A rede global dos filhos de Trump: forte influência, negócios e muito, muito dinheiro

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Fonte da notícia: Valor Valor

As reuniões deveriam ser confidenciais, com instruções rigorosas para que todos mantivessem silêncio. Mas quando o filho mais velho do presidente dos EUA chega a uma cidade, acompanhado pelo Serviço Secreto, a notícia se espalha.

A viagem de Donald Trump Jr. a Mongólia, Estônia e Polônia em outubro atraiu a atenção da imprensa e gerou publicações no Instagram.

Mas as discussões com potenciais parceiros receberam menos publicidade - assim como os encontros com altos integrantes de governos. Trump Jr.

e seu irmão Eric têm o hábito de se reunir com autoridades e políticos estrangeiros. O jornal Financial Times documentou pelo menos 18 encontros desde que seu pai iniciou o segundo mandato, em janeiro de 2025.

Houve reuniões com pelo menos seis primeiros-ministros ou chefes de Estado, nove ministros ou altos funcionários e dois grupos de políticos - de lugares como Vietnã, Sérvia e Somalilândia. Como filhos do presidente, Trump Jr e Eric parecem ser recebidos como enviados do governo, apesar de não ocuparem cargo oficial.

Richard Painter, ex-advogado de ética da Casa Branca no governo Bush e crítico de Trump, diz que seria “altamente impróprio” os filhos de Trump se reunirem com líderes estrangeiros em qualquer função diplomática, uma vez que não são enviados oficiais nem estão sujeitos às leis sobre conflitos de interesse.

“Não temos como saber o que é dito nessas conversas”, aponta. O porta-voz de Trump Jr.

disse que ele sempre esclarece às pessoas com quem se reúne que não é um enviado especial nem faz parte do governo do pai. “Don é um cidadão privado e tem os mesmos direitos garantidos pela Primeira Emenda que qualquer outro cidadão americano que respeite a lei.”

Independentemente de como a situação pareça, os Trump aproveitaram a oportunidade para maximizar os lucros de seus negócios, construindo uma rede intrincada de conexões com potencial para gerar conflitos de interesse. Uma parcela enorme da renda pessoal do presidente Trump no ano passado, que superou US$ 2 bilhões, veio dos empreendimentos dos filhos.

Ele obteve mais de US$ 500 milhões com a venda de “tokens” da World Liberty Media, empresa de criptomoedas cofundada pelos irmãos, além de centenas de milhões de dólares provenientes da tradicional operação imobiliária da família. A Trump Organization faturou dezenas de milhões de dólares com pelo menos 20 projetos no exterior desde a campanha presidencial de Trump em 2024, segundo comunicados da empresa e a declaração do presidente.

Como Trump Jr e Eric não são funcionários do governo, suas relações comerciais e financeiras são mais opacas. Os irmãos têm investimentos e exercem funções de consultoria em empresas de vários setores, incluindo alguns segmentos que vêm sendo transformados pelas políticas dos EUA, como criptomoedas, defesa e minerais críticos.

Os eleitores estão preocupados com o potencial de irregularidades às vésperas das eleições de meio de mandato. Mais de dois terços (69%) dos eleitores registrados nos EUA disseram estar “muito” ou “razoavelmente” preocupados com a “corrupção, favorecimento aos próprios interesses ou conflitos de interesse”, segundo pesquisa do Financial Times em parceria com a Focaldata.

O jato particular de Trump Jr. pousou na Estônia às 5h de 6 de setembro para uma visita de negócios de um dia, seguida de um jantar para 13 pessoas realizado nos escritórios de uma empresa de software para cassinos online.

A programação terminou em confraternização em um salão de charutos. Entre os americanos estavam Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Trump; Billy McFarland, fundador do Fyre Festival, e Michael Franzese, ex-integrante da máfia de Nova York.

