O petroleiro SOGL cruzou o bloqueio naval dos Estados Unidos em 1º de setembro de 2026 com cerca de 500 mil barris de gás liquefeito de petróleo (GLP) e descarregou a carga no porto de Xinzhou, na China. O trajeto, do terminal iraniano de Assaluyeh até o ancoradouro EOPL, na costa da Malásia, foi rastreado pela organização Unidos Contra o Irã Nuclear (UANI), que monitora navios e afirma ter filmado a embarcação em reabastecimento, segundo o portal OilPrice.
A carga saiu de Assaluyeh no fim de agosto. Em 16 de setembro, uma equipe da UANI fretou um barco de apoio e percorreu cerca de 100 milhas náuticas até o ancoradouro malaio, onde registrou o SOGL recebendo combustível e serviços antes de seguir para o norte, pelo Mar do Sul da China.
O bloqueio reativado em julho não funciona como parede contínua. Ele segura o petróleo bruto e deixa passar o gás.
Desde 12 de julho deste ano, a UANI não registrou nenhum petroleiro carregado de cru iraniano que tenha saído do Golfo de Omã e escapado da fiscalização americana. O monitoramento por satélite de setembro não viu um único carregamento de cru nos terminais de exportação do país.
As cargas liberadas eram de derivados, com volumes pequenos de GLP, nafta e óleo combustível. Cerca de nove petroleiros de gás cruzaram a linha do bloqueio desde julho.
A rota que dribla o cerco Segundo a UANI, os navios pequenos desligam o transponder do Sistema de Identificação Automática (AIS), hasteiam bandeira falsa para parecer apátridas e atravessam o Estreito de Ormuz.
No Golfo de Omã, transferem a carga para outra embarcação, que então tenta a linha do bloqueio. Jemima Shelley, analista sênior da UANI, disse que a manobra com GLP é arriscada.
É o que explicaria a preferência das forças americanas por mandar os pequenos navios de gás darem meia-volta em vez de recorrer à força. O caso mais recente repete o desenho.
Em 26 de outubro, o DANDELION, com 490 mil barris de GLP iraniano, recebeu a carga do SEA OPERA em transferência navio a navio ao largo de Shinas, em Omã. O SEA OPERA havia carregado em Assaluyeh em 26 de agosto e passou dois meses em espera no Golfo de Omã.
O ancoradouro EOPL virou o ponto de apoio dessa malha, e a UANI o descreve como elo central do comércio iraniano com a China. Shelley afirma que as autoridades malaias fazem vista grossa.
A organização contabiliza cerca de 20 petroleiros da sua lista de frota fantasma ainda fundeados no EOPL e outros 22 ancorados logo ao norte, provavelmente deslocados após fiscalizações recentes. Washington sanciona quem já passou
Em 8 de outubro de 2026, três semanas depois de a passagem ser filmada, o Tesouro americano sancionou o SOGL como um de 17 navios da frota paralela. O órgão informou que a embarcação, de bandeira das Comores e de propriedade da Gravion Maritime Company, sediada nas Ilhas Marshall, transportou mais de 2 milhões de barris de propano e butano iranianos desde setembro de 2025.
Scott Bessent, secretário do Tesouro, justificou a medida dizendo que ela retira de Teerã “o dinheiro que usa para fazer a guerra na região”. A ordem das datas mostra o limite da operação, porque a sanção alcançou um navio que já havia descarregado.
A China absorve hoje quase 100% das exportações de petróleo e GLP do Irã, segundo a UANI, contra cerca de 80% em anos anteriores. O corredor de gás funciona porque há um comprador disposto a receber a carga, e não porque Washington tenha deixado de vigiar.
A conta chega ao botijão O bloqueio não reduz o consumo mundial de GLP, mas encarece o transporte de quem está fora da rota sancionada.
Frete e seguro tendem a subir para todas as cargas que cruzam o Golfo, e os Estados Unidos, entre os maiores exportadores de GLP do mundo, ocupam o espaço de que o Irã é empurrado para fora. O Brasil compra parte do GLP que consome e produz o restante em refinarias próprias.
Para o consumidor brasileiro, o efeito chega pelo custo de importação e pela concorrência asiática por carga, num mercado em que o botijão de 13 quilos tem preço formado por refinaria, tributos estaduais e distribuição. Na costa iraniana, a UANI conta ao menos 53 petroleiros carregados, a maioria de cru, parados como estoque flutuante.
Só oito dos 52 carregamentos acompanhados desde 14 de julho saíram da Ilha de Kharg, o principal terminal de exportação do país. O DANDELION segue no caminho do SOGL, com 490 mil barris a bordo e nenhuma decisão pública conhecida sobre interceptação.
O bloqueio fechou a torneira do cru, deixou aberta a do gás e transfere o custo da operação para quem não participa da disputa.
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