A sensibilidade dos agentes financeiros a um cenário fiscal mais arriscado continuou pressionando os mercados locais na sessão de ontem. Isso e um ambiente externo menos favorável levaram a mais uma sessão de depreciação dos ativos, que só se afastaram dos piores níveis do dia por conta de notícias sobre a possível indicação do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), ao ministério da Fazenda.
No fim do pregão de ontem, o Ibovespa teve queda de 1,06%, aos 169.186 pontos, na quarta sessão seguida de desvalorização do principal índice acionário do país. Já o dólar à vista teve alta de 0,89%, terminando cotado a R$ 5,3874.
No mercado de juros, a taxa de Depósito interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2031 subiu de 15,07% do ajuste de quarta-feira para 15,155% do ajuste de ontem. Desde o começo da sessão, os ativos tiveram um comportamento negativo.
Um ambiente global menos favorável deu gatilho para a dinâmica, além da extensão do mau humor dos agentes com o horizonte fiscal no Brasil. A piora só atenuou com a notícia da CBN de que o presidente Lula deve viajar ao Piauí para convidar Fonteles para assumir o ministério da Fazenda no próximo mandato.
Ainda que haja incerteza sobre o nome, operadores do mercado que tiveram a chance de conversar com Fonteles antes das eleições elogiaram o governador. “Ele é inteligente e moderado, parece ser o melhor nome dentro do PT”, diz o chefe de tesouraria de um banco.
“A dúvida do mercado será se ele terá autonomia ou se será como o [ex-ministro da Fazenda Fernando] Haddad, que perdeu quase todas a bolas divididas”, acrescenta. O executivo diz que Fonteles até teria sido questionado à época se toparia uma posição em um possível governo Lula, no que ele teria respondido: “Quando vem de Lula não é um pedido, tem que ir”.
“Se vier um ministro como Geraldo Alckmin ou Rafael Fonteles, com números concretos para a economia, pode melhorar o mercado por uns dias”, diz o diretor de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt. “Mas não vejo consistência para uma melhora grande e prolongada, porque não imagino corte de gastos no radar deles”, afirma, acrescentando que no exterior o cenário também não é de bonança.
“Temos um problema agora de atrair capitais porque os EUA continuam crescendo. Eles têm uma demanda gigantesca por investimentos por conta das empresas de inteligência artificial”, afirma.
“A liquidez para investimento em países fora das economias centrais é menor. A nossa taxa de juros é atrativa? É, mas o dinheiro está menos disponível.”
Em live feita nesta quinta-feira para falar sobre os resultados da gestora, o sócio-fundador e gestor da Encore Asset Management, João Luiz Braga, comentou os nomes ventilados para assumir o Ministério da Fazenda. “Antes, o nome para acalmar o mercado era o [vice-presidente Geraldo] Alckmin, que eu acho que acalma mesmo porque sabe o que importa”, afirmou.
Para ele, Fonteles também seria boa opção. “Fonteles fez um bom trabalho fiscal no Piauí.
Sei que o Estado não tem um orçamento tão amarrado, mas, da turma que está no poder, acho que ele é um quadro bom”, disse. “Tanto ele quanto Geraldo Alckmin sabem o que tem de ser feito.
O problema é convencer o Lula.” O economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano, destacou que a questão fiscal é o ponto de maior fragilidade da economia brasileira no momento.
“A trajetória de crescimento da dívida está muito forte, e com um juro muito alto que coloca uma carga a mais no endividamento.” Para ele, um ajuste fiscal “um pouco mais crível e factível”, ainda que não seja o ideal aos olhos do mercado, já poderia ser suficiente para “evitar uma bomba por vir e contribuiria para reduzir prêmios nos juros e no câmbio”.
Isso, por sua vez, facilitaria a missão do Banco Central de seguir em seu processo de calibração da taxa Selic, que pode ser interrompido em breve dada a deterioração do ambiente de negócios desde o fim das eleições.
Valor