'Questões vão se ajustando': Dell minimiza impacto de tensões políticas no caminho do avanço da IA

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Em meio às incertezas políticas que cercam o desenvolvimento da inteligência artificial, principalmente após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a Dell Technologies não vê nas posições dos governos um obstáculo determinante para a expansão da tecnologia. Para a companhia, a demanda das empresas por ganhos de produtividade deve continuar impulsionando os investimentos no setor, independentemente das mudanças no cenário político.

A avaliação é de Luís Gonçalves, presidente da Dell Technologies para América Latina. Em entrevista exclusiva à Época NEGÓCIOS, ele afirmou que a companhia procura manter uma posição de neutralidade diante das disputas políticas, concentrando seus esforços no desenvolvimento de soluções e no atendimento às necessidades dos clientes.

"A tecnologia, independentemente dos sabores políticos que existam, se prova como um elemento que traz benefícios e ganhos de produtividade para as nações como um todo", afirmou. Questionado sobre os efeitos de mudanças no posicionamento dos governos brasileiro e americano em relação aos investimentos em IA, o executivo reconheceu que as decisões políticas podem influenciar o ambiente de negócios, mas ponderou que essas questões tendem a ser acomodadas ao longo do tempo.

"As questões políticas vão se ajustando ao longo do tempo, porque são questões que importam para todo mundo e que devem ser acomodadas dentro do contexto empresarial, do contexto de negócio e do contexto de desenvolvimento", disse. Na avaliação de Gonçalves, as disputas políticas não representam, neste momento, uma preocupação emergente para os negócios da companhia.

Ele também relativizou a possibilidade de que essas tensões provoquem uma desaceleração significativa na adoção da tecnologia. "A aceleração é mais ditada pela demanda de mercado, de necessidades que inclusive são compartilhadas por todo o ecossistema", afirmou.

Isso não significa, segundo ele, que as empresas devam ignorar as decisões dos governos. O executivo defendeu que o setor privado precisa compreender as demandas dos agentes públicos e das sociedades que representam, sem perder de vista as necessidades de seus clientes.

A perspectiva da Dell para 2027 é de uma aceleração dos investimentos em inteligência artificial, impulsionada principalmente pela passagem das empresas de uma fase de experimentação para outra de implementação em escala. Segundo Gonçalves, essa mudança já se tornou perceptível ao longo de 2026.

Se no ano anterior ainda havia dúvidas sobre a capacidade da tecnologia de gerar resultados concretos, agora as conversas com os clientes se concentram em como implementar soluções de maneira mais rápida, segura e estruturada. "Hoje já não tem mais o cliente que fala: 'Será que isso ajuda mesmo?'.

Hoje é: 'Como eu faço? Como eu faço rápido? Como eu faço seguro? Como eu faço com controle?'", afirmou. O amadurecimento, porém, não eliminou todos os desafios.

O planejamento continua sendo um dos principais pontos de atenção para empresas que desejam ampliar o uso de IA. De acordo com o executivo, muitas organizações desenvolveram projetos experimentais para testar a tecnologia, mas não estabeleceram previamente estratégias para expandir essas iniciativas caso os resultados fossem positivos.

"Muitas das provas foram feitas para experimentar se funciona, mas não houve um planejamento a princípio. E, se funcionar, o que eu faço com isso?", questionou.

Outro desafio envolve a preparação e a governança dos dados. Embora as empresas estejam mais conscientes da importância de organizar suas bases de informação, ainda precisam avançar em aspectos como segurança, rastreabilidade e controle sobre os sistemas de IA.

Custos pressionam decisões A expansão da inteligência artificial também acontece em um cenário de maior pressão sobre os custos de infraestrutura tecnológica.

Para Gonçalves, os clientes da Dell estão mais criteriosos na avaliação dos investimentos, buscando estabelecer prioridades a partir dos benefícios esperados e dos recursos necessários para alcançá-los. "Os clientes hoje estão sendo muito mais criteriosos nas escolhas que têm que fazer a respeito dos benefícios esperados versus o investimento", afirmou.

Segundo uma pesquisa realizada pela consultoria IDC, a pedido da Dell Technologies, 57% das companhias do país já utilizam a tecnologia em escala. Com a expansão, porém, surgem novos desafios: controlar os custos, garantir a segurança dos dados e preparar a infraestrutura para sustentar aplicações cada vez mais complexas.

Embora 45% das empresas já monitorem esse consumo, ainda não possuem práticas estruturadas para otimizar os gastos. Ao mesmo tempo, 93% esperam um aumento no volume de tokens processados nos próximos 12 meses.

Apesar disso, ele considera improvável que as empresas interrompam seus investimentos em tecnologia, uma vez que a infraestrutura digital passou a desempenhar um papel central nas operações. "Você não pode parar de investir em tecnologia porque hoje a tecnologia é a operação da companhia", disse.

Para o executivo, a pressão sobre os custos exige ajustes nas estratégias de aquisição, mas não representa uma situação inédita para o setor, que já enfrentou outros períodos de escassez e encarecimento de componentes. América Latina e pequenas empresas no radar

A Dell também enxerga oportunidades de crescimento na América Latina. Na avaliação de Gonçalves, o estágio de desenvolvimento tecnológico da região pode favorecer ganhos expressivos de produtividade com a adoção de inteligência artificial.

O executivo destacou a digitalização da população, o potencial demográfico e a disponibilidade de fontes de energia limpa como vantagens competitivas. Setores como agronegócio, energia, mineração e saúde estão entre aqueles que podem se beneficiar da expansão da tecnologia.

Outro segmento considerado promissor é o das pequenas e médias empresas. No entendimento do executivo da Dell, a evolução das soluções de infraestrutura pode permitir que negócios de menor porte adotem sistemas avançados de inteligência artificial sem depender de investimentos bilionários.

Ele citou como exemplo equipamentos compactos capazes de executar modelos de IA localmente, que poderiam ser utilizados por clínicas, escritórios de advocacia e empresas de contabilidade. O executivo também avalia que as PMEs podem, em determinadas circunstâncias, avançar mais rapidamente na adoção dessas tecnologias do que grandes corporações, graças a processos decisórios menos complexos.

Para 2027, a empresa espera que a implementação de inteligência artificial ganhe escala e abra espaço para novos modelos de negócios. "A expectativa é que nós venhamos a nos surpreender com empresas que vão estar trazendo inovações, servindo melhor seus clientes, e novas empresas que podem estar até desafiando os atuais incumbentes", disse.

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