Maria Mariana revisita ‘Confissões de adolescente’ e prepara novo livro: ‘Entrando em contato com a menina que se descobriu escritora’

Maria Mariana revisita ‘Confissões de adolescente’ e prepara novo livro: ‘Entrando em contato com a menina que se descobriu escritora’ - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Maria Mariana tinha apenas 18 anos quando levou aos palcos uma história inspirada em seus diários íntimos. Fenômeno dos anos 1990, a peça "Confissões de adolescente" marcou uma geração ao jogar luz sobre os anseios de jovens que ainda se viam pouco representados na mídia, tratando de temas como sexo, aborto, crises de identidade e morte.

Depois de ganhar um livro best-seller, remontagens de sucesso, uma série de TV e um filme, a obra ganha uma versão inédita com "Confissões de adolescente — O musical", centrada numa história de mãe e filha desenvolvida pela autora. Com Flor Gil no papel principal e Laura de Oliveira, filha da criadora, no elenco, o espetáculo estreia nesta sexta (23) no teatro da EcoVilla Ri Happy, no Jardim Botânico.

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Elenco completo de "Confissões de adolescente — O musical", inspirado no sucesso de Maria Mariana Guito Moreto/Agência O Globo

Assim como a versão original, cujo livro acaba de ganhar nova edição, a nova história teve inspiração nas vivências da criadora. Mãe de quatro, Maria Mariana vinha elaborando há anos um argumento para uma nova versão de "Confissões".

— O “Confissões” foi muito espontâneo, quase do meu coração para o da plateia. Éramos quatro adolescentes que falavam para adolescentes, sem atravessamento do olhar adulto.

Como mãe, passei a olhar também para esse diálogo entre gerações — conta a autora. — A adolescência mudou muito com a tecnologia porque, em apenas 30 anos, é como se tivéssemos passado de uma sociedade que andava a cavalo para outra que usa carros elétricos.

"Confissões de adolescente": Carol Machado, Maria Mariana, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone, no elenco original, em 1993 Guilherme Rozenbaum/Agência O Globo

Aos 53 anos, Maria Mariana percebe que as transformações dessa fase da vida não são tão distantes das que experimentou na juventude. Ao revisitar a obra para a reedição do livro e a produção do musical, encontrou paralelos entre a adolescência e a menopausa, fase que atravessa atualmente.

— A menopausa é uma segunda adolescência. A mulher volta a ter que se descobrir, se reinventar, se posicionar diante do mundo.

A pergunta “quem sou eu?”, que acho que é central na adolescência, a gente volta a se fazer na menopausa — explica. O reencontro com a própria adolescência também reacendeu na artista o desejo de escrever, herdado do pai, o dramaturgo Domingos Oliveira (1936-2019), que dirigiu a primeira montagem de “Confissões de adolescente”.

Foi na máquina de escrever dele que Maria Mariana começou a registrar as experiências que dariam origem à peça. — Meu pai era muito carinhoso e criativo.

Ele me chamava para sair e dizia: “Filha, vamos sair para ver o que a vida oferece”. A vida sempre oferecia as mesmas coisas, mas só sair de casa com esse olhar já era tudo para despertar um olhar mais aberto.

Quando ele ia para o teatro, eu sentava na Olivetti dele e começava a escrever meu diário. Eram histórias comuns da minha adolescência, mas escritas por uma pessoa que tinha ambição de ser escritora, que amava muito o pai e que, de alguma forma, herdou dele essa veia artística — lembra.

Mais de três décadas depois, revisitar aqueles relatos permitiu à autora reencontrar a jovem que começava a descobrir a própria vocação literária. — “Confissões” foi o diário do nascimento de uma escritora.

Reviver essa trajetória está acendendo de novo em mim a escritora que sou. Já estou cheia de ideias para escrever, entrando em contato com aquela menina que se descobriu escritora — afirma.

Entre os novos projetos está um livro de autoficção inspirado em “Barco de papel”, monólogo autobiográfico que Maria Mariana apresentou em 2014. Na obra, ela revisitou a própria trajetória por meio da imagem de uma embarcação em alto-mar, carregada de papéis que representam suas memórias.

— Eu sinto que sou uma escritora que confessa. Quero trazer mais coisas da minha história de vida através dessa metáfora, porque só sei falar de mim, das coisas que vivo.

Como meu pai. Ele escreveu a autobiografia dele através das obras.

De cada fase da vida, fez um filme, uma peça. Era uma forma de viver, de olhar a vida, de se reinventar, de transformar traumas e lidar com dores através da arte — conta.

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