Os resultados da disputa eleitoral deste ano contrariaram expectativas fixadas sobre o desempenho de candidatos tanto nos estados quanto no âmbito nacional. Ao final do pleito, chegam desgastados antigas máximas que orientaram as campanhas, que vão desde o peso da máquina pública até o cansaço da polarização e a viabilidade de uma terceira via.
Também foram colocadas à prova constatações sobre o impacto das emendas parlamentares na reeleição de incumbentes, o poder do tempo de TV e o uso da inteligência artificial para a produção em massa de notícias falsas com capacidade de mudar os rumos da eleição. Aprovação do governo, medo dos Bolsonaro, rejeição: Os sinais da Quaest que mantêm a esperança de virada entre lulistas
Último ato do 2º turno: Flávio Bolsonaro encerra campanha no Rio, e Lula retorna à Avenida Paulista Confira a seguir os principais mitos em xeque.
Apoios políticos definindo vencedores e perdedores Antes consideradas decisivas para o bom desempenho das campanhas, as coligações não foram determinantes neste ano para vitórias em disputas estaduais em alguns dos principais colégios eleitorais do país.
No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) costurou uma rede extensa de apoios partidários atraindo políticos e siglas que originalmente haviam fechado acordos com seus adversários. Apesar disso, ele saiu derrotado pelo presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), que concorreu em uma chapa restrita ao Avante e aos nanicos Mobiliza e Agir.
Mesmo na Baixada, onde Paes foi avalizado por 10 dos 13 prefeitos, ele não venceu. Ruas foi endossado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que também enfrentou dificuldades para fechar alianças, disputando a Presidência isolado em sua sigla, o PL, no primeiro turno.
Após terminar a votação na frente do presidente Lula (PT), o parlamentar ganhou apoio de Republicanos e Progressistas, que apoiaram Jair Bolsonaro (PL) em 2022, além do União Brasil. O isolamento também se repetiu em Minas, onde o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) concorreu ao governo apenas com o apoio do Podemos e venceu a disputa com ampla vantagem em relação a oponentes que acumulavam coligações mais amplas.
O parlamentar apostou em uma campanha “personalista”, criada a partir de um discurso antissistema, explica Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele também considera que Flávio cresceu ao investir na construção de uma identidade própria que conversou com os eleitores de direita, herdados do pai, e conseguiu transferir sua influência para aliados como Ruas:
— As alianças foram necessárias, mas não suficientes, e pesaram menos do que as identidades políticas, nesse caso, o lulopetismo e o bolsonarismo. As coligações dão tempo de TV e estrutura partidária, mas não têm a capacidade essencial de transferir voto que a gente imagina.
Emendas parlamentares e a garantia de mais votos Em volume recorde no orçamento aprovado para este ano — de R$ 61 bilhões —, as emendas parlamentares não refletiram um aumento expressivo de votos para os autores dos repasses, numa comparação à eleição de 2022, segundo um estudo produzido pela FGV.
Este ano, com base em recursos enviados entre 2024 e 2026, eles tiveram uma média de 6,7% dos votos em seus redutos eleitorais. Na eleição anterior, quando os aportes ainda não tinha chegado nesses locais, a votação média alcançada foi de 5,9%, uma diferença de 0,8%.
Nos lugares não favorecidos pelas emendas, a média de votação foi de 1% em ambas as eleições. Professor do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepespe) da FGV e um dos autores do estudo, George Avelino explica que as emendas servem menos como uma ferramenta de obtenção de votos e mais como uma estratégia para a preservação de apoios locais, ligados a acordos com as prefeituras:
— A emenda é paga para manter apoios e votos. Isso se dá, por exemplo, numa disputa entre um desafiante e um incumbente, que já se provou nas urnas antes e que tem a confiança do partido.
Assim, ele se torna poderoso do ponto de vista eleitoral e tem mais chances de ganhar a eleição, mas não tem a vitória como algo garantido. Pastor manda; fiel obedece
Candidatos apoiados pelas principais igrejas evangélicas do país acumularam derrotas em disputas por vagas na Câmara dos Deputados. A Universal viu metade de seus 12 deputados que tentaram a reeleição fracassar e assistiu parte de seus representantes, como o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira (SP), reelegerem-se com votações inferiores às obtidas em 2022.
