O título resume o filme. “Os indiferentes”, de Francesco Maselli, lançado em 1964, adapta o primeiro romance de Alberto Moravia, um dos maiores escritores italianos do século XX, autor de “O desprezo” e “Duas mulheres”, que o cinema também levou às telas com Godard e Sophia Loren.
O longa acompanha os Ardengo, uma família da burguesia romana nos anos do fascismo. Estão falidos e fingem que não.
Vivem trancados numa mansão hipotecada, ocupados com dinheiro, aparências e pequenas traições, enquanto lá fora a Itália muda de pele. Há um homem disposto a explorar todos os outros, e uma família inteira incapaz de reagir.
Moravia sugere que foi também essa indiferença, multiplicada aos milhares, que permitiu a um país afundar sem resistência. Reexibido na semana passada em São Paulo, numa sessão especial, o filme parece feito para agora.
Vivemos um tempo curioso, em que os indignados ocupam as telas, os indiferentes ocupam o sofá, e cada lado se convence de que o problema mora do outro lado da sala. Há ainda uma indiferença que se veste de indignação: a de quem compartilha, reage e esquece cinco minutos depois.
Nunca foi tão fácil manifestar uma opinião, nem tão cômodo confundir essa manifestação com alguma forma de participação. Moravia tinha apenas 21 anos quando publicou o romance, em 1929, com Mussolini já instalado no poder.
Nenhuma linha menciona o ditador. A viúva Mariagrazia, vivida por Paulette Goddard, vê seu patrimônio ser consumido por Leo (Rod Steiger), amante que também cobiça a filha da casa, Carla.
É o papel da grande Claudia Cardinale, que nos deixou no ano passado, então com a beleza de quem já desistiu de esperar. O irmão, Michele (Tomas Milian) enxerga tudo e não move um dedo.
Michele é o personagem que mais me impressiona. Sabe que Leo engana a mãe, deseja a irmã e devora o patrimônio da família.
Sente nojo, ensaia uma revolta, arruma uma pistola. Na hora decisiva, aperta o gatilho e descobre que esqueceu de carregar a arma.
A cena beira o cômico e por isso mesmo devasta. O regime nunca entra em quadro, e nem precisaria.
Está inteiro naquele revólver vazio de um rapaz que preferiu sentir a agir. Dante já havia reservado aos indiferentes um lugar à parte.
No Canto III do “Inferno”, antes de atravessar o Aqueronte, o poeta encontra as almas que viveram sem infâmia e sem louvor, recusadas pelo Céu e desprezadas até pelo Inferno. Correm eternamente atrás de uma bandeira que não representa coisa alguma.
Em vida, não seguiram nenhuma. Na morte, estão condenadas a perseguir uma para sempre.
Dante nem lhes concede um nome. A lição dos Ardengo é que uma casa raramente cai num estrondo.
Ela vai sendo hipotecada aos poucos, enquanto a família discute o cardápio do jantar, enquanto alguém acha que o assunto não lhe diz respeito, enquanto o filho guarda no bolso uma pistola sem bala. A personagem de Claudia Cardinale acaba aceitando o arranjo, trocando o desejo de mudar de vida pelo conforto de não decidir nada.
O voto é uma das poucas armas que a democracia entrega igualmente a todos. Podemos usá-lo com dúvida ou convicção, entusiasmo ou desencanto.
Os Ardengo descobriram tarde demais que quem se recusa a escolher acaba escolhido pelos outros.
O Globo