A Portobello, fabricante de revestimentos cerâmicos com sede em Tijucas, teve a nota de crédito rebaixada pela agência Fitch Ratings para “RD”, a classificação de inadimplência restrita. A Fitch tomou a decisão em 21 de outubro porque a empresa deixou de pagar, em junho, R$ 59,8 milhões em parcelas de debêntures, títulos de dívida vendidos a investidores.
Desde então, a Portobello adiou essa conta duas vezes, e o novo prazo é 31 de janeiro de 2027. O rebaixamento foi de “BBB(bra)” para “RD(bra)” e vale para a PBG S.A., a companhia aberta que controla o Portobello Grupo, e para a quinta emissão de debêntures da empresa, que vence em 2028.
Na escala da Fitch, a nota RD fica um degrau acima do “D”, a classificação de quem entra em recuperação judicial ou para de operar. No relatório, a agência escreveu que um pedido de recuperação judicial levaria a nota da Portobello para “D”.
O balanço mais recente da empresa, de 30 de junho, mostra outro sinal do aperto: a Portobello passou a ter patrimônio líquido negativo de R$ 103,9 milhões. Na prática, tudo o que a empresa tem vale menos do que tudo o que ela deve.
O problema começou em junho. Naquele mês, a Portobello não pagou as parcelas de principal e juros da quinta emissão de debêntures nem os juros da sexta emissão, que somavam R$ 59,8 milhões, segundo a Fitch.
Em 23 de junho, os debenturistas concederam um waiver, uma espécie de perdão temporário, e empurraram o pagamento para 20 de outubro. A empresa também não pagou no novo prazo.
Entre 20 e 21 de outubro, a Portobello reuniu os debenturistas em assembleias e pediu mais tempo. Os donos de 100% das debêntures em circulação aprovaram por unanimidade levar para 31 de janeiro de 2027 as parcelas da quinta emissão previstas para 20 de outubro e 20 de dezembro.
Os juros da sexta emissão, previstos para 26 de outubro e 26 de dezembro, foram para a mesma data. As atas registram que o pagamento até a nova data não será considerado atraso nem inadimplência e não gera multa nem vencimento antecipado da dívida.
Para a Fitch, o acordo não muda a avaliação. “Apesar do waiver concedido pelos debenturistas, a ação configura alteração dos termos contratuais originais das transações”, escreveu a agência.
A Fitch também afirmou que a decisão de não pagar “reflete os esforços do PBG para preservar liquidez e reperfilar os vencimentos de suas dívidas”. Na avaliação da agência, a Portobello deu início a uma troca de dívida em situação crítica, o que o mercado chama de DDE.
A B3, empresa que administra a bolsa de valores, também cobrou explicações da Portobello pela falta de pagamento. Na resposta, publicada em 22 de outubro, a empresa disse que “a ausência de pagamento na data originalmente prevista decorre das negociações conduzidas de forma consensual com os debenturistas”.
No comunicado ao mercado de 21 de outubro, assinado pelo vice-presidente de Finanças e Relações com Investidores, Ronei Gomes, a Portobello afirmou que a nota RD “decorre da aplicação dos critérios metodológicos da agência a operações de reestruturação de obrigações financeiras”.
A empresa também disse que “todas as obrigações perante os credores financeiros permanecem adimplidas, observados os termos atualmente pactuados, inclusive os waivers concedidos”. Segundo a companhia, as negociações com os credores “abrangem parcela substancial do endividamento financeiro” e têm o objetivo de alongar os prazos de pagamento.
A Portobello afirmou que as atividades industriais, logísticas e comerciais “seguem normalmente, sem qualquer interrupção e com plena ocupação de sua capacidade industrial”. A empresa disse ainda que mantém o cumprimento das obrigações com “clientes, fornecedores, colaboradores, franqueados e demais parceiros comerciais”.