A Assembleia de Deus também não conseguiu reeleger seus principais nomes, como Otoni de Paula (PSD-RJ), ligado ao bispo Abner Ferreira do Rio, e Cezinha de Madureira (PL-SP), associado ao bispo Samuel Ferreira em São Paulo e ex-presidente da bancada evangélica. Além deles, Gilberto Nascimento (Podemos-SP) e Antônia Lúcia (MDB-AC), também ligados a Madureira, perderam a reeleição, assim como Silas Câmara (Republicanos-AM), da Assembleia de Deus de Belém.
Por outro lado, houve o avanço na Câmara de postulantes bolsonaristas que se identificam com a fé cristã e se descrevem como conservadores, mas não têm vinculação fixa com igrejas ou denominações. Entre os mais votados para a Casa, estiveram nomes como os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), ambos evangélicos, mas conhecidos pela forte atuação nas redes sociais.
A máquina e a reeleição de governadores Nos estados, cinco governadores perderam no primeiro turno, mesmo com o controle do orçamento e da estrutura do Estado.
Entre eles, estão Mateus Simões (PSD) em Minas e Hana Ghassan (MDB) no Pará. Eleitos como vice em suas respectivas chapas há quatro anos, eles assumiram a gestão em abril após as renúncias de seus antecessores: o mineiro Romeu Zema (Novo) deixou o cargo para concorrer ao Planalto; e o paraense Helder Barbalho (MDB) se desincompatibilizou para concorrer ao Senado.
Outro derrotado foi Clécio Luís (União), governador do Amapá desde 2022 e aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União). Além deles, perderam a eleição Roberto Cidade (União) no Amazonas e Soldado Sampaio (Republicanos) em Roraima.
Os dois assumiram o Executivo no primeiro semestre por serem presidentes das Assembleias Legislativas. Já governadores como Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul, que decidiram permanecer no cargo até o final do mandato, também não conseguiram eleger seus sucessores, Sandro Alex (PSD) e Gabriel Souza (MDB), derrotados por nomes do PL.
— Ainda há um índice de incumbentes reeleitos alto (11 de 19) e sabemos que a máquina pública ajuda, mas ela não substitui o capital político. Em um ambiente de eleições anti-establishment, quem encarna a mudança acaba vencendo quem tem a caneta — diz Rodrigo Pandro.
Corrupção como problema Mesmo voltando a figurar nas pesquisas entre as principais preocupações dos brasileiros, os escândalos políticos e de corrupção nos campos da direita e da esquerda não afastaram a maioria do eleitorado.
De um lado, ainda na pré-campanha, Flávio teve expostos os áudios enviados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, nos quais ele pediu dinheiro para o financiamento do filme “Dark horse”, inspirado em Jair Bolsonaro. Também voltaram a circular denúncias de envolvimento do senador no esquema de “rachadinha”, arquivadas em 2022 após decisões do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça anularem as provas.
Já o presidente Lula viu o filho Fábio Luís, conhecido como Lulinha, ser investigado pela Polícia Federal (PF) por tráfico de influência pela proximidade com a lobista Roberta Luchsinger. A empresária também se tornou alvo de inquéritos pela ligação com Antônio Carlos Antunes, o Careca do INSS, e com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente.
Ouvidos pela Quaest, 65% dos eleitores consideraram em setembro consideraram que as investigações sobre o filho do petista prejudicavam a campanha de reeleição de Lula, e 64% disseram há impacto do caso “Dark horse” na postulação de Flávio. Mesmo assim, os dois candidatos se mantiveram como favoritos e chegaram ao segundo turno.
Tempo de TV muda tudo Na disputa presidencial, campanhas como a do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e do escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) tinham a expectativa de que, com o início da propaganda eleitoral gratuita na TV e no rádio, eles se tornariam mais competitivos em uma disputa contra os postulantes do PT e do PL.
