Um osso humano e um conjunto de artefatos arqueológicos foram encontrados durante obras recentes da prefeitura de São Paulo no bairro da Liberdade, no região central da cidade, próximos de um antigo cemitério de negros e indígenas dos séculos 18 e 19. Os achados aconteceram em dois momentos, enquanto a gestão de Ricardo Nunes (MDB) executava demolições da segunda fase do programa Ruas Abertas — o mesmo que mantém a Avenida Paulista livre de carros aos domingos.
Em julho, foram descobertos fragmentos de louça cerâmica e um osso bovino (nas fotos desta página) na R. Dos Estudantes, na região do sítio arqueológico da Capela dos Aflitos, onde foram sepultadas pessoas negras, indígenas, pobres e indigentes da cidade entre 1775 e 1858.
Eles estavam a cerca de 30 centímetros de profundidade, sob uma camada de asfalto e paralelepípedos, nível semelhante ao de outros achados na região. As peças foram registradas e removidas.
Agora em outubro, os técnicos encontraram um fragmento de osso humano, provavelmente um fêmur, sob a rua Thomaz Gonzaga, que fica no entorno do sítio arqueológico do cemitério, mas não exatamente dentro de seu perímetro oficial. Além disso, conforme explicações da SP Urbanismo, a peça não foi encontrada próxima a outros objetos antigos que pudessem servir de contexto à descoberta.
Achados arqueológicos durante obras da prefeitura na Liberdade, em São Paulo Divulgação / São Paulo Urbanismo
Com os achados, alguns trechos das obras foram paralisados e isolados. "(...) Foram localizados artefatos de possível interesse arqueológico e, por isso, as intervenções na Rua dos Estudantes dependem da conclusão da pesquisa arqueológica autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)", diz a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.
Criado em 2016, o programa Ruas Abertas incentiva a ocupação dos espaços públicos em vias de diferentes regiões da cidade, abertas para ciclistas e pedestres aos domingos e feriados. O programa está em funcionamento atualmente em duas áreas no Centro, que incluem em toda a extensão da Avenida Paulista e em quatro vias da Liberdade — nas ruas dos Estudantes, dos Aflitos, Américo de Campos e a Galvão Bueno.
O bairro de origem japonesa tem grande fluxo de turistas. A prefeitura iniciou as obras do bairro no ano passado.
O local receberá calçadas mais amplas e acessíveis, cruzamentos mais seguros para pedestres, novos espaços de permanência e arborização. A Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos também faz parte do pacote de obras.
Ela reabriu em junho, após mais de um mês de restauros. Todo o processo de revitalização do espaço foi marcado por descobertas arqueológicas, como cinco a dez pessoas sepultadas, o que reforçou o uso histórico da área como parte do Cemitério dos Aflitos.
Erguida em 1779, a capela era originalmente o epicentro do cemitério, o primeiro de uso público da capital paulista. Hoje, ela carrega não apenas o peso desse passado, mas cicatrizes de anos de transformações e apagamentos.
Inaugurada com dimensões modestas, foi ampliada ao longo dos anos e submetida a reformas estruturais em 1890 e, posteriormente, em 1960. Mas um capítulo dramático ocorreu em 1994, quando um incêndio consumiu parte do patrimônio histórico.
Uma obra de restauro chegou a ser iniciada no ano seguinte, mas acabou abandonada antes de ser concluída. Já em 2018, a construção de um edifício no terreno vizinho abalou severamente a estrutura da capela, provocando rachaduras profundas nas paredes e infiltrações que ameaçavam a integridade do templo.
A partir de um movimento de pressão da sociedade civil, a obra do prédio vizinho foi embargada e iniciou-se um novo processo de ressignificação. Como resposta a essa resistência histórica, o local vai abrigar o Memorial dos Aflitos, um projeto dedicado a preservar e honrar as raízes negras do bairro da Liberdade.
Em novembro, em celebração ao Mês da Consciência Negra, também está previsto o lançamento de um livro inédito sobre as descobertas recentes durante as escavações arqueológicas no terreno. * Estagiária sob orientação de Pedro Carvalho
O Globo