O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), espécie invasora que ameaça ecossistemas aquáticos e estruturas utilizadas em atividades econômicas, já se espalhou pela Amazônia brasileira mais rapidamente do que previam modelos científicos anteriores. Um estudo publicado na revista Actapesca identificou o molusco em municípios banhados pelo rio Tocantins, além de registros no rio Pará e na ilha de Marajó, no Pará.
A expansão da espécie também foi identificada no rio São Francisco. Com fuzis e roupas táticas, grupo invade casa, executa brasileira e sequestra companheiro no Paraguai
Um estudo da Universidade de Montes Claros (Unimontes) publicado em outubro de 2026 na revista científica CheckList registrou 113 exemplares do mexilhão-dourado em São Francisco e São Romão, no Norte de Minas Gerais. A descoberta representa o primeiro registro da espécie no Alto Médio São Francisco e fica a cerca de mil quilômetros do ponto de ocorrência anterior mais próximo na bacia, na região da barragem de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco.
O levantamento foi realizado entre julho de 2024 e abril de 2025, com coletas em 16 estações distribuídas por quatro municípios mineiros. O primeiro registro da espécie na Amazônia ocorreu em outubro de 2023, no rio Tocantins.
Em cerca de dois anos, o molusco alcançou uma distribuição geográfica maior do que a esperada: previsões anteriores indicavam que a invasão na região não deveria começar antes da década de 2030 e se consolidar apenas na década de 2050. A expansão preocupa também pelos prejuízos econômicos que a espécie pode provocar.
Segundo reportagem da CNN Brasil, o mexilhão-dourado causa obstruções em estruturas submersas e gera gastos anuais de US$ 9,97 milhões ao setor elétrico brasileiro com prevenção e controle. Como o mexilhão-dourado chegou ao Brasil
Originário da Ásia, o molusco chegou à América do Sul em 1991, no estuário do rio da Prata, na Argentina. De acordo com a CNN Brasil, sua entrada no Brasil ocorreu no fim da década de 1990, associada à circulação de embarcações pela hidrovia Paraná-Paraguai.
A disseminação é favorecida pela produção de larvas que se deslocam pela água antes de se fixarem em superfícies e por estruturas chamadas bissos, que permitem ao animal aderir a materiais rígidos. A reportagem também aponta a água de lastro de navios cargueiros, o tráfego de embarcações e a expansão das hidrovias como fatores relacionados à dispersão.
Os pesquisadores consideram que o transporte involuntário em pequenas embarcações pode explicar a chegada do molusco a trechos distantes do São Francisco. Segundo o professor Maurício Lopes de Faria, da Unimontes, pequenas embarcações podem transportar o molusco entre áreas distantes e superar barreiras como a barragem de Sobradinho.
A hipótese, porém, ainda não foi comprovada. O estudo da Actapesca identificou o molusco em todos os municípios banhados pelo rio Tocantins considerados no levantamento, além de confirmar registros no rio Pará e na ilha de Marajó, incluindo os municípios de Curralinho e Muaná.
Os pesquisadores examinaram 62 pontos estratégicos durante quatro expedições realizadas entre 5 e 29 de dezembro de 2025. As colônias foram encontradas em superfícies naturais, como rochas, raízes e troncos, e em estruturas artificiais, como concreto, redes de pesca, cabos e eletrodomésticos descartados nos rios.
Prejuízos Em usinas hidrelétricas, o mexilhão-dourado pode obstruir tubulações, entupir sistemas de filtragem e comprometer mecanismos de resfriamento.
Segundo a CNN Brasil, a espécie também representa riscos para sistemas de abastecimento de água, aquicultura, pesca, navegação e biodiversidade aquática. Além disso, o mexilhão-dourado pode afetar a biodiversidade nativa e causar problemas em estruturas utilizadas pelas pessoas.
Sua capacidade de formar colônias densas permite que se fixe tanto em habitats naturais quanto em equipamentos e instalações submersas. Durante o levantamento na Amazônia, os pesquisadores observaram o gastrópode Vitta zebra vivendo e procurando alimento nas colônias do invasor.
Também encontraram, em menor quantidade nas proximidades dos aglomerados, outros moluscos bivalves dos gêneros Corbicula e a espécie Prisodon corrugatus. A erradicação completa é considerada improvável com os métodos disponíveis atualmente, de acordo com a CNN.
Entre as técnicas de controle citadas estão raspagem, filtração, ultrassom, radiação ultravioleta e uso de compostos químicos. A publicação não compara a eficácia nem os custos dessas alternativas.
Para prevenir a disseminação, estudiosos falam na desinfecção de embarcações e equipamentos de pesca antes de sua utilização em outros corpos d'água, além da exigência de laudos sanitários que atestem a ausência de larvas em cargas de peixes jovens utilizadas na piscicultura.
O Globo