O balanço de 30 de junho registra que a Portobello tem passivo a descoberto de R$ 103,9 milhões. É o nome contábil para o patrimônio líquido negativo: somados fábricas, estoques, dinheiro em caixa e valores a receber, o total fica abaixo do que a empresa deve.
Seis meses antes, em 31 de dezembro de 2025, o patrimônio da Portobello ainda era positivo, de R$ 26,5 milhões. O mesmo balanço mostra capital circulante líquido negativo de R$ 240,9 milhões.
Isso quer dizer que as contas que vencem em até um ano superam o dinheiro e os valores que a empresa tem a receber no mesmo prazo. Na nota explicativa, a Portobello diz que o número negativo decorre principalmente “do prazo de vencimento de contratos de empréstimos de curto prazo e investimentos realizados”.
Pelas contas da Fitch, a dívida total da Portobello era de R$ 1,66 bilhão em junho, e R$ 597 milhões venciam no curto prazo. O caixa era de R$ 213 milhões.
As debêntures respondiam por R$ 530 milhões da dívida, e as operações de pré-pagamento de exportação, por R$ 325 milhões. Pela conta da própria empresa, que desconta o caixa, a dívida líquida chegou a R$ 1,17 bilhão.
No segundo trimestre de 2026, a Portobello teve receita líquida de R$ 651,3 milhões, segundo o relatório de resultados. O Ebitda ajustado, o lucro da operação antes de juros, impostos e depreciação, foi de R$ 97,1 milhões.
As despesas financeiras do mesmo período somaram R$ 96,8 milhões, quase o mesmo valor. A Portobello fechou o trimestre com prejuízo de R$ 62,7 milhões.
No primeiro semestre, o prejuízo somou R$ 103,9 milhões. Em 2025 inteiro, a empresa tinha perdido R$ 291,7 milhões.
A Fitch faz uma conta mais rígida, que trata o aluguel de imóveis como despesa da operação e tira os efeitos que não se repetem. Por esse critério, a margem Ebitda da Portobello caiu para 6,4% no primeiro semestre de 2026, contra média de 10,7% entre 2022 e 2025.
A agência projeta fluxo de caixa livre negativo de cerca de R$ 65 milhões por ano em 2026 e 2027: depois dos investimentos, a empresa deve gastar mais do que gera. O relatório da Fitch cita demanda fraca, alta ociosidade, pressão sobre preços e estoques altos no mercado brasileiro de revestimentos cerâmicos.
O gás natural, que representa cerca de 25% dos custos da Portobello, também pesa na conta. A Portobello tenta reforçar o caixa desde o começo do ano.
Em fevereiro, a empresa captou R$ 159,6 milhões no BNDES, numa linha de apoio a exportações, para pagar em parcela única em janeiro de 2033. Em março, a Portobello vendeu por R$ 102,5 milhões o imóvel da fábrica de Marechal Deodoro (AL) e continuou no prédio como inquilina, operação chamada de sale-leaseback.
Segundo o fato relevante, a venda envolveu partes relacionadas, termo usado para pessoas ou empresas ligadas à companhia. Em agosto, a Portobello concluiu a venda da fábrica e da marca Pointer, de Alagoas, para a Cerâmica Almeida, de Santa Gertrudes (SP).
O valor não foi divulgado. No mesmo mês, o conselho de administração autorizou a diretoria a seguir negociando a venda de um crédito que a Portobello tem a receber da União, ligado ao chamado crédito-prêmio de IPI, para um fundo de investimento gerido pelo banco BTG Pactual.
O crédito tem valor de face de R$ 133,2 milhões, mas a ata da reunião registra que 75% dele pertencem à Refinadora Catarinense, empresa que cedeu o direito à Portobello. Os conselheiros Cesar Gomes Junior e Nilton Torres de Bastos Filho têm participação na Refinadora e, por isso, ficaram fora da votação.
