Midterms: por que os EUA votam numa terça de novembro e quanto do Congresso está em jogo hoje

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

Por que as Midtermns nos EUA é em novembro, numa terça? A resposta está numa lei de 1845. Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.

Hoje, milhões de americanos votam num dia útil, em plena semana de trabalho. Quem vê de fora estranha: por que não um domingo, como no Brasil? A resposta está numa decisão tomada em 1845, para um país de fazendeiros a cavalo.

E o desenho que ela herdou, com uma Câmara que se refaz a cada dois anos e um Senado que nunca se renova de uma vez, explica por que cada eleição de meio de mandato mexe tanto no poder. Antes de 1845, cada estado escolhia seu dia de votar, dentro de uma janela de 34 dias antes de os delegados do Colégio Eleitoral se reunirem.

Isso permitia que o resultado de um estado influenciasse os outros. O Congresso fixou então um dia único: a terça-feira depois da primeira segunda-feira de novembro.

A lógica era agrícola e religiosa. Novembro vinha depois da colheita e antes do inverno.

O domingo era dia de culto e a quarta, dia de mercado, quando os agricultores vendiam a safra na cidade. A segunda servia para viajar até a sede do condado, e a terça, para votar.

A fórmula “depois da primeira segunda” tem um segundo motivo, muito citado: impedir que a eleição caia em 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, e também dia de fechar as contas do mês no comércio. Por isso a data nunca cai antes de 2 nem depois de 8 de novembro.

Em 1872, a mesma data foi estendida às eleições para a Câmara e o Senado, e os estados nunca mais mudaram. Hoje o problema é o inverso: terça é dia útil, e há anos se propõe torná-la feriado ou mudar a data.

Mas isso exigiria uma nova lei do Congresso. O desenho vem de 1787.

Os constituintes queriam uma Câmara próxima do eleitor, e por isso deram aos deputados mandatos de dois anos: quem vota com frequência cobra com frequência. Já para o Senado, houve debate.

Roger Sherman preferia quatro anos, e o compromisso foi de seis anos, por 7 votos a 4. James Madison, no Federalist nº 62, defendeu a duração longa como fator de estabilidade.

Para completar, os senadores foram divididos em três “classes”, e só um terço vai à urna a cada eleição. O primeiro grupo teria mandato de dois anos, o segundo de quatro e o terceiro de seis, e dali em diante todos de seis.

Assim o Senado é um corpo contínuo: dois terços dos senadores sempre continuam de uma eleição para a seguinte. A Câmara, ao contrário, pode ser inteiramente outra.

Até 1913, os senadores eram escolhidos pelas legislaturas estaduais, e a 17ª Emenda passou a exigir voto popular. Todas as 435 cadeiras da Câmara.

No Senado, 35 das 100: 33 da classe que vota em 2026 e duas eleições extraordinárias, as vagas deixadas por Marco Rubio na Flórida e por JD Vance em Ohio, que cumprem o resto de mandatos até janeiro de 2029. Somando, são 470 das 535 cadeiras do Congresso, ou 88%.

Há ainda 36 governos estaduais. É bem mais do que o Brasil acaba de renovar.

Aqui, a Câmara inteira (513 deputados) muda a cada quatro anos, e o Senado alterna: em 4 de outubro foram eleitos 54 senadores, dois terços das 81 cadeiras, com mandato de oito anos. Os próximos 27 serão em 2030 e os 54 seguintes, em 2034.

Um deputado americano precisa pedir voto de novo a cada dois anos, o que ajuda a explicar a campanha quase permanente em Washington. Ter todas as cadeiras em jogo não significa trocar todos os deputados.

Entre 2000 e 2016, a taxa de reeleição na Câmara fez com que 78% a 91% dos membros fossem reeleitos (dados de OpenSecrets e Brookings): um giro de apenas 9% a 22% por eleição. O pior ano para quem estava no cargo foi 2010, quando o partido de Obama perdeu 63 cadeiras.

A regra é a inércia, e é isso que torna as ondas, como 2010 e 2018, tão marcantes. Em 2026, a inércia está fraca.

Segundo a Ballotpedia, 68 parlamentares anunciaram que não disputarão a reeleição até março: 57 deputados (36 republicanos e 21 democratas) e 11 senadores. É o segundo maior número desde 1992, e o recorde de saídas republicanas, antes de 34 em 2018, foi batido.

Quase 13% das cadeiras da Câmara não têm um titular concorrendo. Há um contraponto: uma análise independente mostra que a maioria dos que saem vem de distritos seguros, e só uma minoria venceu por menos de 10 pontos em 2024.

Eleições de meio de mandato mobilizam menos: 49% dos eleitores aptos em 2018, o maior índice desde 1914, e 46% em 2022, contra cerca de dois terços na eleição presidencial de 2020. Este ano, mais de 48,5 milhões de americanos já votaram antecipadamente, um recorde para esse tipo de eleição.

Muita gente prefere votar antes justamente porque a terça é dia de trabalho. Os Estados Unidos votaram durante a Guerra Civil e durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje o país está em guerra com o Irã, e a data não se move: o mandato dos eleitos termina a 3 de janeiro, ao meio-dia, por determinação constitucional. Adiar uma eleição exigiria mudar a lei, e a lei é do Congresso, que é justamente quem está sendo votado.

Três números explicam o dia: 435 (todas as cadeiras da Câmara), 35 (do Senado) e 88% (do Congresso em disputa). O sistema foi desenhado para que o poder seja cobrado com frequência e, ao mesmo tempo, não seja trocado por inteiro de uma vez.

Hoje, esse equilíbrio vai ser testado.

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