Os imigrantes latino-americanos e seus descendentes se tornaram o grupo mais importante de eleitores-pêndulo dos Estados Unidos. Após décadas de apoio ao Partido Democrata, com forte redução a essa adesão em 2024, eles voltam a se inclinar agora por candidatos que fazem campanha de oposição ao presidente Donald Trump, do Partido Republicano.
Os percentuais retornaram aos patamares das eleições dos últimos 20 anos, com cerca de 30 pontos percentuais de vantagem para os democratas entre os votantes de origem latino-americana. Essa margem pró-Partido Democrata havia sido reduzida a apenas 11 pontos em 2024.
Tal movimento deu a Trump um empurrão para a vitória no voto popular e no Colégio Eleitoral que lhe garantiu o segundo mandato. De acordo com dados do instituto de pesquisa Ipsos, o movimento de retorno se deve a dois fatores de decepção com o segundo governo de Trump: 80% citam como principal motivo para o voto nos democratas a alta no custo de vida.
Em 2024, quando foi eleito refazendo a coalizão republicana com um percentual maior que o histórico (embora ainda minoritário) de votos de eleitores latinos, negros e asiáticos, Trump havia prometido reduzir a inflação do governo do então presidente, o democrata Joe Biden (2021-2025).
Aquela inflação era, em grande parte, consequência de medidas de estímulo à economia adotadas pelo próprio Trump durante a pandemia da covid. Os latinos, assim como os demais moradores dos Estados Unidos, estavam sofrendo com os preços altos.
Desde então, eles viram o custo de vida subir ainda mais, devido às tarifas impostas por Trump a mercadorias e insumos importados. E também devido ao aumento dos preços dos combustíveis, que já tiveram elevação de mais de 30% desde o início da guerra declarada ao Irã há oito meses por Trump e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Política migratória. Outro motivo importante, citado por 20% dos eleitores latinos para abandonar Trump, é a decepção com sua política anti-imigração, especialmente a atuação da polícia federal americana de controle de imigração (ICE, na sigla em inglês), responsável por prisões, deportações em massa e violência contra civis, imigrantes com ou sem autorização para viver nos Estados Unidos.
Os votos dos latinos podem ser decisivos em vários distritos onde se disputam de forma acirrada vagas de deputado federal, como Califórnia, Flórida e Texas. Nesse último Estado, bastião do Partido Republicano, os democratas concorrem com força que ainda não havia sido vista neste século no segundo Estado mais populoso dos EUA, atrás apenas da Califórnia em número de votantes.
Na corrida pela maioria no Senado, os democratas poderão contar com a maioria dos votos dos eleitores latinos nos sete Estados que são considerados de resultado imprevisível: Iowa, Maine, Michigan, Ohio, Texas, Kansas e Alasca. Se os democratas vencerem em quatro desses sete Estados, é provável que assumam a maioria do Senado, de acordo com as previsões dos principais institutos nacionais de pesquisa de opinião.
Nesses sete Estados, pesquisa New York Times/Siena realizada entre 23 de outubro e 1º de novembro revela que a maioria dos eleitores acredita que os candidatos do Partido Democrata tenham as melhores soluções para quatro das principais questões do país: custo de vida, interesses das pessoas comuns, guerras e imigração.
Os republicanos só aparecem à frente, e apenas no tema da imigração, em três estados: Maine, Iowa e Alasca, os dois primeiros sendo aqueles (entre os sete) com maior predominância de população branca não hispânica, de acordo com o Censo - 89% e 81%, respectivamente. Recursos financeiros e redesenho.
Dois fatores podem matizar o grau de surpresa na apuração dos votos: a capacidade financeira do Partido Republicano, especialmente na reta final da campanha, quando costuma gastar mais que o Partido Democrata. E o chamado “gerrymandering”, como é conhecido o redesenho de limites de distritos eleitorais com a intenção de manipular resultados.
Contando com a persistência de melhoria de seu desempenho entre eleitores latinos, os republicanos lograram redesenhar o mapa distrital em importantes e populosos Estados, como Texas e Flórida. Agora, com o refluxo do voto latino, é possível que eles acabem se arrependendo do “gerrymandering”.
A abertura das urnas dirá.
Valor