Informações levantadas pela Polícia Federal (PF), em duas investigações distintas, apontam que enquanto o ex-banqueiro Daniel Vorcaro negociava para ceder cotas de uma aeronave para o escritório de advocacia Barci de Moraes, da esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma auxiliar do advogado Willer Tomaz tentava excluir o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) da conta ligada a uma empresa que detinha participação na mesma aeronave.
Leia mais Os episódios foram registrados em dois relatórios da PF e expõem a complexa rede de empresas e conexões envolvendo o avião Legacy 650, prefixo PP-NLR.
A empresa Alcazar Holdings, de Willer Tomaz, detinha uma cota da aeronave. Outra empresa que também possuía cotas desse avião era a Prime You, de Daniel Vorcaro.
Em 19 de maio do ano passado, Vorcaro discutiu no WhatsApp com um de seus auxiliares o modelo de um contrato para fechar com o escritório Barci de Moraes, de Viviane de Moraes, esposa do ministro do STF. Pela minuta redigida, estava previsto que o escritório teria direito às cotas da aeronave que pertenciam ao então dono do Master como forma de remuneração pelos serviços jurídicos prestados.
Este era o segundo contrato que o Master negociava com o escritório da mulher de Moraes, que já havia firmado um primeiro no valor de R$ 131 milhões. Apesar de a minuta ter sido encontrada pela PF no celular de Vorcaro, o contrato acabou não saindo do papel.
Três dias depois, em 22 de maio de 2025, uma funcionária de Willer Tomaz enviou um e-mail para o banco Santander para tratar da conta da Alcazar Holdings, empresa com sede em Portugal. “Prezados, bom dia.
Na oportunidade peço por gentileza no gerenciador do usuário master desassociar as contas abaixo", escreveu a secretária, listando em seguida um número e o nome de Flávio B e uma outra conta do advogado. No mesmo dia, o banco confirmou a exclusão das contas solicitadas.
Segunda a PF, o cadastro como "usuário master" dava a Flávio Bolsonaro "acesso operacional relevante" à conta bancária. Esses e-mails foram identificados pela Polícia Federal na nuvem da conta de Willer Tomaz.
Os investigadores acessaram o conteúdo no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo bets que tinha o advogado como um dos investigados e que foi remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF) no começo de outubro após a PF localizar o nome de Flávio Bolsonaro no celular do advogado.
Flávio e Tomaz já admitiram publicamente serem amigos. Para a PF, a mensagem indica que o senador teria poder de movimentar as contas da Alcazar Holdings até a data do pedido de sua exclusão.
“Na documentação relativa à abertura da conta bancária da empresa Alcazar Holding, verificou-se que Flávio Bolsonaro figurava com perfil de usuário master, condição que, em princípio, lhe conferia nível elevado de acesso e gerenciamento da conta”, diz trecho do relatório da corporação, revelado pelo UOL e confirmado pelo Valor.
Quando o e-mail sobre o “usuário master” veio à tona, Flávio Bolsonaro afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Em nota, o advogado disse que “é falso que Flávio Bolsonaro tenha administrado, controlado ou figurado como ‘usuário master’ de contas bancárias da Alcazar”. Nesse relatório, a PF também diz ter encontrado nos arquivos de Willer Tomaz uma minuta de “intenção de venda da participação societária” da Alcazar em relação ao avião, que tinha Vorcaro entre os cotistas.
O documento é datado de março de 2025. Na prática, as informações das duas investigações, sobre o advogado e sobre o ex-banqueiro, indicam que o advogado queria deixar sua participação na aeronave ao mesmo tempo em que Vorcaro estudava ceder sua parte para o escritório Barci de Moraes.
Não é a primeira vez que aparecem referências a Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes envolvendo o jato Legacy 650. Em setembro, a revista piauí revelou que o candidato à presidente havia voado para os Estados Unidos na mesma aeronave que o ministro já teria utilizado em outra ocasião.
Quando o episódio veio à tona, Flávio alegou que voou a convite de Willer Tomaz e que a viagem não teve relação com Daniel Vorcaro. Questionado sobre a coincidência das datas identificadas nas investigações da PF e sobre o interesse de vender suas cotas no avião, Tomaz afirmou que as cotas ainda não foram vendidas e que “o desligamento é objeto de procedimento arbitral em andamento, instaurado após a série de vazamentos, na imprensa, que expôs a até então desconhecida e oculta ligação entre a Prime You e Daniel Vorcaro”.
O advogado afirmou ainda que “desconhece termos de quaisquer negociações entre o escritório Barci de Moraes com Vorcaro, das quais nunca fez parte, sequer tomou conhecimento. Tampouco conhece o banqueiro; e jamais tratou com ele sobre venda de ativo da Alcazar, ou qualquer outro tema”.
O escritório Barci de Moraes informou, por meio de assessoria, que não iria comentar os episódios. O gabinete de Moraes foi procurado, e não se manifestou, assim como a defesa de Daniel Vorcaro.
A assessoria de Flávio Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Valor