Obras de arte roubadas, uma vidente e uma morte misteriosa: a saga da milionária família Boghici, que lembra 'Dom de Iludir'

Obras de arte roubadas, uma vidente e uma morte misteriosa: a saga da milionária família Boghici, que lembra 'Dom de Iludir' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A promessa era salvar a vida da filha. O preço, milhões de reais pagos a supostas videntes.

Geneviève Boghici, viúva de Jean Boghici, um dos maiores marchands e colecionadores de arte do Brasil, não imaginava que a previsão de morte de Sabine Coll Boghici escondia um golpe que, segundo a polícia, tinha a participação da própria herdeira. O medo de uma tragédia deu lugar a um escândalo de R$ 724 milhões, com obras de arte desaparecidas, traições familiares e personagens improváveis.

E, quando tudo parecia esclarecido, uma morte cercada de suspeitas trouxe novos mistérios à saga dos Boghici, que lembra a série Dom de Iludir, da Netflix, estrelada por Marieta Severo. Mas, na vida real, o último capítulo ainda está sendo escrito.

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Sabine Boghici: a filha excêntrica do colecionador de arte que aplicou um golpe milionário na mãe A saga da vida real vem sendo acompanhada pelo GLOBO em reportagens da jornalista investigativa Vera Araújo, que revelaram os bastidores do golpe e os desdobramentos da investigação.

Em entrevista exclusiva ao jornal, Geneviève acrescentou uma reviravolta: apesar de ter denunciado a própria filha, acredita que Sabine também foi vítima da falsa vidente e pode ter sido induzida ao suicídio. A ficção da Netflix e os capítulos que só a vida real escreveu

Em Dom de Iludir, Marieta Severo interpreta Lúcia Rossetti, uma colecionadora de arte envolvida numa trama de manipulação espiritual e conflitos familiares. Alice Wegmann vive sua filha, Maíra, enquanto Nanda Costa interpreta uma terapeuta espiritual.

As semelhanças com a história dos Boghici chamam a atenção: uma mulher rica, uma coleção de arte, uma filha, a influência de supostos poderes espirituais e um patrimônio ameaçado. A Netflix, no entanto, não confirma que a produção tenha sido inspirada diretamente no caso.

Marieta Severo e Alice Wegmann em cenário de 'Dom de iludir' Marcos Serra Lima/Netflix

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Antes de aparecer nas páginas policiais, o sobrenome Boghici era uma referência no mercado de arte brasileiro. Nascido na Romênia, Jean Boghici chegou ao Brasil em 1948, depois da Segunda Guerra Mundial.

Sem fortuna, trabalhou consertando rádios e chegou a dormir na praia. Décadas depois, seria reconhecido como um dos mais importantes marchands e colecionadores do país.

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Quando morreu, em 2015, aos 87 anos, deixou um patrimônio extraordinário e uma coleção de valor histórico. Sua viúva, a francesa Geneviève Boghici, passou a administrar parte desse legado.

O casal tinha uma única filha, Sabine Coll Boghici. Era justamente a relação entre mãe e filha que seria explorada no golpe.

Geneviève Boghici ao lado de Jean Boghici, em 2009 Marcos Ramos

Uma desconhecida na rua e a previsão de uma tragédia Tudo começou em janeiro de 2020, quando Geneviève foi abordada por uma mulher ao sair de uma agência bancária em Copacabana.

A desconhecida disse ter poderes espirituais e fez uma previsão assustadora: Sabine estava gravemente doente e poderia morrer em breve. A viúva foi apresentada a outras mulheres, que confirmaram a suposta ameaça e ofereceram um tratamento espiritual capaz de evitar a tragédia.

Geneviève acreditou. Segundo a investigação, em apr oximadamente duas semanas transferiu cerca de R$ 5 milhões para pagar pelos rituais.

Veja vídeo: piloto pode ter errado ao fazer a curva de aproximação para pouso de asa-delta em São Conrado O que parecia um encontro fortuito era, de acordo com a polícia, parte de um plano cuidadosamente preparado.

Sabine teria fornecido informações pessoais sobre a família para que as falsas videntes conquistassem a confiança da mãe. A mulher que Geneviève tentava salvar era apontada como uma das responsáveis por sua ruína.

A filha, a mãe e o terror dentro de casa Sabine Coll Boghici é filha do marchand Jean Boghici, falecido no Rio em 2015, e de Geneviève Rose Marie Coll Boghici

Reprodução O golpe não terminou quando Geneviève começou a desconfiar das previsões espirituais.

Segundo a investigação, Sabine passou a controlar a rotina da mãe, afastando pessoas próximas e dispensando funcionários da residência. A viúva relatou à polícia que foi submetida a ameaças, agressões e cárcere privado.

Em um dos episódios descritos por ela, a filha teria colocado uma faca em seu pescoço. O medo de perder Sabine, usado inicialmente para arrancar dinheiro, deu lugar ao medo da própria filha.

Enquanto Geneviève tentava recuperar o controle da vida, parte de sua coleção de arte também desaparecia. O tesouro de Tarsila escondido debaixo de uma cama

Entre os bens retirados do acervo dos Boghici estavam 16 obras de arte, incluindo trabalhos de Tarsila do Amaral. Uma das pinturas mais valiosas era "Sol poente", de 1929, avaliada à época em R$ 250 milhões.

