A trajetória do ex-lateral-direito Lucas Marques, 38 anos, inicia no campo do interior de Franca, um período como “Menino da Vila” no Santos, e passa pelo alojamento embaixo das arquibancadas do Estádio Orlando Scarpelli, onde o sonho de se tornar profissional se concretizou com a camisa do Figueirense.
Depois, vive o extraordinário ao defender a seleção brasileira em dois amistosos e a carreira chega ao fim precocemente aos 32 anos por escolha própria. Hoje morando em uma confortável casa no Córrego Grande, o ex-jogador relembra os tempos do campo, a viralização do perfil nas redes sociais e a importância de ter poupado dinheiro para ter uma vida tranquila com a esposa e as duas filhas.
Em seu santuário com quase 200 camisas de times, assim como troféus e chuteiras, Lucas deixou a “Porta Aberta” para a reportagem do jornal ND e portal ND Mais contar um pouco da sua história no futebol. Sou nascido em Minas Gerais, em Passos, e criado em Franca, que fica logo ao lado, no interior de São Paulo.
Com 15 anos saí para jogar em Atibaia, no Centro de Treinamento onde fazia antigamente muito intercâmbio com japonês, chinês, coreano etc. Eu comecei na escolinha de futebol como todo garoto, logo em seguida já ingressei no time da cidade, a Francana.
A categoria de base do clube era movida pelos pais, eles que basicamente sustentavam os garotos naquela época. Um empresário, Paulo Roca, me fez um convite para vir fazer um teste no Figueirense em 2006.
Venho para Florianópolis e aqui começo a realizar o teste na base, era idade de juniores, e o técnico era o Rogério Micale. Em duas semanas fui aprovado no teste e aí começou a minha trajetória dentro do Figueirense.
Fiz teste em vários outros clubes, meu pai era meu maior incentivador e me levava para tudo que era lugar. Fiz teste no São Paulo e não passei.
Fiz teste no Corinthians, não passei. Fiz teste na Portuguesa, não passei.
Fiz teste no interior de São Paulo, num time chamado São Carlense, também não passei. Então fui fazendo vários testes e não conseguia passar, até que um dia pintou uma oportunidade de fazer um teste no Santos.
Joguei um ano de base no Santos, isso como juvenil, e logo em seguida venho para o Figueirense e inicio a base. Eu fiquei no alojamento ali no estádio Orlando Scarpelli, debaixo da arquibancada, morei por algum tempo.
Foi bem legal, foi uma experiência muito bacana. Ali conheci uma galera que a gente tem amizade até hoje.
Naqueles quartos com a arquibancada como teto foi onde tudo começou em Florianópolis. Meu pai foi meu maior incentivador, sem dúvida.
Eu lembro quando era para eu vir para Florianópolis e a gente não tinha muitas condições financeiras (se emociona ao lembrar) e ele sempre trabalhou, batalhou. Para vir a gente não tinha dinheiro para sair de São Paulo, eu estava em Atibaia.
Liguei pra ele e disse que era meu sonho, que precisava vir para Florianópolis, e ele deu um jeito. Vim com o dinheiro da passagem para vir, não tinha para voltar se não desse certo.
Meu pai sempre falava assim para mim: “Lucas, é muito engraçado como tudo aí no Figueirense acontece de maneira muito boa para você”. Meu primeiro jogo no profissional foi em 2007, o Figueirense tinha um time B ainda e completava com alguns atletas juniores.
Naquela época era um momento bom, tanto na Série A, Copa do Brasil e Catarinense. Eu entro no Estadual, mas lembro exatamente do primeiro na Série A.
O técnico Mário Sérgio (morto na queda do avião da Chapecoense) me leva para esse jogo em São Paulo e escala um time praticamente reserva e eu era juniores. Um volante, acho que o Diogo Roque, foi expulso e o Mário Sérgio me coloca no jogo.
Era o Palmeiras no antigo Parque Antártica. Eu entro, estou jogando, e quando olho para o lado estava o Edmundo.
Eu falei assim: Caramba! Agora acho que o negócio ficou de verdade mesmo. A gente perdeu esse jogo de 2 a 1, se eu não me engano, o Valdivia fez dois gols pelo Palmeiras e acho que o Peter fez o gol do Figueirense.
Depois, o Mário Sérgio, por eu ter entrado bem, me leva também para o jogo contra o Botafogo, aquele jogo da bandeirinha (Ana Paula de Oliveira), da Copa do Brasil, que a gente vai para a final da competição. Acontece toda essa situação de 2007 e pensava que em 2008 iria me consolidar no profissional.
