Na noite da vitória, o presidente Lula anunciou que a comunicação digital ganhará “um espaço muito grande” em seu governo. Contou que já ganhou um celular do governador do Piauí, Rafael Fonteles, e prometeu conversar com o povo brasileiro “muitas vezes por dia, diretamente”.
Acrescentou que não aceitará ser interpretado com má-fé: dirá ele mesmo o que pensa e o que faz. A frase soa simpática, quase doméstica.
Um presidente às vésperas dos 81 anos aprendendo a usar o celular para falar com quem o elegeu. Mas quem estuda a democracia deveria ouvi-la com inquietação.
Ela repete, com outro sotaque, a promessa que levou o bolsonarismo ao poder: a de que o líder não precisa mais de intermediários para chegar ao povo. O atalho que o bolsonarismo pavimentou
Em dezembro de 2018, ao ser diplomado, Jair Bolsonaro disse que o poder popular já não precisava de intermediação, porque as novas tecnologias permitiam uma relação direta entre eleitor e representante. Não era um detalhe retórico.
Era o programa. Lives semanais, grupos de WhatsApp, ataques diários à imprensa profissional: tudo servia para construir um canal sem filtro entre o líder e o “seu” povo.
Nadia Urbinati oferece a chave para entender o problema. Para ela, a democracia representativa é uma diarquia: de um lado, a vontade, que se exprime nos procedimentos e instituições que decidem; de outro, a opinião, que circula livremente fora deles, julga, critica e cobra.
As duas se influenciam e se tensionam, mas nunca se fundem. É nesse intervalo que vivem a imprensa, os partidos e a oposição, as mediações que transformam o social em político.
O populismo ataca justamente esse intervalo. Não promete uma democracia direta, em que o povo decide; promete uma representação direta, em que o líder diz encarnar o povo sem intermediários.
A vontade de uma maioria passa a valer como a vontade de todos. Quem a contesta, seja jornalista, juiz ou parlamentar, deixa de ser interlocutor legítimo e vira obstáculo entre o líder e o “seu” povo.
As plataformas digitais deram a essa lógica uma eficácia inédita. Paolo Gerbaudo fala numa “afinidade eletiva” entre redes sociais e populismo: algoritmos agrupam os semelhantes, premiam a emoção e medem relevância por curtidas, não pela qualidade dos argumentos.
O líder fala todos os dias, numa espécie de campanha permanente; os seguidores repostam; quase ninguém pergunta. Habermas chamou essas bolhas de esferas semipúblicas: espaços que confirmam os próprios vieses e tratam toda voz externa como suspeita.
Nelas, a crítica não é refutada. É desqualificada como má-fé.
O PT não ficou imune a essa gramática. Assustado com o primeiro turno, em que terminou atrás de Flávio Bolsonaro, transferiu o eixo da campanha para as redes e ergueu o chamado “Exército de Lula”, um canal de WhatsApp com milhões de inscritos destinado a multiplicar mensagens, revidar ataques e disputar o eleitor bolha a bolha.
Dirão que não havia alternativa, já que o bolsonarismo fazia o mesmo com suas próprias tropas digitais. Mas a metáfora escolhida diz mais do que pretendia.
Exércitos não deliberam: obedecem, marcham e combatem; não conhecem interlocutores, apenas aliados e inimigos. É exatamente essa a gramática do populismo, que só existe ao dividir a sociedade entre um “nós” virtuoso e um “eles” a ser derrotado, transformando a política em guerra e o adversário em ameaça à própria comunidade.
Ao adotá-la, o campo que se diz democrático não derrota o bolsonarismo; aceita jogar no terreno em que ele joga melhor. A campanha talvez tolere essa lógica, porque é, por definição, o momento da parte.
O governo, não. A eleição é o rito pelo qual o candidato de uma facção se converte em representante de todos, inclusive dos que votaram contra ele.
O presidente que mantém o exército mobilizado depois da vitória recusa essa conversão: governa como quem segue em campanha, e o povo deixa de ser o conjunto dos cidadãos para tornar-se a tropa que o elegeu. Quer receber reportagens do JOTA com mais frequência? Clique aqui e selecione o JOTA como fonte de informação no Google Notícias
Por isso a promessa da noite da vitória preocupa. Seu campo passou os últimos oito anos se apresentando como guardião da democracia contra esse modelo.
Não se combate a representação direta adotando sua gramática. Quando o presidente diz que falará diretamente para não ser “interpretado com má-fé”, desloca a suspeita para quem interpreta.
