2° turno das eleições no Ceará A menor abstenção em todo o país, a ocupação das ruas e dos espaços virtuais e a mobilização articulada por jovens lideranças políticas são fatores que ajudam a explicar a vitória expressiva de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Ceará no segundo turno das eleições, conforme fontes ouvidas pelo g1.
No estado, o presidente reeleito conseguiu 68,39% dos votos válidos, contra 31,07% de Flávio Bolsonaro. Lula teve vantagem numérica de votos em todos os municípios do Ceará, incluindo Morrinhos, que foi a única cidade em que Flávio havia vencido no 1º turno.
Ao todo, o Ceará teve 480.861 votos a mais para Lula em relação ao 1º turno. ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp
Especialistas ouvidos pelo g1 elencaram aspectos decisivos para estes resultados. Dentre eles, está a redução na abstenção.
Nos dois turnos, o Ceará teve os menores índices de pessoas que estavam aptas a votar e que não foram às urnas. Confira os índices de abstenção no Ceará nas eleições de 2026:
1º turno: 15,53% (1.085.522 eleitores) 2º turno: 13,89 % (971.678 eleitores)
Apoiadores celebram vitória de Lula no bairro Benfica, em Fortaleza Thiago Gadelha/SVM
O estado conseguiu diminuir um índice que já era abaixo da média nacional. Para o cientista político Emanuel Freitas, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o perfil decisivo para a reeleição de Lula foi o do eleitor que não foi às urnas no 1º turno e que resolveu votar neste domingo (25).
Para o Ceará, o governador Elmano de Freitas (PT) havia anunciado que as metas da campanha eram reduzir a abstenção e aumentar para 70% o percentual de votos em Lula no 2º turno. O comportamento nas urnas foi parecido com esta projeção, e um dos fatores para esta conquista foi um reflexo da eleição de Elmano como governador e de Cid Gomes (PSB) e Luizianne Lins (Rede) para o Senado, como aponta Emanuel Freitas.
Confira os percentuais de votos no Ceará em 2026: 1º turno: 3.555.263 votos para Lula (63,29%) e 1.756.850 para Flávio (31,27%)
2º turno: 4.036.124 votos para Lula (68,39%) e 1.819.478 para Flávio (31,07%) “O Lula foi mais votado no Ceará [no 1º turno], o governador do PT foi reeleito e os dois senadores também.
Então isso tem um peso simbólico muito forte, porque embora no Legislativo tenha tido um aumento em votação do André [Fernandes, do PL] e dos aliados, por exemplo, mas as disputas majoritárias foram vencidas pela base aliada. Então isso dá um peso muito grande em termos de campanha, em termos de mobilização”, afirma o pesquisador.
Ainda de acordo com o cientista político, outro personagem da política cearense, o senador Camilo Santana (PT), teve um protagonismo nacional ao participar da coordenação de campanha de Lula. Estes atores, que conseguem articular apoios em cidades do interior, foram elencados como importantes para mobilizar votos para o presidente no Ceará.
Movimentos nas ruas Presidente Lula é reeleito com quase 69% de votos no Ceará
Outro aspecto importante para o aumento de votos de Lula no Ceará, principalmente na região metropolitana de Fortaleza, foi a articulação de lideranças mais jovens, como aponta Paula Vieira, cientista política, socióloga e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia, da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Dentre os nomes destacados pela pesquisadora, aparecem os do deputado estadual eleito Léo Suricate, do deputado federal eleito Gabriel Biologia e da vereadora de Fortaleza Adriana Gerônimo, todos eles filiados ao PSOL. De acordo com Paula Vieira, estes jovens adultos têm um perfil de defender as pautas da esquerda de forma mais incisiva, mobilizando as emoções das pessoas nas redes sociais.
Na corrida para o 2º turno, estes nomes também levaram estas discussões para as ruas em grandes atos de campanha. “Eles conseguiram levar para muitos locais da cidade de Fortaleza esse movimento.
