Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).
Poucas trajetórias conseguiram reunir, sob as mesmas capas, uma história de amor, uma revolução molecular e uma disputa com o Estado Entre moléculas, estados alterados de consciência e uma história de amor improvável, Alexander e Ann Shulgin ajudaram a escrever alguns dos capítulos mais fascinantes da cultura psicodélica.
Existem casais que compartilham uma casa, outros dividem sonhos; Sasha e Ann dividiram uma paixão pela química da consciência humana. Dessa união nasceram dois livros que se tornariam verdadeiros objetos de culto na contracultura: PiHKAL: A Chemical Love Story (1991) e TiHKAL: The Continuation (1997).
Sasha Shulgin (1925-2014) foi um químico e farmacologista norte-americano que construiu uma carreira científica respeitável antes de mergulhar definitivamente na investigação das substâncias psicoativas. Uma experiência com mescalina despertou sua curiosidade pelas possibilidades da mente e inaugurou uma longa jornada entre estruturas moleculares e neuroquímica.
Ann Shulgin (1931-2022), terapeuta, estudiosa de Jung e pesquisadora da experiência psicodélica, tornou-se sua companheira intelectual e afetiva. Conheceram-se em 1978, e a relação dos dois tinha algo de romance beatnik: uma casa transformada em laboratório, livros espalhados, conversas sobre o inconsciente e a disposição de investigar territórios que a sociedade preferia manter à margem.
Os títulos já anunciam a irreverência do casal: PiHKAL é a sigla para Phenethylamines I Have Known and Loved (Fenetilaminas que Conheci e Amei), enquanto TiHKAL significa Tryptamines I Have Known and Loved (Triptaminas que Conheci e Amei). Até as moléculas ganharam lugar numa declaração de amor.
As obras possuem duas partes. Na primeira, Sasha e Ann aparecem como Shura e Alice, personagens de uma autobiografia romanceada que mistura intimidade, conflitos e experiências psicodélicas.
Na segunda, a literatura dá lugar à investigação científica profunda. PiHKAL cataloga 179 fenetilaminas — incluindo os compostos da família 2C (como o 2C-B) e o MDMA —, enquanto TiHKAL percorre o universo das triptaminas, como o DMT e a psilocibina.
Os livros registram estruturas, propriedades e relatos de autoexperimentação, constituindo um arquivo singular da psicofarmacologia experimental. Uma metodologia controversa, distante dos protocolos clínicos atuais, mas que deixou registros fundamentais.
A publicação de PiHKAL, contudo, abriu uma ferida política. Em 1994, agentes do DEA realizaram uma operação no laboratório dos Shulgin.
O detalhamento químico incomodava as autoridades, que temiam a disseminação de informações capazes de facilitar a produção clandestina. Sasha foi multado e perdeu sua licença de pesquisa.
A história ganhou contornos cinematográficos: um cientista que havia trabalhado dentro das estruturas institucionais do país passou a enfrentar justamente o aparato estatal que regulamentava seu campo. A disputa colocou em evidência uma questão que permanece incômoda: quem controla o conhecimento sobre a consciência?
Décadas depois, os Shulgin continuam presentes na retomada das pesquisas científicas com psicodélicos. O interesse contemporâneo por substâncias em contextos terapêuticos encontra nesses livros uma referência histórica e documental.
Seu legado atravessa a farmacologia, a psicoterapia, a cultura rave e os debates sobre políticas de drogas. Sasha e Ann deixaram uma obra que combina laboratório e literatura, rigor químico e inquietação existencial.
Duas pessoas que fizeram da curiosidade uma forma de convivência. Infelizmente, as obras ainda não possuem tradução publicada em português, sendo encontradas apenas em edições estrangeiras físicas e digitais.
Para quem se interessa pela história da psicodelia, são leituras fundamentais. Afinal, poucas trajetórias conseguiram reunir, sob as mesmas capas, uma história de amor, uma revolução molecular e uma disputa com o Estado.
Os Shulgin fizeram isso sem separar a poesia da ciência. E é justamente aí que reside a beleza duradoura dessa história.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital. Nikkole Presotto Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica.
Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC). Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
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