O que pode acontecer com a Bolsa de Valores nos próximos meses após a vitória de Lula

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

Após a forte reação do mercado à eleição, economista analisa os riscos para o crédito, a inflação e os investimentos no país A reação do mercado financeiro à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode influenciar os próximos meses da economia brasileira, especialmente diante das expectativas sobre os gastos públicos, o controle da dívida e as decisões de política econômica.

Além da movimentação inicial do Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, investidores devem acompanhar os sinais do governo sobre a condução da economia e o cenário internacional. A economista Margarete Campos Vieira, professora da Unicesumar, avalia que o resultado eleitoral é apenas um dos fatores que determinam o comportamento dos ativos financeiros.

Segundo ela, a trajetória da Bolsa também depende das condições econômicas e das expectativas dos investidores sobre o futuro. A reação inicial do mercado foi de forte turbulência.

Na segunda-feira (26), primeiro pregão após a reeleição de Lula, o Ibovespa caiu 13,88%, fechando aos 176.608 pontos, e acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em momentos de queda acentuada. O dólar comercial subiu 8,21%, para R$ 5,403.

Foi a maior queda diária da Bolsa desde março de 2020. Na terça-feira (27), o mercado apresentou sinais de acomodação, mas a instabilidade continuou.

O dólar recuou 1,14%, para R$ 5,348, enquanto o Ibovespa encerrou o dia em baixa de 0,50%, aos 175.710 pontos. O movimento indica uma correção parcial após o choque inicial, mas ainda não permite concluir que a volatilidade terminou.

A reação foi influenciada pela mudança das expectativas dos investidores, parte dos quais havia apostado na vitória de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno. Com a reeleição de Lula, houve uma reversão dessas posições e aumentaram as preocupações com a condução da política fiscal e o endividamento público.

A tendência para a Bolsa dependerá dos próximos sinais do governo, da evolução dos indicadores econômicos e das condições internacionais. Segundo Margarete Campos Vieira, “uma reação inicial da Bolsa, isoladamente, não permite antecipar seu comportamento ao longo do mandato”.

De acordo com ela, a estabilização pode ocorrer quando houver maior previsibilidade sobre as políticas públicas, o Orçamento e as perspectivas de inflação, juros e crescimento. Por outro lado, decisões que contrariem as expectativas dos investidores podem ampliar as oscilações.

O cenário exige acompanhar as medidas efetivamente adotadas, em vez de projetar uma trajetória de alta ou queda apenas com base no resultado eleitoral. O Ibovespa é o principal indicador de desempenho das ações negociadas na B3 e reúne empresas de diferentes setores.

Por isso, seu comportamento reflete, além da avaliação política do governo, as perspectivas de lucro das companhias, os custos de financiamento e o retorno que os investidores esperam obter. Um dos principais desafios para o governo Lula será demonstrar como pretende conciliar os gastos públicos, os investimentos e o controle da dívida.

Quando os investidores consideram que as receitas e despesas estão sob controle, a percepção de risco pode diminuir. Em contrapartida, dúvidas sobre o financiamento de compromissos públicos podem elevar o retorno exigido para investir no país e encarecer a captação de recursos.

Margarete ressalta que a avaliação das contas públicas não deve considerar somente o volume dos gastos, mas também sua qualidade e as fontes de financiamento. “Investimentos públicos bem planejados podem ampliar a produtividade e melhorar a oferta de serviços”, afirma.

Ao mesmo tempo, segundo a economista, “compromissos permanentes precisam de financiamento compatível para preservar a sustentabilidade das contas públicas”. A professora acrescenta que a confiança dos investidores dependerá da transparência das informações, da viabilidade das medidas e dos resultados observados.

A trajetória da dívida também será influenciada pelos juros e pelo crescimento econômico. Nesse contexto, a capacidade do governo de negociar prioridades orçamentárias com o Congresso e apresentar medidas fiscais consideradas consistentes poderá influenciar a percepção de risco nos próximos meses.

Uma desvalorização persistente das ações pode dificultar a captação de recursos por empresas que pretendem financiar projetos por meio do mercado de capitais. Com condições menos favoráveis, algumas companhias podem adiar investimentos e rever planos de expansão.

O efeito, porém, varia conforme o setor e a situação financeira de cada empresa: a queda das cotações não representa uma saída automática de dinheiro do caixa das companhias. A alta do dólar também pode pressionar a economia ao encarecer produtos importados, máquinas, equipamentos e insumos utilizados pela indústria.

Caso esses custos sejam repassados aos preços, a inflação poderá ganhar força e reduzir o poder de compra das famílias. Empresas que possuem dívidas em moeda estrangeira sem proteção cambial também podem enfrentar despesas maiores.

Por outro lado, exportadoras podem se beneficiar, já que receitas em dólares passam a valer mais em reais. Outro canal de transmissão é a política monetária.

Se a desvalorização cambial pressionar as expectativas de inflação, o Banco Central poderá enfrentar dificuldades adicionais para reduzir os juros. Taxas elevadas por mais tempo encarecem empréstimos e financiamentos, limitam o consumo e podem desestimular investimentos produtivos.

O resultado pode ser um crescimento econômico menor, com reflexos sobre o emprego e a arrecadação. Para Margarete, os efeitos sobre o governo dependerão da duração dos movimentos e das respostas econômicas adotadas.

Uma queda prolongada da Bolsa, combinada com dólar elevado e aumento do custo de financiamento, pode dificultar a execução do Orçamento e a implementação de políticas públicas. No entanto, uma oscilação isolada não comprova uma deterioração generalizada da economia.

A economista destaca que o mercado brasileiro também responde a fatores externos, como os juros nos Estados Unidos, o crescimento da China e os preços internacionais das commodities. Por isso, o desempenho dos ativos não deve ser atribuído exclusivamente ao resultado eleitoral.

“O comportamento do mercado dependerá das informações sobre a política econômica e das condições internacionais”, afirma. O desafio de Lula, portanto, será transformar as expectativas em sinais concretos de previsibilidade econômica, especialmente em relação às contas públicas e às decisões que afetam inflação, juros e crescimento.

Para os próximos meses, a evolução desses indicadores será fundamental para avaliar se a turbulência inicial dará lugar a um cenário de maior estabilidade ou se a incerteza continuará pressionando os ativos brasileiros. Camila Souza é repórter do ND Mais em São Paulo, de onde apura e escreve sobre os principais assuntos da maior cidade do Brasil.

Integrante do Núcleo Nacional, cobre política, economia, segurança pública e o que mais impacta a população do estado. Acompanha especialmente movimentações políticas e o que acontece na Grande São Paulo, incluindo a capital paulista, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e a região.

Formada pela UniRitter, em Porto Alegre, trabalha com comunicação desde 2020 e tem experiência em redação multimídia e edição de conteúdo, com passagens por portais de notícias e jornal impresso. Foi repórter nas Eleições 2022 e integrou o Projeto Comprova, iniciativa nacional de checagem de fatos.

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