Por Fernando ClaurePostado em 31 de outubro de 2026 Todo mundo sabe que o Queens of The Stone Age é uma banda diversa.
Se comparar álbuns como "Rated R" com "Lullabies to Paralyze" e "Era Vulgaris" com "Villains", é quase impossível não perceber a mudança drástica em estilo, referências e execução. O que torna cada projeto da banda único, além da experimentação com novas ideias, é a vivência do vocalista e idealizador do grupo, Josh Homme.
Por isso, para entender mais sobre o novo disco, "Perfecth", é preciso ter em mente alguns acontecimentos na vida do líder da banda. O guitarrista principal, vocalista e idealizador do projeto inteiro sempre refletiu suas ideias pessoais e profissionais em suas composições.
Do primeiro álbum do Queens até o mais conhecido, Songs For The Deaf, é possível ouvir o talento de Homme amadurecendo para uma sonoridade própria, saindo das raízes do Kyuss e se transformando em um hard rock original, atrevido, que encanta o ouvinte com uma criatividade muito bem focada.
Depois dessa época áurea, Josh divagou com o grupo pelo resto da década de 2000 com "Lullabies To Paralyze" e "Era Vulgaris", duas gravações muito experimentais com certas sonoridades que acabaram agradando poucos, salvo alguns singles seletos que serviram para agitar o mercado da época.
A vida de Josh Homme acabou virando de cabeça para baixo no início da década de 2010. Depois de uma grave complicação durante uma cirurgia no joelho em 2010, o músico então se retraiu e desenvolveu um estilo mais introspectivo e reservado para sua próxima obra, "...
Like Clockwork". Aclamado pela crítica e pela grande maioria dos fãs, o álbum parecia marcar uma nova trajetória para a banda, uma nova época de sucessos, mas sem a presunção de "Songs For The Deaf", o que não acabou sendo o caso após a sequência, "Villains", sair em 2017.
Com um estilo mesclado entre pop rock e indie à la Josh Homme, o projeto acabou desagradando tanto fãs atuais quanto possíveis fãs. Seis anos após "Villains", o músico retornou aos fones de ouvido como uma fênix incompleta, com muitas cinzas expostas, em "In Times New Roman…".
Além da pandemia de COVID-19, durante o período de gravação e composição do álbum, Homme passou por uma longa e intensa batalha na justiça por conta de seu divórcio com Brody Dalle (The Distillers) e a guarda de seus filhos. Como se não bastasse, ele ainda passou por uma cirurgia importante e complicada para retirar um tumor cancerígeno.
Assim como nos outros álbuns, esse intenso conflito guiou o processo criativo da banda, que abordou o estilo sonoro do álbum com mais riffs cativantes, menos experimentações, mais intensidade e muitos violinos. Sendo assim, onde se encaixa o novo projeto, "Perfecth"? Após o fim da trilogia e durante a gravação do álbum da banda nas Catacumbas de Paris, Homme revelou para o portal Consequence que teve que passar por mais uma cirurgia intensa, que, de acordo com ele, aconteceu 20 horas depois das gravações.
Essa nova emergência fez com que a banda cancelasse o resto da turnê e deixou o vocalista sozinho na sua cama por sete meses. Uma experiência que, com toda certeza, viria a influenciar o novo projeto do Queens.
A primeira faixa, intitulada "It's Only Love", infelizmente segue um estilo que vai do gosto de cada um, mas que não me agrada muito: A música é estruturada para introduzir o álbum. Isso significa que ela acaba perdendo identidade e qualquer motivo para ouvi-la solo, servindo apenas para dar sequência ao álbum.
A melodia, por si só, é um pouco repetitiva, com os violinos que sobraram de "In Times New Roman…" eventualmente aparecendo para acabar com a monotonia. Em seguida, "Insignificant Other", um dos quatro singles disponibilizados para promover o álbum, chega com um ritmo fino e elegante nos instrumentos.
O baixo de Michael Shuman e a bateria de Jon Theodore estendem um tapete vermelho para as guitarras de Homme e Troy Van Leeuwen desfilarem. A criatividade da banda brilha no equilíbrio entre as duas pontes mais extravagantes e a suavidade dos riffs.
Apesar de acabar se estendendo um pouco, chegando a quase seis minutos, o estilo dos instrumentos faz valer cada segundo. A terceira faixa, que também foi o terceiro single do álbum a ser lançado, é um pouco conturbada.