No balanço da Portobello, o crédito aparece com valor líquido de R$ 18,8 milhões. Até esta terça-feira (3), a empresa não tinha comunicado ao mercado o fechamento do negócio.
A crise também mudou a direção da Portobello. Em abril, a empresa anunciou a saída do diretor-presidente John Shojiro Suzuki, em comum acordo.
Cesar Gomes Junior, sócio fundador e então presidente do conselho de administração, assumiu o comando executivo em 1º de maio, segundo o fato relevante. Em 4 de maio, o vice-presidente de Finanças, Caio Gonçalves de Moraes, renunciou ao cargo.
No lugar dele, voltou Ronei Gomes, que já tinha ocupado a mesma função entre 2020 e 2022. No anúncio, a empresa apresentou Ronei como executivo com experiência em “processos de transformação e reestruturação”.
Esta é a segunda vez em menos de dois anos que a Fitch rebaixa a Portobello. Em 20 de fevereiro de 2025, a agência tirou a nota da empresa de “A-(bra)” para “BBB(bra)”, por causa da queda na rentabilidade e do forte aumento da dívida.
Naquele relatório, a Fitch já avisava que a Portobello tinha “o importante desafio de equacionar os elevados vencimentos em 2026”. Na bolsa, a ação da Portobello (PTBL3) era negociada a R$ 1,55 nesta terça-feira (3).
No dia do rebaixamento, 21 de outubro, o papel fechou a R$ 2,80. A maior queda veio em 26 de outubro, primeiro pregão depois do segundo turno da eleição presidencial: naquele dia, o Ibovespa caiu 13,9%, e a ação da Portobello, 35%.
Em 2026, a ação da Portobello acumula queda de cerca de 50%. Com 140,9 milhões de ações, a empresa inteira vale hoje cerca de R$ 218 milhões na bolsa.
A dívida total é mais de sete vezes esse valor. A Portobello divulga o balanço do terceiro trimestre em 11 de novembro, segundo o calendário enviado à CVM.
A data já mudou duas vezes: de 4 para 10 de novembro e, em 26 de outubro, para o dia 11. A apresentação dos resultados ao mercado ficou para 16 de novembro.
A Fitch informou que vai reavaliar a nota depois que a Portobello concluir a reestruturação da dívida ou pagar as parcelas adiadas das debêntures. A nova nota deve refletir a estrutura de capital que sair da negociação.
A Portobello completou 47 anos em junho e mantém a sede e o parque fabril às margens da BR-101, em Tijucas. Com a venda da Pointer, a fábrica de Tijucas passou a ser a única da empresa no Brasil.
Segundo a Fitch, a Portobello tem capacidade para produzir cerca de 30 milhões de metros quadrados de revestimento por ano no país e tem outra fábrica nos Estados Unidos, com capacidade de cerca de 4 milhões de metros quadrados. A empresa é uma das duas maiores geradoras de riqueza de Tijucas.
Pelos dados mais recentes de valor adicionado municipal, a Portobello respondeu por R$ 750,3 milhões, ou 21,23% do total. Em maio, os ceramistas de Tijucas rejeitaram em assembleia a proposta de reajuste de 4,11% apresentada pela empresa.
O que significa a nota RD?É a classificação de inadimplência restrita da Fitch. A empresa deixou de cumprir os termos originais de uma dívida relevante, mas não pediu recuperação judicial nem parou de operar.
A Portobello pediu recuperação judicial?Não. Até esta terça-feira (3), não havia pedido.
A Fitch afirma que um pedido de recuperação judicial levaria a nota para “D”. A fábrica de Tijucas parou?Não.
Segundo a empresa, as atividades seguem normalmente e com plena ocupação da capacidade industrial. Quando a Portobello precisa pagar as debêntures adiadas?As parcelas adiadas vencem em 31 de janeiro de 2027.
Quando sai o próximo balanço?Em 11 de novembro, com a apresentação ao mercado em 16 de novembro. © Jornal Razão.
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