Onda democrata nos EUA desafia apostas ligadas a Trump na América Latina

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Fonte da notícia: Valor Valor

Investidores que passaram o último ano incorporando o relacionamento de diferentes países da América Latina com o presidente Donald Trump em suas estratégias agora se veem diante de uma nova variável: um Congresso americano controlado pelos democratas. As consequências das eleições legislativas dos Estados Unidos adicionam um novo elemento de incerteza para investidores em países que se beneficiaram, ou sofreram pressão, da política externa de Trump.

Isso é particularmente relevante na América Latina, onde o presidente americano buscou ampliar a influência de Washington e conter o avanço da China na região. Nos dias seguintes à eleição, os títulos argentinos tiveram desempenho inferior ao de outros mercados emergentes, diante do temor de que o resultado complique ainda mais a situação do presidente Javier Milei, aliado de Trump, em sua tentativa de se reeleger.

Na Venezuela, onde os Estados Unidos ocupam papel central na transformação política e econômica do país, investidores avaliam se o novo equilíbrio de forças em Washington poderá limitar os planos do governo americano. "Não é preciso ser um cientista espacial para perceber que isso não é uma boa notícia para os amigos mais próximos", disse Hans Humes, diretor-presidente da Greylock Capital Management.

"Os movimentos observados no mercado são racionais." O fator Trump nos investimentos

Durante o segundo mandato de Trump, a relação de cada país com a Casa Branca tornou-se um indicador importante para gestores de recursos. Essa dinâmica ajudou a impulsionar ralis em ativos de países como Argentina, Equador e El Salvador, onde a proximidade com os Estados Unidos reforçava a tese de investimento.

A estratégia ganhou ainda mais força após a detenção do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro. Embora Trump continue com ampla capacidade de agir sem o Congresso por meio de decretos presidenciais, o novo cenário político pode dificultar o suporte financeiro e político que sustentava parte dessas apostas.

Argentina sob pressão Alguns dos movimentos mais fortes após as eleições foram observados nos títulos argentinos.

Os papéis já vinham sofrendo pressão em meio às preocupações com as contas públicas e com as perspectivas de reeleição de Milei. Segundo Walter Stoeppelwerth, diretor de investimentos da corretora argentina Grit Capital, investidores passaram a temer que uma linha de swap de US$ 20 bilhões concedida pelos EUA no ano passado para apoiar o peso argentino possa ser esvaziada ou neutralizada sob o novo Congresso.

Venezuela enfrenta maior escrutínio No caso venezuelano, a mudança política ocorre em um momento em que investidores já enfrentam atrasos na elaboração de uma análise de sustentabilidade da dívida (DSA), etapa considerada crucial para uma futura reestruturação de dezenas de bilhões de dólares em títulos em default.

O estudo era esperado para junho, mas ainda não foi concluído. "Haverá mais escrutínio sobre a política para a Venezuela", afirmou Katrina Butt, gestora de portfólio da AllianceBernstein.

"Uma linha de swap como a da Argentina seria aprovada hoje? Certamente haveria mais resistência no Congresso, embora tenha sido implementada via decreto presidencial." Poucas decisões sobre o futuro econômico e político da Venezuela podem ser tomadas atualmente sem o envolvimento de Washington.

Os Estados Unidos se tornaram o principal fiador da transição política do país e exercem significativa influência sobre sua indústria petrolífera e fluxos de investimento estrangeiro. Por meio da administração interina liderada por Delcy Rodríguez, os EUA impulsionaram reformas consideradas essenciais para a abertura política após décadas de governo socialista autoritário.

Além disso, algumas das ações mais relevantes do governo Trump não dependeram de legislação aprovada pelo Congresso, incluindo a operação que resultou na captura e remoção de Maduro do país. "Muitos dos interesses americanos provavelmente estão menos ligados a alianças políticas e mais a interesses estratégicos na região, como minerais críticos e energia, que devem permanecer mesmo com a vitória democrata", afirmou Thomas Haugaard, gestor da Janus Henderson Investors.

Desafios para os aliados de Trump Para Stoeppelwerth, o apoio americano a Milei dificilmente desaparecerá.

Seu cenário-base, "até prova em contrário", é que Trump continuará aprofundando sua versão da Doutrina Monroe, princípio histórico que há dois séculos orienta a política dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental. Mas os aliados regionais de Trump enfrentam problemas próprios.

Na Argentina, a popularidade de Milei foi afetada pelo impacto de suas políticas fiscais sobre o crescimento econômico, o que pesa sobre suas chances de reeleição. No Paraguai, o ex-presidente Santiago Peña foi acusado por seu suposto envolvimento no colapso de um grande banco, episódio que desencadeou protestos logo após sua saída do cargo.

No Brasil, Flávio Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial. O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que já declarou ser "apaixonado" por Trump, se mudou posteriormente para os Estados Unidos.

Maior risco para a tese latino-americana Tomados em conjunto, esses riscos políticos podem aumentar a volatilidade da tese de investimento para a América Latina.

"Os Estados Unidos realizaram intervenções financeiras atípicas em alguns países da América Latina, e não se pode contar com isso daqui para frente", afirmou Samy Muaddi, responsável pela área de mercados emergentes da divisão de renda fixa da T. Rowe Price.

"Os países que dependem mais de apoio externo são os que estão mais expostos."

Publicação Original Valor valor.globo.com
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