Os convidados da confraternização eram igualmente ecléticos, entre os quais jogadores de pôquer, atriz estoniana e a Miss Mundo Estônia de 2026. “Todos os envolvidos estão sujeitos a um acordo de confidencialidade de 55 páginas, o que é compreensível diante da lista de convidados”, disse ao Financial Times Craig Hilton, fundador da Studioworks e anfitrião da noite.

Outro convidado do jantar tinha perfil bem mais institucional: Margus Tsahkna, ministro de Relações Exteriores da Estônia. Ele não estava ali para fechar negócio - o pequeno país quer ampliar a presença militar dos EUA e da Otan para dissuadir possível agressão russa, após a invasão da Ucrânia.

Apesar da presença do principal diplomata estoniano, Trump Jr e outros participantes do jantar descreveram o encontro como uma visita privada. O filho do presidente anunciou aos convidados que não estava ali em caráter oficial, segundo informou seu porta-voz.

“Ele tem opiniões firmes sobre várias questões políticas, mas sempre deixa claro que representam apenas a si mesmo, e não ao governo.” Mas aquela nem sequer havia sido a primeira vez na semana que Trump Jr.

se reunira com autoridade estrangeira de alto escalão. Pouco antes da viagem à Estônia, Trump Jr jantou com o presidente da Mongólia, Ukhnaagiin Khürelsükh, em Ulan Bator, a capital do país.

O encontro foi registrado em fotos publicadas na conta no Facebook de um porta-voz do governo, que escreveu que os dois discutiram as relações entre EUA e Mongólia, além dos laços comerciais. Em seguida, as fotos desapareceram.

Em contato telefônico com o Financial Times, o porta-voz do governo disse que alguém ligado a Trump Jr havia pedido que ele apagasse a publicação. E o porta-voz de Trump Jr afirmou que sua equipe nos EUA não tinha conhecimento da postagem nem havia pedido que fosse apagada.

Ele afirmou que o gabinete do presidente mongol solicitou o encontro, e que Trump Jr só aceitou depois de consultar o secretário de Estado, Marco Rubio, e deixar claro que a reunião seria extraoficial. Em declaração ao Financial Times, o gabinete do presidente mongol afirmou que ele “teve um encontro informal e fez uma refeição com o filho de Trump”.

“As relações estão em termos bastante cordiais. Eles não discutiram política nem visitas oficiais.”

Após a visita de Trump Jr à Estônia, ele seguiu para a Polônia, em escala de 12 horas, e participou de uma série de reuniões também envoltas em sigilo. O grupo incluía Adrian Thiess, consultor político romeno que ajudou em eventos com os dois filhos mais velhos de Trump na Hungria, Romênia, Sérvia e Bulgária.

Ele não quis comentar os encontros em Varsóvia. O porta-voz de Trump Jr disse que ele estava na Europa para participar de palestras organizadas pela Salem Media, um grupo de comunicação conservador.

Enquanto isso, Eric, irmão mais novo de Trump Jr e principal representante do império imobiliário da família, iniciou a própria turnê para fechar negócios e firmar parcerias com incorporadoras estrangeiras em projetos que levam a marca Trump. Na maioria dos casos, o grupo não é proprietário dos edifícios.

Em vez disso, cede a marca aos incorporadores dos projetos e presta consultoria durante a construção, em troca de taxas de licenciamento e desenvolvimento. No segundo mandato de Donald Trump, a marca da família está mais valiosa do que nunca.

As informações financeiras, incluídas nas declarações anuais de Trump, revelam um império global em expansão, com parceiros que constroem empreendimentos comerciais, residenciais e hoteleiros, cada um gerando milhões de dólares por ano à família. A Trump Organization anunciou 15 novos projetos no exterior desde a campanha de 2024, segundo análise do Financial Times.

Entre eles estão empreendimentos em Bucareste, Dubai e Vietnã. As declarações de Trump listam cinco projetos ainda não anunciados oficialmente: um na Romênia, dois na Índia e dois em Abu Dhabi.