"Where The Goth Girls At?" (Onde Estão as Garotas Góticas?) restringe todos os instrumentos a um ritmo que parece ter sido programado em um computador. A cadência da bateria, mais exata e constrita, é tão evidente que toma conta da personalidade da música inteira.
Isso até o final, quando os violinos voltam como um canto de liberdade e liberam a explosividade da banda, similar à época de "Songs For The Deaf". "Mono" vem em seguida, a faixa mais experimental do álbum inteiro, o que acaba sendo uma aposta (perdida).
A mistura de efeitos sonoros, instrumentos clássicos e a presença de um reverb bem mais acentuado do que deveria ser cria uma mistura caótica e difícil de entender como que, durante o processo criativo do álbum, veio a ser concebida. Se o final de "Where The Goth Girls At?" relembra a época mais intensa da banda no início da década de 2000, "Mono" surge como uma ideia descartável do período entre "Lullabies to Paralyze" e "Era Vulgaris".
A primeira faixa acústica do álbum, "From The Cliff" aparece como a calmaria necessária depois da bizarrice da música anterior. Apesar de refrescar o álbum com instrumentos incomuns, como um mellotron e uma guitarra dobro, não há muita animação a ser sentida nesse encerramento da primeira metade do projeto.
A sensação intimista e suave que a música transmite é de que Josh Homme surgiu dentro do seu alto falante ou fone de ouvido, sacou um violão e então começou a cantar e tocar. Na sexta posição, "Sunday" é a única música que não é original do álbum, sendo uma regravação.
A faixa original foi escrita por Homme, Dean Fertita e Iggy Pop para o álbum "Post Pop Depression", de 2016. Apesar de incorporar o estilo sonoro do LP nessa, a faixa é relativamente idêntica ao que foi proposto uma década atrás, com a mesma estrutura, uma cota da minutagem cortada e sem o elemento mais importante da música original, a voz de Iggy Pop.
Em seguida, o primeiro single de "Perfecth", "Easy Street", destaca a voz de Homme de maneira que as outras faixas não conseguiram. A flutuação na entonação dos versos segue um padrão que o vocalista consegue sustentar muito bem.
Em vez de intercalar entre agudos fortes e graves suaves, a voz do líder do grupo atinge o melhor do meio termo que o gogó dele pode providenciar. A oitava e penúltima faixa do álbum, "Phantom Limb" foge da sonoridade experimental, acústica, elegante ou artificial que as outras faixas demonstraram até então.
Ao invés disso, a banda aborda a música com foco nas letras de Homme, que trazem uma temática mais solitária e introspectiva. Isso porque o instrumental soa como uma música indie da década de 2000, o que não é ruim, mas que acaba pesando na originalidade sonora.
"Run Away From The Mob" encerra o projeto como um amálgama de todas as músicas anteriores e o que elas queriam transmitir. O violão de "Easy Street", a suavidade de "Insignificant Other", os elementos surpresa de "Mono" e a reviravolta sonora nos últimos momentos da faixa, como acontece em "Where The Goth Girls At?".
Diferentemente de como o álbum começa, a última faixa não serve apenas para encerrar o projeto, ela cai bem ao ouvir individualmente. Levando em conta o fato de que a gravação foi feita durante as sessões de "...Like Clockwork" em 2013, "Run Away From The Mob" põe um ponto final extremamente satisfatório à última trilogia da banda.
A proposta do novo álbum é sólida e mantém o padrão de qualidade esperado do Queens of The Stone Age, mas, assim como "Room On Fire" foi considerado mais do mesmo de "Is This It" para o The Strokes, "Perfecth" acaba existindo apenas como uma extensão do álbum passado.
Com uma minutagem curta para um projeto de nove faixas, elementos reciclados e poucas liberdades criativas exploradas, o novo LP do grupo de Josh Homme não consegue estabelecer uma identidade única e poderia facilmente ser lançado como uma versão especial de "In Times New Roman…" ou como um EP.
1- It's Only Love2- Insignificant Other3- Where The Goth Girls At?4- Mono5- From The Cliff6- Sunday7- Easy Street8- Phantom Limb9- Run Away From The Mob Créditos:Josh Homme - Guitarra principal, violão, mix, teclado, mellotron e vocalTroy Van Leeuwen - Guitarra rítmica, back vocals, violão e pianoMichael Shuman - Baixo, violão, mellotron, teclado "bass" e back vocalsDean Fertita - Piano, sintetizador, mellotron e guitarra havaiana.Jon Theodore - Bateria e back vocals
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