheres entre a primeira e a segunda fase do CACD”, diz o Ministério das Relações Exteriores.
O CACD é ofertado pelo Instituto Rio Branco, que faz parte do Ministério das Relações Exteriores e é considerado um dos concorridos do país. Se aprovado, o diplomata precisa realizar o Curso de Formação de Diplomatas no Instituto, que dura de três a quatro semestres e ocupa o cargo de terceiro-secretário na carreira diplomática.
O Globo