Os documentos mostram que as receitas provenientes de licenciamento, desenvolvimento e gestão no exterior aumentaram 40% entre 2024 e 2025, para US$ 63 milhões. No primeiro mandato de Trump, a Trump Organization anunciou que faria uma pausa nos investimentos internacionais.

Dessa vez, a empresa da família divulgou diretrizes que permitem fechar acordos no exterior desde que não envolvam governos como contraparte. No ano passado, o Financial Times perguntou a Eric Trump por que a família havia decidido abandonar o compromisso anterior.

“É muito simples”, respondeu Eric. “Não precisávamos fazer isso em 2017.

Fizemos. Não recebemos absolutamente nenhum reconhecimento por isso e fizemos tudo da maneira certa.”

Mas esses negócios privados aproximaram Eric e Trump Jr - ambos vice-presidentes executivos da Trump Organization - de autoridades governamentais e de políticos. Em muitos casos, essas autoridades esperam que a marca Trump ajude a ter relações melhores com a Casa Branca.

Às vezes, os governos vinculam projetos da marca a esforços diplomáticos. No Vietnã, o governo aproveitou a oportunidade proporcionada por um novo resort de Trump no norte do país.

Em maio de 2025, durante o lançamento das obras, o então primeiro-ministro classificou o empreendimento como “importante para o fortalecimento das relações entre Vietnã e EUA”. O evento ocorreu apenas sete semanas depois de as tarifas anunciadas por Trump no chamado “dia da libertação” atingirem as exportações vietnamitas.

Desde então, o governo provocou polêmica local ao pedir que milhares de pessoas deixassem suas casas e ao planejar a transferência de restos mortais de um cemitério para abrir espaço a um campo de golfe. Porta-voz da Trump Organization negou qualquer vínculo da empresa com a política externa americana.

“A companhia opera separada da presidência e cumpre todas as leis de ética e prevenção de conflitos de interesse.” Walker Davis, vice-diretor de pesquisa da organização de fiscalização Citizens for Responsibility and Ethics de Washington (Crew), que estudou o império de Trump, diz que mesmo acordos sem caráter político constituem risco ético.

“Como isso não poderia ser um fator para Trump, se sua empresa - com a qual continua lucrando, administrada pela família - está expandindo atividades para esses países?”, questiona Davis. “Isso, no mínimo, levanta dúvidas sobre a influência exercida sobre a Presidência e a responsabilidade de que os milhões de dólares gerados pelos acordos com fontes estrangeiras influenciem decisões oficiais.”

Nos EUA, os irmãos construíram um portfólio diversificado de negócios com criptomoedas, fundos de investimento e funções de consultoria - muitas vezes em setores que estão sendo transformados pelas decisões do pai na Casa Branca. Trump Jr tem buscado investimentos por meio da atuação como sócio da 1789 Capital, fundada pelos investidores e doadores republicanos Omeed Malik, Christopher Buskirk e Rebekah Mercer.

O fundo de investimentos disse que os ativos sob gestão saltaram de US$ 200 milhões para mais de US$ 3 bilhões desde que foi criado em 2023, após intensa sequência de operações com algumas das principais empresas privadas de inteligência artificial. A 1789 Capital conseguiu acesso a rodadas de investimentos em empresas populares, cujas ofertas costumam ser disputadas e que, em geral, não estão disponíveis para a maioria dos investidores.

Os irmãos também têm investimentos em várias empresas de mercados de previsão e criptomoedas, algumas das quais se beneficiam das medidas de desregulamentação do setor adotadas pelo governo Trump. Donald Trump Jr recebeu participação acionária avaliada em cerca de US$ 300.000 na Kalshi, plataforma de mercados de previsão, após ingressar na empresa como consultor estratégico no início de 2025.

Ele também atua como consultor de uma concorrente da Kalshi, a Polymarket, na qual a 1789 Capital detém uma participação.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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