Para Tony Iommi, 2025 foi marcante, tanto pela última apresentação ao vivo do Black Sabbath, a banda pioneira de heavy metal que ele cofundou há quase 60 anos, quanto pela morte do icônico vocalista do grupo, Ozzy Osbourne. Depois de tudo isso, seria de se esperar que o guitarrista, de 78 anos, estivesse ansioso por um período de descanso.
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De jeito nenhum! Hoje, Iommi revela “From the dark”, seu primeiro álbum solo em mais de 20 anos, e uma fonte de invenções impactantes do homem cujos riffs impulsionaram “Iron Man”, “War Pigs” e “Paranoid”. — Não consigo me imaginar parando, a menos que fosse necessário — contou Iommi em uma entrevista em vídeo de sua casa na Inglaterra.
— Para mim, tocar é uma necessidade. É como comer.
Preciso fazer isso. Gosto de fazer isso.
Gosto de manter minha mente ativa, de ter ideias. Escrito em colaboração com o produtor de longa data de Iommi, Mike Exeter, e o cantor norueguês Jorn Lande, que assina vocais e letras, o novo LP apresenta uma variedade de atmosferas e ritmos, gravitando em torno do registro grave e lento que é a especialidade de Iommi.
—Eu simplesmente gosto da ideia de riffs marcantes — disse ele, exibindo seu característico cavanhaque e óculos com lentes roxas, enquanto falava em frente a uma série de guitarras, incluindo o modelo Gibson SG vermelho-cereja que toca desde o fim dos anos 60. Na metade de “Legacy”, a faixa que encerra o álbum, Lande canta o que parece ser uma declaração de princípios para todo o LP: “Este é o meu legado/ Eu trago fogo para vocês”, brada ele sobre um riff particularmente sombrio de Iommi.
“Não posso deixar meu destino se apagar ou expirar.” Em uma entrevista em vídeo de sua casa na Suécia, Lande explicou que pretendia que a música fosse, em parte, uma homenagem à “energia jovem e positiva” de Iommi:
— Ele não está se aposentando nem tentando fazer algo que combine com a idade dele. Ele ainda está dedicado e apaixonado por fazer o melhor disco da vida dele.
Tonny Iommi foi guitarrista da banda de heavy metal Black Sabbath desde o início até o fim do grupo Reprodução/Instagram
Iommi credita suas primeiras inspirações, incluindo os Shadows, grupo britânico de rock instrumental popular em sua juventude, e John Mayall and the Bluesbreakers, que contava com o jovem Eric Clapton, por terem lhe incutido o amor pelo riff. Mas o som que Iommi apresentou no álbum de estreia homônimo do Sabbath (1970) era muito mais imponente, intencionalmente concebido para inspirar terror à la filmes de terror exibidos à meia-noite, que Iommi e o baixista da banda, Terence Butler, conhecido como Geezer, gostavam de assistir.
— Gostamos da vibe que o filme transmitiria — disse Iommi. Meio assustadora, um pouco ousada.
Eles tiveram a ideia de “fazer algo que fosse como um filme em forma de música”. A visão se cristalizou na faixa de abertura homônima de “Black Sabbath”, um conto sonoramente horripilante sobre a visita de uma aparição semelhante à morte, cujo título — e posteriormente o nome da banda — foi retirado de um filme de antologia de terror de Mario Bava de 1963.
A influência das primeiras criações de Iommi é incalculável. Como disse o guitarrista Zakk Wylde, que tocou riffs de Iommi por décadas como membro da banda solo de Osbourne, em entrevista por telefone:
— Eu diria que ele é o Henry Ford do hard rock. Wylde estava entre os músicos presentes no último show do Sabbath, em julho de 2025, que também serviu como um encontro de grandes nomes do heavy metal e será lançado nos cinemas como um filme-concerto na próxima quarta-feira.
Ao descrever a lista de bandas, ele disse: — Do Tool ao Metallica, passando pelo Pantera, todas as bandas que participaram daquele show são um desdobramento do Modelo T.
Para Iommi, o fim do Sabbath foi gratificante, mas tenso. Marcou o reencontro da formação original da banda após a notável ausência do baterista Bill Ward no último álbum do grupo, em 2013, e a extensa turnê internacional que se seguiu.
Mas, desde o início dos ensaios, Iommi estava preocupado com a saúde de Osbourne, que sofria de diversos problemas nos últimos anos, incluindo a doença de Parkinson, e se apresentou sentado em um trono feito sob medida. — Eu sabia que ele tinha problemas, há muito tempo — recordou Iommi.
