A Superliga de Vôlei masculino começa neste sábado com 12 equipes, sendo dez do Sudeste (cinco de Minas Gerais e cinco de São Paulo), uma do Centro Oeste (Goiás) e uma do Nordeste (Ceará). Marcelo Negrão, de 53 anos, campeão olímpico em Barcelona-1992, é o responsável por levar o único clube nordestino à elite do vôlei.
Campeão da Superliga B, o Norde Vôlei, do Ceará, conquistou vaga na Superliga 2026/2027 e quer usar a vitrine do principal torneio de vôlei do país para desenvolver o esporte na região. Essa é a primeira vez que o Norde disputará a elite do vôlei nacional.
Campeão da Superliga C no ano passado, o time venceu a Superliga B e em abril foi promovido à elite para a temporada 2026/2027. — Pensei assim: 'Se no Nordeste não tem ninguém e eu conseguir alguma coisa, eu serei o cara que conseguiu.
Se eu ficar no Sudeste serei mais um. Mais um técnico que trabalhou aqui, saiu dali.
E eu acho bacana começar do zero, ser o dono do time... — explica Negrão, que não tem vida fácil por lá.
— Alguém precisava começar e eu fui este doido. Norde Vôlei comemora título da Superliga B, em casa: vitória contra Montes Claros
Mauricio Val/FV Imagem/CBV O ex-jogador tem relação sentimental com o Nordeste.
Ele começou na base do Colégio Boa Viagem, do Recife. Só depois, aos 13 anos, é que foi para o Banespa, clube super campeão da época.
— Há bons atletas no Nordeste que não têm a possibilidade de ficar por lá, perto da família, perto da sua região. Isso, muitas vezes, pode até prejudicar na convivência com a família. Eu saí de casa com 13 anos (para jogar no Banespa) e senti esse afastamento, mesmo tendo um excelente convívio com a família.
Minha irmã tinha acabado de nascer na época, tem 12 anos a menos do que eu, e perdi a intimidade com ela... Isso acontece com muitos jogadores — lembra o dono e o treinador do Norde.
—O projeto é meu. Mais à frente posso contratar um técnico e fico apenas na administração.
É um desafio? Sim, mas muito gratificante. Fico feliz quando consigo cada uma das coisas.
Negrão conta que teve a ideia de montar um time de vôlei no Ceará depois da experiência com a Rede Cuca, time de vôlei de Fortaleza, com o qual ele trabalhou por um ano, na temporada 2022/2023 — além da Rede Cuca e do Norde, o Sport Club do Recife jogou a Superliga no feminino na temporada 2009/2010.
A Rede Cuca herdou uma vaga na elite do vôlei após a desistência de dois times da Superliga. Ele, que já tinha treinado o Sesi Bauru, foi chamado para ser o treinador.
O projeto era ligado à Prefeitura de Fortaleza. — Começamos com três bolas para o treino, quando rodamos, no mínimo, com 30.
No início foi assim mesmo, com três. Dava muito jogo porque daí só precisa de uma bola.
Aos poucos foram chegando mais bolas. Mas não no patamar que eu precisava — conta Negrão, que lembra também de episódio trágico cômico.
Ele havia encomendado mesas elevadas para dar treino de bloqueio e defesa, aquelas colocadas rente à rede para que os treinadores fiquem mais altos. E recebeu meses comuns, para refeições.
— Não tinha material, não tinha equipe acostumada ao alto rendimento e o time caiu (para a Superliga B) e acabou — lamenta Negrão. — Imagina isso há quatro anos, em 2022.
Não estou falando de 1900. Esta é uma região que precisa de muito apoio.
Norde Vôlei conquistou acesso para a Superliga 2026/2027 após vencer a Superliga B, em abril de 2026 Mauricio Val/FV Imagem/CBV
Assim surgiu o Norde, da vontade pessoal de Negrão de desbravar a região: — Resolvi montar um time, eu mesmo.
Desde o zero. E fui atrás de patrocinadores, de rede, antena, bola, tudo.
Porque lá, infelizmente, não tem a mesma estrutura que o Sudeste. Mas estou conseguindo reverter essa história e está melhorando — comenta Negrão.
— Quero deixar o projeto no nível que eu acho que o Nordeste merece. Com um centro de treinamento também para um time feminino e de vôlei de praia.
Negrão aposta na visibilidade da Superliga 2026/2027 para sensibilizar os empresários da região e assim obter mais apoio. Hoje, o Norde tem o orçamento mais baixo da elite, cerca de R$ 4 milhões.
Tem parceria com o Governo do Ceará, Prefeitura de Fortaleza, Banco do Noreste, Drogasil e Camed Saúde. Ele também torce para que em um futuro breve não precise acumular as funções de gestor e de treinador.
— A maior dificuldade de começar um projeto do zero, na região em que estou, é convencer os empresários que o projeto é bom. O Nordeste não tem essa cultura de apoio ao esporte.
E eles são muito ricos lá, viu — garante Negrão. — Na Superliga, com jogos televisionados, ida de ídolos ao ginásio e consequentemente, mais público, tenho a esperança de fazer barulho.
E que os empresários da região se empolguem e invistam mais. Norde, uma abreviação de Nordeste, estreia nesta segunda-feira, às 21 horas, contra o Vôlei Renata, em Fortaleza.
Mas a rodada será aberta neste sábado, com Vôlei Guarulhos x Monte Carmelo, em Guarulhos (SP), às 18h30. Projeto do Norde Vôlei, de Fortaleza, começou do zero e tem como idealizador Marcelo Negrão
Mauricio Val/FV Imagem/CBV — A meta é nos manter entre os dez melhores times e não cair.
Será um feito enorme. Temos um time de jovens atletas ou de quem quer uma oportunidade.
É o que eu digo: quem almeja jogar a Superliga principal tem no meu projeto essa chance. Negrão recomenda que fiquem de olho no central Pablo e no ponteiro Emerson.
Marcos, que no ano passado atuou pelo Suzano mas ficava fora do time, também é destaque. O treinador aponta ainda Caio, o capitão do time, um oposto canhoto e que jogou a Superliga há muito tempo.
Atuava nas divisões B e C e no exterior. E ainda Sales, que estava no vôlei internacional.
O Globo