O Abelha era o treinador de goleiro no Figueirense e ele era de Sorocaba. Eu não estava jogando no profissional e tinha idade de juniores ainda, o Gallo era o treinador do profissional do Figueirense na época, e o pessoal que foi campeão da Copinha teria espaço – não joguei porque era um ano mais velho.
O Abelha chega para mim e diz para eu ir para o São Bento, de Sorocaba, por empréstimo. Ele conhecia o pessoal, eu iria jogar, era o Paulistão e aceitei.
Fui para lá, o Figueirense em 2008 caiu para Série B e aí quem monta o time de 2009 foi o próprio Abelha. Ele me ligou e disse: “Lucas, muito obrigado por ter ido para o São Bento, agora volta que você vai começar a Série B com a gente aqui no elenco profissional.
Você vai começar, mas aí é contigo se você vai jogar ou não”. Retornei para o Figueirense em 2009 e começo jogando, porque aí já volto mais cascudo.
Eu jogo em 2009, a gente não sobe, jogo 2010 e fiz mais de 100 jogos pelo Figueirense nesses dois anos. Era um timaço e eu fiz uma baita de uma Série B.
No final do ano vem o Botafogo atrás de mim. Tinha propostas do Botafogo e do Grêmio, as duas na mesa.
O Figueirense é um clube gigante e acho que fiz minha trajetória até ali e era a hora de sair, até porque tinha o Bruno também na lateral. Ali eu saio e vou para o Rio de Janeiro.
O Botafogo foi o clube que passei mais tempo, tenho muitas memórias boas e fiz amizade com muita gente. A minha filha mais velha é manezinha, nasceu em Florianópolis, mas viveu muito no Rio e até hoje é botafoguense.
Joguei com muitos caras bons, tinha Maicosuel, Loco Abreu, Herrera, logo em seguida veio o Seedorf, Rafael Marques, o Antônio Carlos, zagueiro.Sou muito grato ao Botafogo porque eu tinha um sonho de vestir a camisa da seleção brasileira e foi através do Botafogo que realizei esse sonho.
De tudo que vivi dentro do futebol, a emoção maior dentro de um campo foi vestir a camiseta da seleção brasileira e ouvir o hino nacional. Quando a gente fez o primeiro jogo, em Goiânia, no Serra Dourada, e depois na Bombonera, em Buenos Aires, eu lembro como se fosse hoje das pessoas cantando o hino.
Quando você entra e perfila, eu joguei de titular, entrei com a camisa dois, mas a cena de ver o estádio todo cantando o hino era de arrepiar, assim. Não lembro nem dos lances, mas essa de ver a torcida me marcou muito.
Sempre pensei que uma hora (ser jogador) iria acabar. Do jeito que tem um início, um meio e um fim, eu pensava que precisava ter recordações e lembranças para eu ver depois, minhas filhas, meus netos.
Fui guardando tudo, desde camisetas que trocava após os jogos, páginas de jornais, tudo. Na seleção brasileira, como não sabia se iria voltar, guardei tudo que tinha direito, calção, short, meião, sunga, chuteira, tudo.
Sempre imaginava que depois de parar de jogar não ia adiantar eu chegar com as minhas camisetas lá no mercado e dar um “carteiraço”. Nas baladas até dava, dizia que era jogador do Figueirense (risos).
Pensava que um dia aquilo iria acabar e precisava me resguardar, tanto nas coisas como no dinheiro. Sempre fui meio pão-duro.
Brinco que nos estacionamentos dos clubes onde eu passava parecia uma concessionária de carro de luxo, todo mundo com carrão e o meu era o mais simples. Guardei boa parte do meu dinheiro que ganhei no futebol para poder desfrutar depois que eu me aposentasse.
Fui fazendo essa trajetória de guardar sem pensar muito em como guardar, mas só não gastava. Em 2016, quando eu fui para o Cruzeiro, conheci a galera da Top Soccer, que trabalha com jogadores, e comecei a estudar.
Fiz bastante curso no mercado financeiro para entender como funciona um investimento, CDB, ações, LCI, LCA, Tesouro Direto, então fui estudando. Hoje, por exemplo, sei exatamente onde meu dinheiro está, onde investi, quanto que me deu de rentabilidade, o que eu perdi.
Até hoje aprendo, gosto de estudar sobre isso também. Tenho uma loja de e-commerce de vestuário.
