Belgrado em festa: sérvios comemoram eleição que sepultou a era VucicNemanja Rujevic (de Belgrado) No mesmo dia em que o Brasil reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) presidente, um pequeno país do leste europeu celebrou uma mudança histórica nos rumos da política.As ruas da Sérvia foram tomadas por centenas de jovens eufóricos no final da noite deste domingo (25/10).
Eles comemoravam a derrota eleitoral do ex-presidente sérvio Aleksandar Vucic, o homem que governou o país com mão firme por mais de 14 anos.A lista estudantil, impulsionada por um movimento de protesto que há dois anos sacode o país, obteve cerca de 53% dos votos. A aliança liderada pelo Partido Progressista Sérvio (SNS) de Vucic, acostumada a vitórias folgadas, ficou com aproximadamente 39%.Nenhuma outra lista superou a cláusula de barreira de 3%.
Apenas representantes de minorias nacionais, para as quais essa restrição não se aplica, também conseguiram assentos no Parlamento.Dia da eleição ainda marcado por tensãoA reviravolta na Sérvia foi precedida por uma campanha tensa. Houve relatos de compra de votos e de pressão sobre funcionários públicos para que votassem no SNS de Vucic, até mesmo no próprio domingo de votação, e ataques violentos a apoiadores dos estudantes Ao cair da noite, o parque ao lado do Parlamento começou a ser ocupado por homens vestidos de preto, encapuzados ou mascarados.
O endereço serviu por quase dois anos como uma espécie de acampamento para apoiadores de Vucic. Dali partiram repetidas agressões contra simpatizantes da lista estudantil.
Críticos acusam Vucic há anos de corrupção, de conceder grandes contratos públicos a empresários próximos ao partido e de exercer um controle quase total sobre os meios de comunicação.Em setembro, ele renunciara ao cargo de presidente e dissolvera o Parlamento na esperança de se eleger primeiro-ministro.No estúdio da emissora Informer TV, considerada há anos um porta-voz informal de Vucic, a vitória do político era dada como certa — até ele admitir a derrota nas urnas.Visivelmente contrariado, Vucic parabenizou a lista estudantil.
Ao mesmo tempo, voltou a acusar seus representantes de destruir o Estado e executar o "trabalho sujo de outras pessoas". E se apresentou como alguém que pretende liderar um partido de oposição no futuro.Clima de festa nas ruasA comemoração da vitória dos estudantes entrou pela madrugada nas ruas de Belgrado e de outras cidades."Estou me sentindo ma-ra-vi-lho-so.
Essa é, ao mesmo tempo, a forma mais curta e mais longa de explicar o que sinto", disse Aleksa, um homem na faixa dos 40 anos, perto do Parlamento. Outros relataram que até esperavam uma vitória, mas não dessa proporção.Questionada se esperava que Vucic reconhecesse a derrota dessa maneira, uma mulher radiante respondeu: "Não esperava isso.
Tenho que admitir que talvez tenha sido um gesto positivo da parte dele, para evitar confrontos e tumultos e permitir que a vitória merecida fosse devidamente comemorada."Como nasceu a revolta dos estudantes na SérviaNa lista estudantil vitoriosa figuram, além de ativistas, professores renomados.
Para eles, Vucic não deve se tornar apenas um político de oposição comum, e sim ocupar o banco dos réus. A revolta estudantil começou após o desabamento, no fim de 2024, da marquise da recém-reformada estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade do país.
O acidente deixou 16 mortos e ajudou a expor um esquema de desvios na reforma da estação. A indignação pública foi acentuada com a revelação de indícios de que as autoridades teriam ignorado deliberadamente alertas sobre falhas de segurança."A corrupção mata!" tornou-se um dos principais slogans dos protestos estudantis.
Durante dois anos, estudantes percorreram a Sérvia a pé, conversaram com a população e organizaram algumas das maiores manifestações da história do país.Uma lista diversaA lista eleitoral dos estudantes é ideologicamente heterogênea. Nela há pessoas que defendem a entrada da Sérvia na União Europeia e outras mais próximas da Rússia.
Há representantes da esquerda e da direita, progressistas e conservadores. O que os une é o desejo de restaurar o Estado de Direito na Sérvia.
Muitos observadores estão convencidos de que apenas uma aliança que ultrapassasse divisões ideológicas poderia derrotar Vucic. Para o filósofo e comentarista político Ivan Milenkovic, o que os estudantes conquistaram com sua revolta de dois anos foi uma obra-prima política.
"Raramente surge na Sérvia algo que mereça ser estudado no mundo inteiro. Habilidade política e perseverança se combinam aqui com virtudes humanas muito simples, como honestidade e honra.
É isso que vem sustentando esses jovens o tempo todo", analisa. Mas Milenkovic alerta que o verdadeiro trabalho dos estudantes ainda está por começar.
"É preciso um certo grau de determinação. Porque conservar o poder é mais difícil do que conquistá-lo.
É preciso cortar todos os tentáculos do polvo, mas sem deixar de respeitar a lei. Somente a lei garante que a Sérvia tenha uma chance."A lista estudantil conseguirá permanecer unida? Entre os que celebravam a vitória eleitoral de domingo, essas preocupações ainda soavam distantes.No entanto, a Sérvia tem diante de si uma série de questões em aberto.
Por quanto tempo a lista estudantil conseguirá permanecer unida, reunindo correntes políticas tão diversas? E quanto ela conseguirá realizar até que eventuais divergências apareçam? Outras questões são a postura em relação à União Europeia, à Rússia e ao Kosovo, bem como sua capacidade de fazer avançar suas iniciativas a despeito do aparato de poder existente e do poder exercido pelo partido de Vucic a nível municipal.Ainda não é possível prever quem liderará o novo governo sérvio.
No entanto, um nome aparece com frequência: Dejan Soskic, ex-presidente do Banco Central e professor de Economia.O país também terá que eleger um novo presidente até o fim do ano. Depois do domingo, porém, uma coisa parece certa: ninguém duvida de que os estudantes também poderão ocupar esse posto.
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