É o mesmo gesto, ainda que movido por intenções diferentes. E instituições não se protegem com boas intenções, mas com práticas.
É justo reconhecer as diferenças. Um governo pode usar as redes como forma legítima de responder à desinformação, e Lula, ao contrário de Bolsonaro, concede entrevistas, enfrenta coletivas e não fez da hostilidade a jornalistas um método de governo.
Esta breve opinião não sustenta que ele esteja repetindo o bolsonarismo. É apenas um alerta: o atalho da comunicação direta é tentador justamente porque parece inofensivo nas mãos de quem se considera democrata.
Convém então, desde já, lembrar que a mediação importa. Tocqueville já via, na América do século XIX, que numa sociedade de indivíduos iguais e dispersos a imprensa era um dos poucos freios à tirania da maioria: reunia os cidadãos, dava voz ao fraco e expunha o poderoso.
Habermas atualizou a intuição ao mostrar que o jornalismo profissional funcionava como filtro, selecionando temas e verificando fatos para que opiniões divergentes se formassem sobre uma base comum. Um presidente que fala “muitas vezes por dia, diretamente” não fortalece a esfera pública.
Ocupa-a. Cada postagem presidencial dispensa a pergunta incômoda, o contraditório, a checagem.
Pode até ser verdadeira, mas chega ao cidadão sem passar pelo crivo que a democracia construiu para separar informação de propaganda. E o precedente fica para quem vier depois.
A imprensa também precisa fazer a sua parte Nada disso absolve o jornalismo brasileiro.
Parte da desconfiança que hoje alimenta a comunicação direta foi cultivada pela própria imprensa: coberturas seletivas, falsas equivalências, a busca do escândalo que, como lembra Castells, corrói a confiança em toda a política. Se a imprensa quer ser defendida como filtro, precisa voltar a agir como filtro: com lisura, rigor e coragem de nomear as coisas.
O teste veio na mesma noite. Derrotado, o senador Flávio Bolsonaro declarou que não reconhece o resultado e que pedirá a anulação do segundo turno.
Apoiou-se na prorrogação de duas horas do horário de votação, autorizada pelo ministro Cristiano Zanin após relatos de falta de transporte público em municípios da Bahia, e insinuou, sem provas, que a medida favoreceu o adversário. O TSE informou que a prorrogação não alterou o resultado, decidido por mais de 4,4 milhões de votos.
Não deveria surpreender. Meses antes, Flávio havia levado a embaixadores a insinuação falsa de que as urnas brasileiras teriam a mesma origem das máquinas da Smartmatic, acusada de fraude na Venezuela; depois, recuou e passou a jurar que respeitaria o resultado.
Parte da imprensa preferiu registrar a segunda versão como sinal de moderação, como se a primeira fosse um deslize de campanha. O herdeiro político de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe foi, não raro, apresentado como mais um candidato da direita, avaliado pelas alianças, pelas pesquisas e pelo humor do mercado, e não por seu compromisso com as regras do jogo.
Cobrir uma candidatura legal é dever do jornalismo; normalizar sua ambiguidade diante da democracia é abdicar dele. Quando a lealdade às instituições é tratada como uma posição entre outras, o leitor aprende que a própria regra do jogo está em disputa.
Domingo à noite, ficou claro que estava. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email
Recusar-se a reconhecer uma eleição limpa e pedir sua anulação sem evidência não é “questionamento”, nem “judicialização”, nem “versão”. É a reedição de um roteiro que já levou o pai do senador a ser condenado por tentativa de golpe.
A imprensa não deve tratar isso como um lado do debate. Deve chamar de golpismo aquilo que é golpismo, na manchete e não no sétimo parágrafo.
A democracia brasileira sobreviveu a 2022 porque instituições, imprensa e sociedade civil funcionaram como contrapesos. Seria um erro trágico que, no momento da vitória, o campo que se diz democrático trocasse esses contrapesos pelo atalho que quase os destruiu.
O presidente tem todo o direito de usar as redes. O que não deve é fazer delas um substituto da entrevista, da coletiva e do escrutínio.
Da imprensa, espera-se o inverso: que mereça o lugar que a teoria democrática lhe reserva. Entre um governo que fala sem ser perguntado e um jornalismo que não ousa nomear o golpe, quem perde é a esfera pública.
E sem ela não há soberania popular, apenas audiência.
Portal Jota