Que Jogo É Esse: Muslera e Léo Jardim. É preciso voltar ao gol

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quem viu Muslera defender três pênaltis no Maracanã nesta quinta-feira talvez tenha alguma dificuldade para reconhecer o goleiro que deixou a Copa do Mundo quatro meses atrás. Também ajuda o fato de que, entre uma partida e outra, ele trocou de camisa, de companheiros e de gente disposta a xingá-lo.

Mas era o mesmo homem, com as mesmas mãos pelas quais havia passado uma bola que poderia ter segurado. Aos 40 anos, Muslera tem uma carreira comprida o suficiente para saber que nem sempre é possível escolher por qual pedaço dela seremos reconhecidos na rua.

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Na Copa, uma falha contra a Espanha e a substituição no intervalo deram ao uruguaio motivos para desejar alguns dias sem encontrar ninguém. Não sei se desejou.

Sei que eu teria alguma dificuldade até para receber uma encomenda, desconfiado de que o entregador, antes de pedir o código, faria uma observação sobre fechar as pernas ou juntar as mãos. Há uma generosa oferta de conhecimento sobre a profissão dos outros, especialmente quando se pode exercê-la de chinelo, com acesso ao replay e sem que uma bola venha na nossa direção.

Guardadas as proporções, conhecemos o caminho de volta nos nossos próprios trabalhos. A reunião em que falamos demais, o erro que sobrou para um colega corrigir, a mensagem falando mal de alguém enviada, por alguma competência especial dos nossos dedos, ao grupo em que a pessoa está.

Depois das explicações, das desculpas e de uma noite dedicada a imaginar maneiras de sumir, chega a hora de aparecer. O elevador continua levando ao mesmo andar.

Tem quem nos receba com naturalidade, tem quem tenha preparado uma piada e há o sujeito cujo excesso de delicadeza faz a gente perceber que a besteira foi ainda maior do que parecia. Muslera precisou seguir trabalhando por dias depois da Copa sem saber que teria aquela noite no Maracanã.

É uma parte que costuma sumir quando contamos a trajetória de redenção de alguém depois de uma grande atuação. Depois que dá certo, fica mais fácil contar os meses anteriores como se tudo estivesse conduzindo àquela noite.

Para quem está vivendo, deve ser bem mais confuso. O goleiro voltou a treinar, jogou outras partidas e correu o risco de falhar de novo - e falhou, sem uma garantia de que, em outubro, haveria um Maracanã inteiro lamentando a qualidade do seu trabalho.

Dois dias antes, Léo Jardim havia saído daquele estádio levando um erro para casa. O chute de Paredes passou, o Vasco foi eliminado, e o goleiro que tantas vezes ofereceu algum sossego ao vascaíno estava no centro da aflição.

Em tantas noites recentes, quando a defesa se atrapalhava ou os pênaltis se aproximavam, era nele que o torcedor procurava uma razão para ficar um pouco menos nervoso. Na terça, a bola entrou justamente por onde se esperava encontrar uma solução.

A confiança também explica o tamanho do susto. Quem acompanha o Vasco se acostumou a pedir a Léo que desse um jeito, inclusive em situações nas quais seria razoável perguntar o que estavam fazendo os outros dez.

Goleiros muito exigidos adquirem essa obrigação informal de consertar o expediente inteiro. Uma defesa difícil passa a fazer parte do serviço, outra ainda mais difícil confirma que está tudo sob controle.

Até o dia em que quem costumava ajudar precisa de ajuda, diante de milhares de pessoas que, naquele instante, têm seus próprios motivos para querer ir embora. É possível ficar furioso com aquela bola e continuar reconhecendo o goleiro que tentou segurá-la.

Imagino que muito vascaíno tenha passado a terça nesse desconforto, entre o impulso de reclamar e a lembrança de quantas vezes comemorou graças a ele. Na hora da eliminação, é difícil dar a todas essas lembranças o espaço que elas merecem.

Léo terá de reencontrar essa torcida, já no sábado. Alguns chegarão à próxima partida prontos para aplaudir.

Outros vão precisar da primeira defesa. Ele estará no gol para todos.

Seria bom poder oferecer a Léo uma quinta-feira como a de Muslera, com data marcada e três pênaltis defendidos, mas ninguém tem essa informação. Nem o uruguaio tinha.

Uma noite feliz de Libertadores também não muda a despedida do Uruguai na Copa, assim como o próximo grande jogo de Léo não desfará a eliminação do Vasco. Ainda assim, haverá gente esperando por ele, companheiros contando com suas mãos, torcedores querendo confiar nele outra vez.

Depois de uma semana dessas, a gente entende melhor o esforço que pode existir num gesto tão habitual: vestir a roupa de trabalho e sair de casa.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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