'Quero ser o maior artista do Brasil': Pitiko, cria do Morro do Jordão, atinge 10 milhões de reproduções no Spotify em um ano

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Aos 19 anos, Pitiko ainda mora com os pais no Morro do Jordão, na Taquara, mas a sua música já circula além da comunidade. Em menos de um ano no Spotify, o cantor e compositor ultrapassou 10 milhões de reproduções e se tornou um dos destaques da Fresh Finds Brasil, playlist feita pela plataforma e dedicada a artistas em ascensão na cena musical brasileira.

“Como descobrir”, sua faixa mais ouvida, soma aproximadamente 5,3 milhões de execuções. O sucesso meteórico é registrado em 2026, mas o trabalho acontece há anos, desde a infância do bagunceiro João Cardoso.

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Família.Pitiko começou a tocar violão na infância com a mãe, professora de música; hoje, domina vários instrumento Divulgação/Pedro de Freitas

Até a última quarta-feira, o artista, que completa 20 anos em 28 de novembro, registrava 237,9 mil ouvintes mensais. Os números acompanham uma possibilidade que ele começou a rexperimentar este ano: a de viver da música.

O crescimento também alimenta um desejo compartilhado com a família, o de sair do Jordão. Os pais preferem a Barra ou o Recreio; já o artista sonha com Ipanema ou Leblon.

— Eu sou muito grato ao Morro do Jordão, moro a minha vida inteira aqui e foi onde cresci musicalmente também. Só que eu não posso negar que um dos meus sonhos é realizar a vontade dos meus pais de morar na Barra ou no Recreio.

E ainda tenho o meu, de morar nos cenários de novela da Zona Sul — revela Pitiko. Ele conta que a infância teve como cenário principal o quintal da casa onde vive até hoje.

Caseiro, brincava sozinho, inventando aventuras em que combatia diferentes inimigos, como zumbis. Utiliza cabo de vassoura, toalhas e o que mais tivesse no entorno para dar asas a imaginação.

Também foi ali, no quintal, que ganhou gosto pelo futebol e descobriu sua paixão pelo Flamengo, antes de ir jogar bola pelos cantos do Jordão. Naquele menino que se descreve como distraído, a música despertava uma concentração especial.

Gilberto Gil em Niterói: aniversário da cidade terá show gratuito Sapeca na infância, Pitiko conta que bastava a mãe colocar um DVD de Michael Jackson para prender sua atenção por tempo indeterminado.

Até hoje, o Rei do Pop é o seu maior ídolo. O “pitiko” da família — daí o nome artístico — também admirava Jorge Ben Jor, Djavan, bateria de escolas de samba e outras referências da black music.

— Eu sou e sempre fui muito disperso, mas a música sempre me trouxe muito foco. É como se eu fosse hiperfocado.

E a minha família é toda musical. Quem não canta, toca ao menos um instrumento.

Cresci rodeado de diferentes referências e sempre consumindo música para fazer as tarefas. Na família materna, com raízes no Morro do Salgueiro, na Zona Norte, o samba atravessa gerações.

O avô tocava gaita, a avó cantava e um tio é percussionista da vermelho e branca até hoje, mas Pitiko escolheu a Portela como seu pavilhão. O pai é um incansável ouvinte de músicas; já a mãe tentou seguir carreira como cantora, fez faculdade e se tornou professora de música.

Foi ela quem deu ao filho os primeiros ensinamentos sobre violão e teclado. Hoje, Pitiko também toca cavaco, flauta, conga e pandeiro.

— Minha mãe me ensinou muito. É a pessoa mais importante para eu ser quem sou hoje.

Mas eu também me esforço. Tenho dificuldade com a parte teórica da música, então, comecei a entender como me desenvolver através da observação e intuição — afirma.

Sem saber ler partituras, ele recorria às aulas da plataforma Cifra Club na internet: pausava os vídeos, observava a posição dos dedos do professor e tentava reproduzir tudo. Quando errava, voltava ao início da música e recomeçava.

O exercício foi se transformando em repertório para criar melodias próprias. A primeira composição surgiu por volta dos 11 anos, já com letra.

O tema era a vontade de viajar, sair de casa e conhecer o mundo, uma pequena revolta de quem passava tanto tempo no ambiente doméstico. Ao se lembrar daquele desejo, ele ri da mudança de perspectiva:

— Hoje eu vivo na rua, então quero ficar em casa. A exposição nas redes sociais começou há cerca de três anos.

Os vídeos tocando pagode e partido-alto com a família ganharam visibilidade, mas ser reconhecido pelas próprias canções exigiu outra etapa. Ele conta ter passado um ano tentando se desvincular da imagem de influenciador, em meio a publicações que não alcançavam a repercussão esperada.

— Fiquei um ano persistindo, lançando vídeo e dando errado. Você tem que ser muito persistente, tem que ter muita fé, tem que ser positivo — diz.

O vídeo de “Como descobrir”, lançado em fevereiro, marcou a virada. A repercussão ajudou a acelerar outros lançamentos: segundo Pitiko, foram mais de dez músicas este ano.

Ele formou uma equipe que o auxilia nas questões burocráticas e na chegada das faixas às plataformas, lançou um EP e o álbum “Pitiko acústico”, ganhou vida em setembro. Agora, prepara seu primeiro álbum produzido em estúdio, ainda sem título.

Os shows também começaram a entrar na rotina, com apresentações no Rio e em São Paulo e planos de cantar em Minas Gerais. Ele destaca o carinho dos fãs, inclusive crianças, e associa essa aproximação ao repertório leve, em que fala de amor.

Referências musicais Romântico.

“Buquê de rosas” é uma das cinco músicas mais ouvidas do artista nas plataformas digitais Divulgação/Rafael Tenenbaum

Para construir esse som, o samba e o partido-alto da família se encontram com o samba-rock e referências africanas. Jorge Ben Jor é seu principal ídolo brasileiro, seguido por Djavan.

O primeiro se faz presente em audições diárias, na admiração pela liberdade de abordar diferentes assuntos e no sonho de um encontro. Fora da rotina de gravações e palcos, Pitiko tenta organizar uma rotina de acordar cedo, malhar e se alimentar bem.

Ao chegar em casa, costuma pegar o violão sem compromisso. Nessas horas surgem novas melodias.

A inspiração tem, para ele, um componente espiritual, diz. Filho de testemunhas de Jeová, religião que respeita, mas escolheu não seguir, Pitiko diz agradecer antes de compor.

Também tem o hábito de pegar o instrumento quando vê o relógio marcar 23h23, horário que associa à proteção espiritual. As ideias, porém, podem aparecer a qualquer momento: se uma melodia vem durante um deslocamento de moto, ele recorre ao gravador.

O crescimento profissional convive com a ansiedade de melhorar a vida dos pais. Ao explicar a vontade de deixar o Jordão, ele relata preocupação com a violência:

— Está sendo maravilhoso, porque o sonho da minha mãe está se realizando através de mim. Mas, ao mesmo tempo, é um pouco agoniante; porque falta pouco, mas ainda falta.

Nos planos estão grandes shows e apoio à comunidade, com cestas básicas e projetos sociais, quando estiver mais estabelecido. Ao falar do lugar que pretende ocupar na música, ele combina a expectativa com uma declaração de confiança:

— Quero ser o maior artista do Brasil, e eu vou lutar para o povo ver isso.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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