Meu irmão já vinha com essa empresa, tinha loja física, e sempre ajudei eles no sentido de vender mesmo. Eu ia nos clubes e eles diziam para eu vender um short.
No Vitória, da Bahia, eu levava os shorts e deixava para quem quisesse e vendia. Um dos maiores clientes era o Arouca, um irmão do futebol, que sempre pedia.
Já fazia isso e nem sabia que iria me tornar sócio deles, meu irmão Rafael e o nosso amigo de infância Calebe. Quando saí do futebol eu realmente não queria voltar.
Tenho uma imagem muito boa do campo, mas fora existe uma politicagem tão grande. Quando fui ficando mais experiente e capitão de alguns times, como o Palmeiras, tinha que discutir bichos, salários, prêmios e via o que era de fato os bastidores.
Nunca me bateu uma vontade enorme de vivenciar o futebol de novo. Não posso dizer que nunca vou fazer isso.
Uma série de coisas me levaram a parar. Em 2017 comecei a construir minha casa em Florianópolis, em 2019 ela fica pronta.
Fiz contrato com o Palmeiras de cinco anos e então fui sendo emprestado para os clubes. Vivi dentro do futebol longe da minha primeira filha, agora ela está com 13 anos, e longe da minha esposa.
Ela ficou estudando, minha esposa é médica, estudou em Florianópolis e depois fez residência no Rio e eu viajando. Eu queria parar com 35, mas com o fim do contrato no Palmeiras apareceram clubes de fora e fui segurando, mas quando pintou o Figueirense e o Felipe Gil me ligou, eu nem discuti salário, aceitei.
Só falei: “Vamos porque acho que as coisas estão acontecendo realmente para eu parar. Casa pronta, minhas filhas pedindo para eu ficar em casa”.
Como comecei aqui, sempre quis voltar para o Figueirense. Sempre tive o desejo de voltar para o Figueirense.
Falei para a minha esposa e as meninas que iria acertar e encerrar aqui. Fiquei seis meses, veio a pandemia.
Então fico ali no Figueirense uns seis meses, veio a pandemia também. Boas, cara.
Somente boas. Eu não tenho do que reclamar.
Conheci muitas pessoas legais através do futebol, viajei de avião, conheci outros países, posso dizer que conheci minha esposa porque saí de Franca, no interior de São Paulo, para conhecer uma manezinha. Realizei sonhos, hoje a casa que meus pais moram é uma casa minha, uma casa boa que eles conseguem levar os netos, que são filhos dos meus irmãos, ter a casa própria.
Consigo viver ainda muito por conta do que o futebol me proporcionou. Consegui fazer amigos no futebol.
Marquinho, um amigaço que eu tenho, hoje mora em Florianópolis também, que jogou no Fluminense, joguei com ele no Fluminense e no Figueirense também. O Juninho, meu brother, sou padrinho da filha dele, Juninho, lateral-esquerdo.
O Márcio Azevedo, jogamos no Botafogo, o Thiago Silvy encontrei recentemente, um cara muito legal. O Rafael, zagueiro e gêmeo do Cássio, que jogaram no Avaí, são meus amigos.
São muitos, além de conhecidos e muita gente dos lugares onde passei. Eu não tinha Instagram, minha vida dentro do futebol, quando eu jogava, era zero redes sociais.
Quando comecei com a empresa criei o meu perfil e não era a ideia viralizar nem nada. Começou quando postei um vídeo com o Estêvão, do Chelsea, porque o pai dele foi meu treinador lá em Franca.
Quando cheguei no Cruzeiro ele estava na base e tirei uma foto com ele. Aí postei essa foto, na época ele tinha nove anos, e viralizou com mais de 3 milhões de visualizações.
Veio um amigo comentando “Lucas, ver você jogando no Cruzeiro era pior que comer carne, era horrível”. Eu brinquei e disse que também achava, porque não tinha jogado nada no Cruzeiro.
Cara, isso viralizou e foi para os portais. Um outro falou que eu era o “ídolo reverso, não jogou nada e agora é o melhor”.
Fui brincando também e realmente eu acho que não joguei nada no Cruzeiro mesmo, sou bem honesto em dizer. Criei uma expectativa muito grande e um futebol muito abaixo.
Hoje a torcida do Cruzeiro vira e mexe vem no meu Instagram (@lucas.rios.marques). Postei que foram mais de 30 jogos irritando a torcida do Cruzeiro (risos).
Comecei a entrar na onda e brincar com a galera.
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