Há mais de uma década, começou a se popularizar na internet o termo 'looksmaxxing', uma prática que consiste em maximizar a atratividade física das pessoas por meio de diversos métodos, desde os mais básicos, como melhorar hábitos e estilo ou adotar rotinas complexas de cuidados com a pele, até a realização de procedimentos estéticos.
O termo deriva da combinação de 'looks' (aparência) e 'maxing' (maximizar). Com redes sociais como o TikTok, os algoritmos, os filtros e os padrões de beleza que circulam nessas plataformas trouxeram esse tema de volta ao centro das discussões.
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Daniel Marín, médico esteticista e fundador da Criolab, uma clínica de medicina estética com unidades em Bogotá e Medellín, aponta que esses aplicativos levaram muitas pessoas a se compararem com imagens editadas e filtros que exibem uma pele que, na verdade, não existe. — Isso tem um lado positivo, pois hoje as pessoas estão mais bem informadas e falam sobre cuidados com a pele sem tabus.
Mas há também um lado delicado, já que se estabeleceu uma referência de beleza inalcançável. Recebo em consultório pacientes que trazem fotos de si mesmas com filtros, pedindo para ficar daquela maneira.
Parte do meu trabalho é explicar o que é real, o que é possível alcançar e o que não é — acrescenta. Stefannia Rincón, CEO e diretora da clínica SR Expertos en Piel, ressalta que o desafio da medicina estética funcional é educar as pessoas para que cuidem da pele sem se compararem a padrões irreais.
— Estamos depositando nossas esperanças em nos tornarmos parecidos com as versões apresentadas pela inteligência artificial e pelos filtros, algo que, claramente, não condiz com a realidade humana — afirma. Rincón explica que o objetivo da SR é defender uma estética individualizada: em vez de fazer com que todos os rostos fiquem iguais, a ideia é que cada paciente se veja e se sinta bem, sem perder sua própria essência.
A atenção aos cuidados com a pele também é essencial na primavera Pexels
Somado a isso, entre as gerações Z e Alfa, surgiram fenômenos como a prevenção do envelhecimento precoce, com jovens já preocupados com os sinais da idade. Nesse contexto, surge o termo "prejuvenation" (pré-rejuvenescimento), que, segundo Rincón, consiste em antecipar-se às alterações da pele por meio de prevenção, acompanhamento e tratamentos individualizados:
— Diferentemente da abordagem tradicional, que costuma focar na correção de sinais visíveis, essa prática busca preservar a qualidade da pele a longo prazo. Não significa começar a fazer procedimentos injetáveis desde jovem, mas sim aprender a cuidar da pele com critério.
Essa tendência combina hábitos, como o uso de protetor solar, com tratamentos de baixa intensidade. Enquanto a abordagem antienvelhecimento clássica é corretiva, o "prejuvenation" é progressivo e visa a um envelhecimento saudável da pele.
A popularidade dos tratamentos não cirúrgicos Segundo dados globais da "International Society of Aesthetic Plastic Surgery" (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética), dos 38 milhões de procedimentos estéticos realizados em 2024, mais de 20,5 milhões foram não cirúrgicos.
Entre eles, incluem-se tratamentos minimamente invasivos, como a aplicação de toxina botulínica, popularmente conhecida como "baby botox", utilizada por algumas pessoas de 25 anos com fins preventivos e em busca de resultados naturais. Para Marín e Rincón, a crescente demanda por esses tratamentos também reflete uma maior compreensão sobre o envelhecimento da pele e os fatores que o influenciam, como a exposição solar, o tabagismo, o estresse e a falta de sono.
— É muito mais simples manter a qualidade da pele do que tentar recuperá-la depois que ela já foi perdida — explica Marín. Blefaroplastia cresce em 2025 e impulsiona mercado estético
Freepik Sara Lucía Rueda Millán, psicóloga e docente da Fundación Universitaria Juan N.
Corpas, aponta que o acesso a esses procedimentos também mudou devido à evolução da oferta e da tecnologia disponível. — Os procedimentos, tratamentos e tecnologias disponíveis tornam viáveis , para uma boa parte da população, aspirações que, anos atrás, seriam impensáveis.
