A desenvoltura digital essencial para a virada de Lula chega ao Planalto com uma pergunta incômoda: até onde pode ir a selfie de um presidente sem tropeçar nas regras do cargo e no humor de um país partido ao meio. Lula inaugurou o quarto mandato com uma promessa de método.
No discurso da vitória, anunciou que a comunicação digital terá “um espaço muito grande” no governo e que o povo será chamado a participar mais das decisões. A intenção de falar com o cidadão olhando para a câmera do celular, com menos produção e mais espontaneidade, acompanha a forma como o brasileiro se informa hoje e merece apoio.
O desafio está em levar para o Palácio uma linguagem nascida no palanque. Por trás da autenticidade prometida existe uma engrenagem profissional.
Antes da campanha, segundo auxiliares, Lula não tinha celular nem cuidava das próprias contas, e as postagens com seu nome saíam da Secretaria de Comunicação Social. O diálogo sem intermediários nasceria, portanto, mediado pela própria máquina do Estado, com todas as obrigações que isso impõe.
Duas gramáticasA comunicação eleitoral trabalha com um adversário definido e com voluntários que não respondem pelo que publicam. O algoritmo, que premia a estridência e o confronto, joga a favor de quem está em campanha, e o êxito do Exército do Lula decorreu dessa sintonia, alimentada por missões diárias de compartilhamento e pelo medo da volta de um Bolsonaro ao poder.
Nem por isso escapou ao escrutínio: em 11 de outubro, o TSE chegou a suspender o canal a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. O personalismo acrescenta uma camada de complexidade.
Quanto mais o presidente trata de atos de governo em seu perfil pessoal, mais tênue fica a fronteira entre a pessoa e a instituição. O que o mundo já testouOs precedentes internacionais apontam nas duas direções.
No México, as mañaneras de López Obrador, mantidas por Claudia Sheinbaum, ajudaram a sustentar aprovação elevada, amparadas, porém, numa supermaioria no Congresso e num jornalismo fragilizado, condições distintas à do Brasil. Nayib Bukele ergueu em El Salvador uma popularidade digital apoiada na queda dos homicídios, prova de que o vídeo rende quando tem algo concreto a mostrar.
Os insucessos são igualmente instrutivos. Barack Obama tentou converter a máquina digital que o elegeu em 2008 numa estrutura de mobilização a serviço do governo e viu a energia dos voluntários se dissipar na batalha pela reforma da saúde, antes de perder a Câmara em 2010.
Javier Milei conheceu os limites do método quando uma postagem em favor da criptomoeda $LIBRA desaguou num escândalo com investigação judicial. O caso americano é o que mais se aproxima do desafio de Lula, já que a militância que vence uma eleição raramente aceita ser convocada para defender projetos de governo.
O valor do intermediárioAo prometer um contato direto e permanente com a população, Lula sinaliza disposição de reduzir o peso da mediação jornalística, aposta de riscos consideráveis. A imprensa profissional cumpre uma função de curadoria que nenhum perfil oficial substitui, separando o fato do espetáculo num ambiente saturado de peças fabricadas por inteligência artificial.
O papel cresce à medida que as plataformas recuam da moderação, como fez a Meta ao abandonar a checagem independente nos Estados Unidos. Sem esse filtro, a palavra presidencial perde a chancela externa e fica à mercê de algoritmos de empresas que o próprio Lula promete regular.
A vulnerabilidade maior, contudo, é a da bolha. O Brasil saiu das urnas partido ao meio, com 64,2 milhões de votos para o petista e quase 60 milhões para Flávio Bolsonaro, e os seguidores do Exército do Lula são, em sua quase totalidade, eleitores já convertidos.
A comunicação direta tende a circular entre quem já aplaude, eco facilmente confundido com aprovação. O cidadão que decide a avaliação de um governo quer apenas que sua vida melhore, informa-se pela TV aberta e pelo grupo de família, e só é alcançado com a ajuda de mediadores.
O melhor conteúdo é o serviçoO bem-vindo “choque de digitalização” encontra terreno fértil na estrutura governamental. A plataforma gov.br soma cerca de 176 milhões de usuários, e o Pix tornou-se referência mundial em infraestrutura pública digital.
A Estônia, apontada há duas décadas como modelo de Estado digital, construiu sua reputação da mesma maneira, pela qualidade dos serviços, dispensando o culto ao governante. O digital melhorou a rotina do cidadão sem exigir adesão política, e talvez seja esse o conteúdo mais persuasivo de que o governo dispõe.
O presidente pode e deve estar mais presente no celular do eleitor, desde que a voz do candidato não se confunda com a da instituição. A popularidade que procura nascerá da percepção de que a vida melhorou, e o canal direto valerá o que valerem os resultados que tiver para anunciar.
O Exército do Lula ganhou (ou ajudou a ganhar) uma eleição. Para governar um país dividido, o presidente precisará também dos interlocutores que jamais se alistariam nele.
Fábio Zambeli é jornalista e diretor de Public Affairs do Grupo In Press.
Valor