Por Gustavo MaiatoPostado em 08 de novembro de 2026 Quem já assistiu a um show do Opeth sabe que Mikael Åkerfeldt é uma espécie de comediante de stand-up enrustido.
Nada de pejorativo nisso: o contraste entre as piadas que ele solta nas conversas com o público e a brutalidade melancólica das músicas cria um efeito curioso, quase cômico, que funciona muito bem ao vivo. Foi esse espetáculo que a banda sueca levou pela primeira vez a Curitiba na quinta-feira (5), na Ópera de Arame, dentro da turnê de divulgação de "The Last Will and Testament", lançado em 2024.
A noite teve gosto de despedida. Em entrevista à 89 A Rádio Rock, o baixista Martín Méndez explicou que a passagem pela América Latina fecha o ciclo do disco e que, depois dela, o grupo vai primeiro descansar e recuperar a energia para só então pensar em músicas novas.
"Esta é a última etapa deste álbum. Depois dela, vamos fazer uma pausa bem longa", afirmou.
No palco curitibano, Méndez dividiu a cena com Åkerfeldt (voz e guitarra), Fredrik Åkesson (guitarra), Joakim Svalberg (teclados) e Waltteri Väyrynen (bateria). O repertório passeou por diferentes fases da carreira, de "Morningrise" (1996) a "My Arms, Your Hearse" (1998) e "Blackwater Park" (2001), com bastante espaço para o trabalho mais recente.
Mesmo em um teatro com cadeiras, quase ninguém ficou sentado, e Åkerfeldt não deixou passar: avisou, em tom de bronca, que o público estava quebrando as regras. A balada "Windowpane" foi um dos momentos mais fortes da noite, por deixar a voz limpa do vocalista em primeiro plano, favorecida por um som impecável do início ao fim.
Entre uma música e outra, o vocalista comentou que adora tocar em cidades onde nunca esteve e classificou a estreia como um "luxury problem", algo como um perrengue chique. Também achou graça no nome da capital paranaense, que lhe soou japonês, e passou a chamá-la de "Curitiba-san".
Houve espaço para memória: ele lembrou a ligação do Opeth com o Brasil por meio de Anders Nordin, baterista dos dois primeiros discos, que deixou a banda para viver no país. Em outro momento, convidou um menino da plateia a subir ao palco e o recebeu com um abraço.
A piada mais comentada veio quando Åkerfeldt falava sobre as próprias letras. Segundo ele, os primeiros textos do Sepultura soavam estranhos, como se os músicos tivessem aberto um dicionário de inglês e escolhido palavras pelo som, como "morbid".
A brincadeira tem fundo de verdade, já admitido pelos próprios brasileiros em entrevistas. O grande trunfo do Opeth, no fim das contas, é usar a plateia a seu favor: as pausas para afinar viram conversa e aproximam o público, que explodiu em "Deliverance", no encerramento, com as luzes sincronizadas ao riff final.
A turnê passa por São Paulo nesta sexta-feira (6), no Espaço Unimed.
Whiplash