O bloco de oposição em Israel deve conquistar mais cadeiras nas eleições de terça-feira (27) do que o grupo do partido governista Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, segundo pesquisas de boca de urna. Com isso, ficou mais próximo de alcançar a maioria de 61 assentos, embora o caminho para a formação de um governo ainda seja longo.
O grupo contrário a Netanyahu, liderado pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot, deve conquistar 53 das 120 cadeiras do Parlamento, enquanto a coalizão de direita e de religiosos que apoia o premiê deverá obter 50, segundo pesquisa de boca de urna divulgada pelo Channel 13. Eleição acirrada em Israel põe árabes no centro da disputa
Uma das surpresas das pesquisas de boca de urna foi o número de cadeiras conquistadas individualmente pelo Likud. Embora a oposição tenha obtido mais assentos como bloco, o partido de Netanyahu se manterá como o maior da Knesset, com 25 cadeiras, enquanto o Yashar, centrista, de Eisenkot, deve obter 23.
No entanto, nenhum dos dois campos tem um caminho claro para formar um governo, em meio ao desempenho recorde dos partidos liderados por árabes — em tese, contrários a Netanyahu —, que devem conquistar um total de 17 cadeiras, segundo as projeções. A apuração final pode levar dias, e o sistema político fragmentado de Israel faz com que esses partidos possam assumir um papel decisivo nas negociações.
O dia da eleição, considerada uma das mais importantes da história do país, foi marcado por participação eleitoral recorde de 77,7%, informou a Comissão Eleitoral Central de Israel, o maior índice em mais de duas décadas e cerca de 7 pontos percentuais acima do registrado na eleição anterior, em 2022.
A votação era vista como um referendo sobre a atuação de Netanyahu nos últimos três anos, na primeira eleição desde os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, em meio a críticas às falhas de segurança que permitiram os ataques e à isenção dos judeus ultraortodoxos do serviço militar.
Após a divulgação das pesquisas de boca de urna, Eisenkot prometeu agir imediatamente para “implementar a vontade do povo”, substituir o governo de Netanyahu e estabelecer “um governo sionista comprometido com o recrutamento universal o mais rápido possível”, caso os números forem confirmados pelo resultado final.
Ao longo do dia, Netanyahu pediu que seus apoiadores fossem às urnas para compensar o alto comparecimento entre os eleitores árabes israelenses. Seu partido, o Likud, tentou estender o horário de votação, mas o pedido foi negado.
“Todos vocês precisam ir em massa às urnas”, afirmou. “Este é um momento decisivo.”
Uma alta mobilização da população árabe de Israel já era esperada pelos analistas, em meio às graves consequências das políticas do governo de extrema direita para essa parcela da população. “Há uma questão importante para a população árabe: a criminalidade”, diz Elliot Abrams, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-representante especial para o Irã no primeiro governo Trump.
“Os índices de criminalidade são muito altos, e essa população está bastante irritada com o governo e com a polícia por não conseguirem conter o problema. Se os partidos árabes entrarem em uma nova coalizão, essa será uma das exigências.”
O líder do partido árabe Ra’am, Mansour Abbas, já participou da coalizão de governo de Naftali Bennett, em 2021, e, segundo Abrams, estaria disposto a fazer isso novamente em um governo liderado por Eisenkot. “Ainda assim, é uma decisão muito difícil, tanto para os partidos árabes quanto para Eisenkot”, diz Abrams.
“Há pessoas como Avigdor Liberman [do bloco opositor] que já disseram que não participarão de um governo que dependa dos votos árabes.” A ausência de um vencedor claro indica que os próximos dias e semanas serão marcados por negociações entre partidos e lideranças na tentativa de reunir apoio suficiente para formar um governo, possivelmente com o respaldo dos partidos árabes.
Se a oposição mantiver a recusa de se aliar aos árabes, Yaakov Katz, pesquisador do Jewish People Policy Institute (JPPI), aponta outros caminhos para romper o impasse. “Eles podem tentar atrair dissidentes do outro lado.
Ou seja, parlamentares do campo de Netanyahu podem passar para o lado de Eisenkot, ou parlamentares do campo de Eisenkot podem passar para o lado de Netanyahu”, diz. “Ou um dos partidos pode cruzar essa linha e descumprir uma promessa.
Por exemplo, Liberman pode decidir se sentar com Netanyahu”, completa. Katz também afirma que uma das possibilidade seria um governo de unidade, em que partidos dos dois blocos de uniriam.
Ontem, porém, o presidente do partido de extrema direita Otzma Yehudit, Itamar Ben Gvir, alertou Netanyahu que se juntar a Eisenkot seria “um erro terrível”. O resultado também mantém aberta a possibilidade de que nem Netanyahu nem seus adversários consigam formar uma coalizão.
Nesse caso, Israel poderá realizar novas eleições, com Netanyahu permanecendo como primeiro-ministro interino. O cenário repetiria o período entre 2019 e 2022, quando o país realizou cinco rodadas eleitorais.
“Se ele for premiê interino, a legislação israelense estabelece limites muito claros para o que um governo interino pode fazer”, diz Alon Yakter, cientista político da Universidade de Tel Aviv. “Por exemplo, ele não pode nomear juízes do Supremo Tribunal nem promover reformas significativas, incluindo mudanças constitucionais.
Mas ainda pode definir a agenda política.” Amotz Asa-El, pesquisador do Shalom Hartman Institute, em Jerusalém, lembra que as complexas eleições de Israel já levaram a soluções inusitadas para resolver impasses anteriores, deixando em aberto o desfecho exato para formação do novo governo.
“Foi o que ocorreu aqui na década de 80, quando houve uma eleição sem resultado conclusivo e o país enfrentava, na época, uma grande crise econômica”, diz Asa-El. “Os políticos então se reuniram e decidiram criar um governo de emergência que enfrentou a crise econômica com muita eficiência.
Foi um desfecho que ninguém previu. Acredito que a situação atual possa exigir esse tipo de solução”.
Até o fechamento desta edição, os resultados oficiais não haviam sido divulgados.
Valor