A Crusoe, empresa americana de infraestrutura para inteligência artificial (IA), e a companhia paraguaia de energia Araico fecharam um acordo para construir um data center abastecido pela Usina Hidrelétrica de Itaipu. O anúncio foi feito na quarta-feira, após visita do subsecretário de Estado americano, Christopher Landau, ao Paraguai.
Tributos: Arrecadação federal em setembro atinge recorde de R$ 239,4 bilhões Pautas-bomba: PGR apoia regra em discussão no STF, mas quer limitar exigência de compensação
A administração de Itaipu é compartilhada entre Brasil e Paraguai, que dividem a energia produzida pela usina. Nem a nota do governo americano nem o comunicado da Crusoe citam o Brasil.
De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, “a instalação terá acesso direto a uma das maiores fontes de energia hidrelétrica 100% renovável do mundo e atenderá clientes de serviços de computação em nuvem dos Estados Unidos e da América Latina”. Na avaliação de especialistas, essa iniciativa faz parte de um pacote sustentado, principalmente, por uma estratégia geopolítica americana, com o objetivo de ampliar sua presença na América Latina.
Ao final de 2027: Grupo de economistas e empresários pede compromisso fiscal do novo presidente para que a Selic caia a 7,5% ‘Cartela do bingo’
Na visão de Leonardo Paz, professor de Relações Internacionais do Ibmec e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), as iniciativas cobrem o portfólio de medidas que o governo Donald Trump tem colocado como prioridades — energia, terras-raras, combate ao narcotráfico, acordos militares e de segurança.
— Esse pacote é um pouco a cartela do bingo dos EUA para as Américas, com todos os temas que Trump levanta como prioritários. E caminha com a ideia de que a América Latina não só tem que ser parte da área de influência dos Estados Unidos, mas também tem de estar alinhada à geopolítica americana — afirma Paz.
Integrantes do governo brasileiro, nos bastidores, minimizam o acordo e dizem que o Paraguai tem o direito de usar 50% da energia gerada pela usina. Nos últimos dias, cerca de 7% da energia consumida no Brasil vem de Itaipu — incluindo o excedente paraguaio comprado pelo lado brasileiro, que representa menos de um quarto desse montante.
Certame: PPSA vende 100% do gás da União no primeiro leilão exclusivo para indústrias e planeja nova oferta em 2027 Segundo Landau, o projeto poderá representar um dos maiores investimentos privados da história do Paraguai.
A Araico será responsável pelo desenvolvimento local e pela infraestrutura do terreno, ao lado da subestação de Itaipu. Já a Crusoe vai administrar e operar a estrutura computacional física e fornecer os serviços da plataforma Crusoe Cloud.
De acordo com a empresa, uma primeira etapa será colocada em operação em meados do ano que vem. No início, o centro de IA terá 106 megawatts (MW) de capacidade de tecnologia da informação, podendo chegar a 280 MW.
Edmar Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, pondera que, para entender a dimensão do acordo, é preciso conhecer os termos e, sobretudo, o preço do contrato que envolve o fornecimento de energia de Itaipu: — Se esse contrato vai ser bom, dependerá do preço acordado.
Também não quer dizer que necessariamente será um bom negócio e que vão destinar toda a energia a projetos internos. O preço para exportação é melhor.
Ainda assim, ele destaca que o plano do Paraguai sempre foi o de trabalhar para que sua parte na energia produzida em Itaipu fosse consumida no país, atraindo indústrias. E o setor de data centers está em plena expansão, pressionando preços e oferta de energia.
— O data center representa uma oportunidade para o Paraguai, que já tem instalações de mineração de bitcoins em escala. E o país atrair data centers é interessante para o Brasil, porque materializa a tese de que nós e a América Latina temos energia renovável e abundante a oferecer — afirma Almeida.
— Mas já sabemos que não é só a energia que determina a localização de um data center. Eles dependem da rede de internet.
Sem impacto no Brasil O professor da PUC-Rio pondera que um projeto com demanda inicial de 106 MW não é de grande porte.
Para se ter uma ideia, o data center que será instalado pela Elea no Rio AI City, no Rio de Janeiro, terá, de largada, capacidade de 1,5 gigawatt (GW). Almeida afirma que uma redução no volume de energia vendida ao Brasil pelo Paraguai não impacta o mercado brasileiro, onde não há problema de capacidade de geração.
Ele destaca a estratégia de crescimento de um país mais miúdo na região: — Há países pequenos na América do Sul, a exemplo do Paraguai e da Guiana, com a oportunidade de, por meio de aproveitamento do potencial energético, conseguirem impulsionar o crescimento econômico.
A Guiana tem hoje o maior PIB per capita da América Latina. Paz, por sua vez, lembra que os EUA têm buscado frear a presença chinesa na América Latina — como no caso do 5G da Huawei no Brasil — e evitar a criação de um bloco regional coeso, que teria força para confrontar o governo americano:
— O centro de dados no Paraguai é um pouco para cumprir essa função. A América do Sul vem experimentando um desalinhamento regional, com uma divisão política entre os países, enquanto entidades pensadas como fóruns decisórios locais, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), estão em banho-maria.
Enquanto isso, o Escudo das Américas, iniciativa lançada este ano pelos EUA para cooperação militar e projetos de segurança, vem arrebanhando os países. No entanto, os dois gigantes da região, Brasil e México, estão de fora.
— O Brasil é um polo de resistência nesse contexto. E faz parte da agenda dos EUA enfraquecer essa capacidade do Brasil de influenciar uma consolidação regional.
Trump gosta de enfraquecer blocos e negociar bilateralmente — diz Paz.
O Globo