E eu acho que isso faz a diferença, isso chama a atenção dos jovens, faz com que a campanha seja vista, puxa aí uma leva de jovens que, participando, ouvindo, se sentiram mais instigados a participar do processo eleitoral”, analisa a pesquisadora. Entre o 1º e o 2º turno, Fortaleza contou também com a visita da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) em ato no bairro Parangaba.
Para a cientista política, esta presença também teve um impacto positivo entre os eleitores da capital, principalmente pelo protagonismo de Erika Hilton na aprovação do fim da escala 6x1, sendo esta uma pauta que mobiliza a classe trabalhadora. Conversa com os indecisos
Flávio Bolsonaro em ato de campanha em Fortaleza, no mês de setembro Thiago Gadelha/SVM
Ainda na análise de Paula Vieira, as duas campanhas buscaram alcançar pessoas que não tinham uma identificação imediata com a esquerda e a ala petista ou com o grupo bolsonarista. Desta forma, os dois lados buscaram convencer pessoas que tinham escolhido outros candidatos no 1º turno, além dos que votaram em branco e nulo e dos que não foram votar.
No campo de apoio a Flávio Bolsonaro, a capital também teve atos de rua com o ‘Bloquinho do 22’, liderado pelo deputado federal André Fernandes. Na semana anterior à votação, o candidato Flávio Bolsonaro também visitou Fortaleza para participar destes atos.
Para Emanuel Freitas, os atos de campanha por Flávio tiveram menos sucesso em ‘furar a bolha’ e falar com novos eleitores em potencial. “As duas vezes em que o Flávio veio a Fortaleza, tanto no 1º como no 2º turno, ficaram ali restritas ao Bloco do 22, que é um evento que reúne muita gente, pelo André, pelos deputados famosos, mas que acaba não sendo um momento de promessas, de proposições.
Acaba sendo um momento de festa e que acaba falando muito com uma bolha”, analisa o pesquisador. Ele apontou, também, que uma das dificuldades de adesão do eleitorado cearense à campanha de Flávio Bolsonaro aconteceu por uma falta de propostas e falas que dialogassem com as demandas da região Nordeste.
Neste ponto, Emanuel também recordou que um vídeo publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com eleitores do Nordeste reclamando do governo Lula acabou tendo uma reação negativa, mostrando que o apoiador de Flávio desconhece a região. Disputa nas redes sociais
A mudança no tom da campanha de Lula no Ceará também acompanhou uma tendência observada no Brasil, com o engajamento de estudantes e jovens, a ida da população idosa às ruas, das mobilizações das mulheres e de uma maior presença na comunicação digital. LEIA TAMBÉM:
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Segundo ele, este movimento foi o de pessoas idosas antes associadas aos discursos de direita nas redes sociais entrando no "Exército do Lula", do deputado federal André Janones (Rede-MG), que conseguiu encaixar a campanha do presidente na gramática digital. De acordo com Paula Vieira, uma dinâmica positiva para o campo progressista foi conseguir reconquistar o espaço das ruas e das redes sociais.
Segundo a pesquisadora, estes ambientes foram mais dominados por grupos de extrema-direita, desde as manifestações populares de 2013, com movimentos contra o sistema político. “A partir dali [2013], quem passou a ocupar as ruas não foi mais predominantemente a esquerda.
A esquerda mais reagia, ela não pautava as ruas. Em 2018, teve o ‘Ele Não’, então era uma reação à candidatura [de Jair Bolsonaro], e não uma participação propositiva nas ruas.
E a esquerda também não dominava as redes sociais”, pontua Paula. Ainda conforme a pesquisadora, o campo progressista conseguiu mobilizar apoiadores no 2º turno seguindo as orientações de Janones.
No Ceará, ela também cita a articulação de Gabriel Biologia e Léo Suricate como figuras que realizaram reuniões com eleitores e orientaram sobre estratégias de comunicação política no ambiente digital. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:
G1