Em agosto de 2022, durante uma operação batizada com o nome do quadro, Sol Poente, policiais encontraram a obra escondida debaixo de uma cama na residência de um dos investigados. A imagem de uma pintura milionária guardada naquele esconderijo se tornou um dos símbolos do caso.

A obra “Sol Poente”, de Tarsila do Amaral, que deu nome à operação, foi recuperada Reprodução

Somados dinheiro, joias e obras de arte, o patrimônio envolvido no golpe foi estimado em R$ 724 milhões. Parte dos bens foi recuperada, mas o prejuízo permaneceu na casa das centenas de milhões de reais.

Leo Aversa: O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco A falsa vidente que se tornou mulher da herdeira

Entre as personagens centrais da investigação estava Rosa Stanesco Nicolau, apontada como uma das responsáveis pela fraude espiritual. A relação entre Rosa e Sabine ultrapassava a trama criminosa.

As duas se casaram em 2022, antes de serem presas, em agosto daquele ano. Tragédia: Quem eram o instrutor de asa-delta e o turista argentino mortos em acidente em São Conrado

Sabine também fez um testamento beneficiando o filho adotivo de Rosa, decisão que acrescentou uma disputa patrimonial à história. A defesa de Geneviève chegou a buscar uma avaliação da saúde mental da filha, diante da possibilidade de questionar judicialmente o casamento e o testamento.

Rosa Stanesco, acusada de aplicar um golpe contra a viúva do marchand Jean Boghici Reprodução / Fantástico

O caso, que começara com uma falsa previsão espiritual, agora envolvia também vínculos afetivos, herança e o destino de uma das maiores fortunas em obras de arte do país. A herdeira deixa a prisão e morre seis meses depois

Sabine foi presa em agosto de 2022, acusada de participar do golpe contra a própria mãe. Em março de 2023, conseguiu liberdade provisória, mas ficou proibida de se aproximar de Geneviève.

No dia 14 de setembro daquele ano, aos 49 anos, morreu após cair de um apartamento na Zona Sul do Rio. A morte foi inicialmente tratada como suicídio.

Sabine não chegou a acompanhar o desfecho judicial do processo sobre o golpe milionário. A queda parecia encerrar tragicamente sua trajetória.

Mas a história ainda teria outra reviravolta. A mãe que pediu para investigar a morte da filha

Apesar das acusações de violência, cárcere privado e participação no roubo de seu patrimônio, Geneviève não aceitou que as circunstâncias da morte de Sabine permanecessem sem novos esclarecimentos. A viúva pediu a reabertura da investigação.

A apuração passou a examinar o ambiente em que Sabine vivia nos meses anteriores à queda, suas relações pessoais e possíveis episódios de violência. Segundo a Polícia Civil, foram reunidos indícios de agressões físicas, sofrimento psicológico, maus-tratos e restrição de liberdade.

A suspeita era de que a herdeira pudesse ter sido submetida a condições que contribuíram para sua morte. A mulher que havia denunciado a própria filha por um golpe milionário agora buscava respostas sobre o que acontecera com ela.

Justiça nega habeas corpus para Sabine Boghici. à esquerda, a mãe que a denunciou, Genevieve Boghici, viúva do colecionar de artes Jean Boghici

Reprodução Novas prisões e a investigação sobre a morte

Em agosto de 2026, a investigação ganhou um novo capítulo com as prisões de Rafael Maia Cardoso e Catarina Stanesco, filha de Rosa. Rafael morava com Sabine e Catarina.

Os dois passaram a ser investigados por crimes relacionados ao período que antecedeu a morte da herdeira, entre eles tortura, cárcere privado e instigação ao suicídio.Segundo a acusação, Sabine teria sofrido agressões e violência psicológica. Rafael negou os crimes em depoimento à polícia.

A investigação colocou novamente o círculo de pessoas ligadas à falsa vidente no centro da história, agora não apenas pelo desaparecimento da fortuna, mas pelas circunstâncias da morte da filha de Geneviève. As suspeitas ainda dependem de conclusão judicial.

As condenações e os milhões que não voltaram Em maio de 2024, cinco integrantes da família de Rosa foram condenados por participação no golpe contra Geneviève.

Rosa recebeu pena de 45 anos e nove meses de prisão. A Justiça também determinou medidas patrimoniais para reparar os prejuízos provocados pelos crimes.

Dos aproximadamente R$ 724 milhões envolvidos no caso, cerca de R$ 303 milhões haviam sido recuperados, enquanto o prejuízo restante era estimado em R$ 421 milhões. As decisões judiciais representaram um desfecho para parte do escândalo, mas não encerraram todas as questões em torno da família.

Na vida real, a história tomou caminhos que ultrapassam o golpe inicial. Mais de seis anos depois da abordagem de uma desconhecida numa rua de Copacabana, a saga ainda reúne perguntas sem resposta definitiva.

E a mulher que perdeu parte de sua fortuna e a única filha continua no centro de uma história em que a realidade parece desafiar a ficção.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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