Piora relevante da inflação no Focus já bate à porta

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Fonte da notícia: Valor Valor

O mercado já começa a se preparar para uma forte deterioração das expectativas de inflação, o que deve gerar desafios extras à condução da política monetária pelo Banco Central (BC). Ao menos é o que aponta pesquisa com cerca de 30 participantes do mercado promovida pela BGC Liquidez, antecipada ao Intraday, blog de mercados do Valor.

A sondagem mostra piora significativa do cenário esperado por economistas após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A mediana das estimativas coletadas pela BGC aponta para um IPCA de 5,30% neste ano e em 2027 e de 4,30% no fim de 2028.

Há, portanto, uma piora aguda das expectativas, caso se compare com o Boletim Focus divulgado no início desta semana, quando o ponto-médio das projeções indicava uma inflação de 5,19% em dezembro; 4,34% no fim do próximo ano; e 3,75% em 2028. “Costumamos acessar muitas gestoras, que costumam revisar os cenários de curto prazo mais rapidamente e conseguimos antecipar bastante os movimentos do Focus de uma a duas semanas.

Pelos números que temos, o mercado trabalha com uma alta de 0,96 ponto no IPCA de 2027 e de 0,55 ponto no de 2028. E, sinceramente, não acho que seja um movimento muito grande”, afirma o economista de inflação e commodities da BGC Liquidez, Carlos Thadeu.

Ele, inclusive, observa que 11% das casas entrevistadas projeta uma inflação acima de 6%, o que aponta para um grau elevado de deterioração das expectativas inflacionárias nos próximos anos. Ao observar a abertura das expectativas de 2027, Thadeu nota que cerca de 0,25 ponto se deve aos preços de alimentação; 0,40 ponto, aos preços administrados; 0,31 ponto, serviços; e 0,11 ponto, bens industriais.

“O principal impacto é na parte de combustíveis, até porque o mercado entende que o governo não irá subsidiar esses preços para sempre. E, na parte de serviços, há um receio muito grande quanto aos impactos da mudança da escala 6x1”, afirma.

Na avaliação do economista da BGC, a expectativa anterior do mercado era a de dar o benefício da dúvida para a oposição em relação à possibilidade de uma nova âncora fiscal ser implementada. “Na ausência disso, o mercado ficou perdido”, diz.

Além disso, há uma grande preocupação entre os economistas sobre os efeitos da alteração na jornada de trabalho em um momento de falta de mão de obra em alguns setores da economia e com parte das empresas “amassada pelas margens porque os preços no atacado estão subindo, assim como o custo financeiro e a carga tributária”.

“A política econômica é o que está por trás dessa revisão de inflação”, enfatiza Thadeu. Para ele, caso a oposição fosse vitoriosa na disputa presidencial, o mercado teria dado o benefício da dúvida em relação à possibilidade de mudança na condução da política econômica, que poderia levar a juros mais baixos.

“Mas, agora, ninguém mais espera uma redução grande dos juros. As taxas vão ficar elevadas pelos próximos quatro anos.

Não sei como isso será equalizado sem ser com uma recessão para atenuar alguns efeitos”, diz. Thadeu avalia que a chance de mitigar as pressões inflacionárias que começam a ser contratadas seria ter um agente à frente da política econômica que o mercado interpretasse que teria “vida própria” para tocar a agenda fiscal.

“O problema é que o mercado está totalmente cético neste momento”, diz o economista, para quem o próximo ministro da Fazenda deve ter trabalho para conquistar credibilidade junto à Faria Lima. “O problema não é só o déficit fiscal, mas a política de gastos maior do que se arrecada que leva a juros mais altos e que retroalimenta a dívida”

Algumas casas já começaram a revelar mudanças bastante relevantes em seus cenários de inflação. Na quarta-feira, a consultoria Buysidebrazil, comandada pela economista Andrea Damico, revelou ter elevado a projeção para o IPCA de 2027 de 3,9% para 4,7%, enquanto a estimativa para a inflação de 2028 foi fixada em 4,0%.

Em dados coletados pelo Valor nos últimos dias, algumas projeções de inflação também chamam atenção: a Panamby Capital, comandada pelo ex-diretor do BC Reinaldo Le Grazie, elevou a projeção para o IPCA do próximo ano de 4,0% para 5,1%; o banco ABC Brasil aumentou a estimativa de 4,3% para 5,0%; e a Tag Investimentos, de 4,6% para 5,5%.

“A reversão das expectativas sobre política fiscal aconteceu muito rápido e isso não é uma coisa etérea para a política monetária; ela afeta os insumos básicos de projeção de inflação de todo mundo, inclusive do Banco Central. Quando saímos de sexta para segunda-feira e apertamos um botão para fazer um ‘update’ das projeções, a vida do BC ficou mais difícil”, disse o chefe de pesquisa econômica do BTG Pactual, Tiago Berriel, durante “morning call”.

“Tivemos revisões de câmbio; provavelmente vamos ver no Focus uma piora das expectativas de inflação no horizonte relevante e quando colocarmos esses insumos nos modelos do BC, ele vai ver que o espaço para corte [na Selic] é duvidoso”, enfatiza o economista, que não vê mais espaço para uma nova redução no juro básico na próxima semana.

“É um ambiente de muita incerteza. Se somarmos os insumos de inflação, que ainda estão se deteriorando, e a enorme incerteza sobre o que vem pela frente, parece razoável ter uma atitude mais cautelosa e esperar, interrompendo o ciclo.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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