Os três Ss que ajudam a determinar quando usar inteligência artificial — e quando não usar

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Em meio à corrida das empresas para incorporar inteligência artificial a praticamente todas as atividades, uma pergunta começa a ganhar importância: quando é melhor não utilizar a tecnologia? Para Dave Snowden, fundador da The Cynefin Company e criador de um dos mais conhecidos modelos de gestão da complexidade, a resposta passa por três conceitos que começam com a letra S: saliência, sapiência e senciência.

Durante palestra no HSM+ 2026, evento realizado pela HSM e B2B Match em São Paulo, nesta quarta-feira (4), Snowden apresentou o que chamou de um trio cognitivo, capaz de ajudar organizações a compreender as diferenças entre a inteligência humana e a artificial. A distinção, segundo ele, é importante porque nem todas as capacidades cognitivas podem ser reproduzidas por máquinas.

Sistemas de IA podem identificar informações relevantes, simular determinadas formas de raciocínio e produzir respostas que se parecem com manifestações de consciência. Isso, porém, não significa que tenham as mesmas capacidades de um ser humano.

O primeiro S é o da saliência (salience, em inglês), que diz respeito à capacidade de identificar aquilo que merece atenção em meio a uma quantidade enorme de estímulos e informações. É a habilidade de perceber sinais relevantes, reconhecer padrões e distinguir o que importa em determinado contexto.

O segundo é a sapiência (sapience), relacionada à capacidade de compreender, interpretar e exercer julgamento. É o que permite aos seres humanos mobilizar conhecimentos e experiências para avaliar situações, especialmente quando não existem respostas previamente estabelecidas.

Por fim, há a senciência (sentience), associada à capacidade de ter experiências subjetivas, como sentir e perceber o mundo de maneira consciente. Na avaliação de Snowden, sistemas de inteligência artificial conseguem desempenhar funções relacionadas à saliência e simular aspectos da sapiência.

No caso da senciência, entretanto, conseguem produzir apenas manifestações linguísticas que se assemelham às de um ser senciente – o que não equivale a demonstrar experiência subjetiva. A distinção oferece uma maneira de pensar quais tarefas podem ser automatizadas e quais exigem maior participação humana.

Em atividades que dependem principalmente da identificação de padrões, processamento de dados e reconhecimento de informações, a IA pode oferecer vantagens. Já decisões que envolvem interpretação contextual, julgamento e experiências humanas exigem cuidados diferentes.

O risco de perder capacidades humanas Para ilustrar os riscos de delegar atividades demais à tecnologia, Snowden recorreu a uma comparação entre duas profissões bastante tradicionais de Londres: motoristas de ônibus e taxistas.

Enquanto os primeiros precisam conhecer um percurso relativamente limitado e repetitivo, os taxistas londrinos passam por um extenso processo de treinamento para memorizar ruas, trajetos e alternativas de deslocamento pela cidade. O processo exige anos de preparação e desenvolve habilidades de orientação espacial e memória.

A diferença, argumentou Snowden, ajuda a compreender como o cérebro humano se adapta às exigências do ambiente. Sua preocupação é que a dependência excessiva da inteligência artificial reduza oportunidades de exercitar capacidades cognitivas importantes, especialmente aquelas relacionadas à adaptação e à resolução de problemas inesperados.

A questão se torna ainda mais relevante em situações de crise. “Se uma organização transfere para sistemas automatizados parte significativa de suas atividades, o que acontece quando esses sistemas deixam de funcionar? E como seus profissionais conseguem reagir caso tenham perdido a prática de executar determinadas tarefas?”, questiona.

Para Snowden, o desafio não é simplesmente escolher entre humanos e máquinas, mas compreender como combinar suas capacidades sem comprometer a autonomia e a capacidade de adaptação das pessoas. Por que as empresas precisam abandonar a ilusão de controle

A discussão sobre inteligência artificial foi parte de uma reflexão mais ampla sobre como as organizações enfrentam a incerteza. Criador do framework Cynefin, desenvolvido há mais de duas décadas, Snowden explicou que existem diferenças fundamentais entre sistemas ordenados, complexos e caóticos.

Nos sistemas ordenados, as relações entre causa e efeito são relativamente previsíveis, permitindo estabelecer procedimentos e repetir soluções. Nos sistemas complexos, por outro lado, os resultados emergem da interação entre diferentes elementos e nem sempre podem ser antecipados.

Já nos sistemas caóticos, a turbulência e a ausência de restrições estáveis dificultam ainda mais a compreensão do que está acontecendo. O problema, segundo ele, é que muitas empresas continuam tentando administrar ambientes complexos como se fossem sistemas ordenados.

É nesse contexto que Snowden questiona a eficácia dos planos estratégicos rígidos, especialmente aqueles que tentam estabelecer antecipadamente tudo o que uma organização deverá fazer ao longo de três anos. Em vez de definir um destino fixo e tentar preencher a distância até ele, sua proposta é começar pela compreensão do ambiente atual e identificar aquilo que chama de “possível adjacente”: oportunidades de mudança que já estão ao alcance da organização.

A estratégia, nesse caso, deixa de ser uma sequência imutável de etapas e passa a funcionar como um processo contínuo de exploração. Para explicar o conceito, Snowden utilizou a metáfora de um manguezal.

Diferentemente de um rio que segue um curso relativamente definido, a água no mangue pode se movimentar em diferentes direções, dependendo das condições do ambiente. Em sistemas complexos, argumentou, as oportunidades também surgem e desaparecem conforme as circunstâncias mudam.

Por isso, organizações precisam desenvolver mecanismos de percepção e resposta em tempo real, em vez de depender exclusivamente de planejamentos elaborados com muita antecedência. A inteligência artificial pode contribuir para esse processo ao ampliar a capacidade de analisar informações e identificar sinais.

Mas, na visão apresentada por Snowden, seu uso precisa estar subordinado à compreensão do contexto, e não à expectativa de que a tecnologia seja capaz de prever todos os resultados. Ao longo da apresentação, Snowden também defendeu que as organizações precisam pensar além da eficiência imediata.

Para isso, diferenciou três características dos sistemas: robustez, resiliência e antifragilidade. Enquanto a robustez está associada à capacidade de resistir a mudanças, a resiliência envolve a capacidade de se recuperar de perturbações.

A antifragilidade, por sua vez, descreve sistemas que podem se beneficiar de determinados tipos de estresse e volatilidade. A distinção ajuda a explicar por que a busca incessante pela otimização pode não ser suficiente para preparar uma empresa para situações inesperadas.

Na avaliação de Snowden, a capacidade de perceber mudanças, experimentar alternativas e mobilizar conhecimentos distribuídos pela organização pode ser tão importante quanto executar processos com rapidez. É também por isso que ele chama atenção para a importância da arte, da música e da linguagem no desenvolvimento da cognição humana.

Em sua apresentação, argumentou que essas atividades desempenharam um papel fundamental na evolução de nossas capacidades cognitivas, tornando arriscada uma formação concentrada exclusivamente em competências técnicas. Mais Lidas

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