— Mas quando o vi entrar na sala, foi como se a vida tivesse sido sugada dele. Ele não parecia o mesmo.
E todos nós, Geezer e Bill, ficamos em choque. No palco, Iommi também se sentiu desorientado.
— Foi um show muito difícil, porque estava muito acostumado a ver Ozzy correndo por aí — disse Iommi. — Era quase como se eu estivesse sozinho, porque antes o Ozzy sempre vinha correndo e fazia uma careta para mim ou Geezer, brincando.
A gente dava umas risadas. E lá estávamos nós, fazendo um show com o Bill, com quem não tocávamos ao vivo há 20 anos, e Ozzy sentado num trono na frente do palco.
Foi uma sensação estranha, e foi triste. Iommi foi o único membro constante do Sabbath.
Durante anos após a separação inicial da banda de Ozzy Osbourne, em 1979, ele manteve o grupo unido em meio a inúmeras mudanças de formação. Ao longo da trajetória do Sabbath, ele lançou apenas três álbuns solo, todos feitos em estreita colaboração com outros vocalistas e letristas: “Iommi”, de 2000, contou com a participação de cantores jovens e proeminentes dos mundos do metal e do rock alternativo, e dois LPs com o ex-vocalista do Deep Purple, Glenn Hughes, que havia participado de um obscuro álbum do Sabbath em meados dos anos 80.
Desde que o Black Sabbath parou de fazer turnês em 2017, Iommi vinha acumulando riffs como de costume e ponderando a ideia de um novo projeto solo. Em 2021, lançou “Scent of dark”, o primeiro de dois novos instrumentais combinados com fragrâncias que ele ajudou a criar para uma empresa italiana de perfumes.
Ele e Exeter, que também adicionou teclados e orquestrações ao novo álbum, consideraram continuar nessa linha, mas, como Exeter explicou em uma entrevista em vídeo, “aí você se depara com uma música ou outra que precisa de vocais”. Lande, veterano de diversos projetos europeus de hard rock e metal, entrou na órbita de Iommi durante a fase de demos de “Fused”, o álbum de 2005 do guitarrista com Hughes.
Nenhuma dessas gravações de teste chegou a ser lançada, mas Iommi e sua equipe mantiveram o cantor em mente e, em 2010, convidaram Lande para ser o vocalista do Heaven & Hell em um tributo ao vivo a Dio, que havia morrido recentemente. Em 2024, o empresário de Iommi, Ralph Baker, pediu a Lande que escrevesse os vocais e a letra de duas novas músicas, ambas presentes no álbum, e que definiram a direção do projeto.
— Para qualquer cantor do meu gênero, e da minha geração também, este é provavelmente o trabalho mais importante que se pode conseguir — disse Lande. Sua abordagem intensa e dramática coloca o novo álbum na linhagem de Heaven & Hell.
Assim como Dio fazia, ele usa sua voz rouca e potente para trazer emoção à sonoridade impactante de Iommi em faixas de destaque do álbum, como “Black Times” e “Death Wake”. — Gosto de como ele canta — disse Iommi.
—Ele é apaixonado. Ele se entrega completamente.
Ele coloca vida na música. Liricamente, Lande optou por temas clássicos do metal, como luta e triunfo, misturando-os com comentários sobre o estado crítico do planeta.
— Eu acredito que se um cantor escreve suas próprias letras, ele consegue transmitir uma mensagem mais poderosa, como Dio fazia — disse Iommi. — Existem certas palavras que eles conseguem pronunciar que dão aquela força extra à música.
Ozzy Osbourne em último show em Birmingham, na Inglaterra Reprodução/Instagram
Completando o elenco do álbum estão a baixista Becky Baldwin, cujas versões on-line de músicas do Black Sabbath e outros clássicos do metal impressionaram Iommi e Baker, e Karl Brazil, baterista que faz turnê com o astro pop britânico Robbie Williams. Iommi apreciou a abordagem eclética de seu primeiro álbum solo, mas disse:
— Eu queria uma banda. Iommi ainda não tem certeza se a banda fará shows:
— O principal para mim era fazer o álbum e curtir o processo. Essa filosofia de viver um dia de cada vez vem na sequência do peso do fim do Black Sabbath, bem como do diagnóstico de linfoma em 2012 e do tratamento subsequente, que, segundo ele, deixou seu câncer em remissão.
Apesar da visão otimista de Iommi, o clima geral do projeto é o mesmo que ele vem explorando desde os primórdios do Black Sabbath. Então, o que o faz retornar à escuridão?
— Não sei bem. Talvez eu seja sombrio — disse Iommi, soltando uma risada irônica, desmentindo rapidamente sua teoria.
O Globo