O mercado, as opções de financiamento e a forma como esses serviços são oferecidos ampliaram o conhecimento sobre eles e permitiram que chegassem a mais pessoas — ressalta. No Criolab, por exemplo, o fundador relata que recebem pessoas a partir dos 25 anos, aproximadamente, que buscam prevenção:
— É algo que, há dez anos, era pouco comum. Antigamente, a primeira consulta costumava ocorrer depois dos 40 anos, quando as mudanças já eram evidentes.
Marín também lembra que, há alguns anos, os pacientes chegavam ao consultório com preocupações específicas, como rugas ou manchas. No entanto, o quadro mudou:
— Hoje, muitos chegam com uma pergunta mais ampla: 'O que posso fazer para que a minha idade não seja notada?'. O objetivo deixou de ser apenas corrigir para passar a ser deter o tempo.
Quando se busca esconder a idade a todo custo, o risco é cair no excesso de tratamentos, resultando em rostos que acabam todos muito parecidos entre si — destaca. Além disso, ele acrescenta que a pandemia foi um divisor de águas na percepção que as pessoas têm da própria imagem:
— Durante meses, passamos horas nos vendo em uma tela, em videochamadas, com câmeras frontais que distorcem o rosto e uma iluminação pouco favorável. Na literatura médica, chegou-se a falar em 'dismorfia do Zoom' para descrever essa nova preocupação com detalhes que, antes, ninguém notava.
A prevenção precoce do envelhecimento O interesse por procedimentos estéticos minimamente invasivos, ou não invasivos, deve-se ao fato de serem opções que se adaptam ao estilo de vida atual: geralmente não exigem afastamento das atividades, apresentam menos riscos do que uma cirurgia e oferecem resultados progressivos.
Outro fator que influencia, diz Marín, é o aprimoramento tecnológico dos últimos anos, que permite iniciar os tratamentos mais cedo e avançar por etapas. Algumas opções disponíveis no mercado incluem tecnologias como o Liftera 2 e tratamentos com bioestimuladores de colágeno.
Rincón esclarece que esses procedimentos não substituem a cirurgia e que a escolha depende das necessidades de cada paciente. A popularidade desses procedimentos também levanta questões sobre seus possíveis efeitos na saúde mental dos jovens e na percepção que eles têm da própria imagem.
Marín esclarece que a prevenção, quando bem compreendida, não significa realizar procedimentos aos 22 anos. Pelo contrário, envolve o uso diário de protetor solar, a manutenção de uma rotina adequada, o tratamento oportuno da acne e de manchas e, quando surgem as primeiras alterações, a intervenção por meio de tratamentos suaves e em doses baixas.
— Uma pele saudável aos 25 anos, muitas vezes, precisa apenas de protetor solar, uma boa rotina e bons hábitos — afirma Marín. Rueda Millán considera que o impacto dessas práticas deve ser avaliado a partir de seus efeitos na vida de cada indivíduo.
— A questão não deveria ser se uma pessoa deseja parecer 'bem demais', mas sim se essa busca lhe permite viver melhor ou se, ao contrário, acaba limitando sua liberdade, sua tranquilidade e seu bem-estar — explica. A psicóloga acrescenta que o problema surge quando essa busca começa a afetar outras dimensões da vida, gerando uma sensação de insatisfação constante e uma necessidade contínua de modificar a aparência.
— Um sinal importante é quando a pessoa começa a sentir que nada é suficiente. Surge, então, a necessidade de mudar algo de forma permanente.
Isso gera angústia e passa a afetar sua saúde, sua situação financeira, seus relacionamentos ou seus projetos pessoais — alerta. Às consultas, as gerações mais jovens chegam com mais informações; sabem, por exemplo, o que é um retinoide, a toxina botulínica ou um bioestimulador.
Esse maior preparo permite que questionem sobre as evidências e a segurança dos procedimentos, algo que Marín considera positivo. No entanto, alerta que parte das informações que circulam nas redes sociais não possui, necessariamente, embasamento médico.
Por isso, a principal recomendação é verificar se os equipamentos utilizados são originais, possuem registro na Anvisa e são operados por profissionais capacitados, sob supervisão médica. — Uma parte essencial da avaliação é compreender a motivação.
Quando a decisão nasce do bem-estar próprio, os resultados são aproveitados; quando surge de uma pressão externa, nenhum tratamento é suficiente. Dizer 'não' quando é o caso também faz parte do nosso trabalho — conclui Marín.
O Globo