Atrás de Lula e Flávio, que tiveram 5 e 4 minutos, respectivamente, o goiano acumulou o terceiro maior tempo (2 minutos) e Cury teve 35 segundos. Já o ex-governador Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não participaram do horário eleitoral porque seus partidos não atingiram a cláusula de barreira na última eleição.
Todos terminaram o pleito, no entanto, distantes dos dois principais candidatos: Cury teve 2,89% dos votos válidos, Renan registrou 2,24%, Caiado obteve 2,18% e Zema teve 0,27%. Cansaço da polarização
Até as vésperas do segundo turno, segundo dados da pesquisa Quaest, 27% de brasileiros se diziam independentes, acima dos 20% que se descreveram como lulistas e dos 15% como bolsonaristas. Apesar disso, a eleição será mais uma vez decidida pela disputa entre petismo e bolsonarismo, repetindo a disputa entre os mesmos campos políticos que lideraram desde 2018.
O cientista político e professor do Insper Carlos Melo, no entano, considera que a movimentação dos eleitores tem sido mais orientada pela rejeição dos candidatos e menos pela preferência entre um deles: — Os eleitores convergem para estarem do lado daquele que seja capaz de derrotar quem eles acham que é pior e votam contra, não a favor.
Desde 2018, as duas perguntas que têm orientado o voto são “quem é capaz de derrotar o Bolsonaro?” e “quem é capaz de derrotar Lula?”. Governantes e a melhora da avaliação no final do mandato
Lula tem divergido da tendência de aumento da aprovação da gestão durante o ano final do mandato. A título de comparação, o ex-presidente Bolsonaro chegou na véspera do segundo turno em 2022 aprovado por 44% dos brasileiros, distante dos 27% registrados por ele um ano antes, segundo dados da pesquisa Ipec.
Já Lula, de acordo com o levantamento, passou a campanha com os mesmos 42% registrados em dezembro de 2021. Pressionado pelo desempenho de Flávio no primeiro turno, a campanha do petista passou a apostar em anúncios como o Desenrola 3.0, o reajuste do Bolsa Família, o pacote de medidas voltadas aos MEIs, a desoneração dos combustíveis e o fim da escala 6x1, aprovado no Congresso.
O alcance das medidas, no entanto, tende a ser limitado na reta final, considera Rodrigo Pandro. — Esses anúncios têm tido resultados discretos para Lula, mas resta saber se haverá tempo para uma virada dele contra Flávio em um momento em que os votos já estão cristabilizados para a maior parte da população.
Também vale lembrar que, em 2022, o Auxílio Brasil turbinado pelo Bolsonaro não garantiu que ele conseguisse virar votos para vencer — pontua o especialista. — Numa eleição de diferença pequena entre os candidatos, o eleitor tende a se decidir mais pela mobilização do que pela conversão.
Profusão do uso de IA para produção de fake news Mesmo em meio aos avanços dos modelos de inteligência artificial e aos alertas sobre o uso deles para a circulação massiva de informações falsas pelas campanhas, esses mecanismos foram usados de forma mais frequente como estratégia para os eleitores “demarcarem” suas orientações políticas nas redes sociais.
O diagnóstico é feito pelo pesquisador Matheus Soares, coordenador da ferramenta Observatório IA nas Eleições. Entre os usos, por exemplo, houve a mobilização de parte dos eleitores lulistas para a criação de imagens geradas por ferramentas de IA para a participação de um “desafio” proposto no canal de WhatsApp “Exército do Lula” na reta final da campanha, voltado para a publicação de fotos com a camisa do Brasil e com o símbolo do “L”.
— Observamos muitos conteúdos sintéticos produzidos pelos próprios eleitores, principalmente após o primeiro turno, para o reforço ao apoio aos candidatos não necessariamente com o intuito desinformativo, e sim para indicar seus posicionamentos políticos — diz Soares. Terceira via viável
O fenômeno do “voto contra” também explica a dificuldade da terceira via em decolar neste ano, pontua Carlos Melo. Lançados como alternativas, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos não conseguiram convencer eleitores que fugiam da esquerda e da direita.
Juntos, eles tiveram o pior desempenho de uma terceira via desde a redemocratização, somando 7,58% dos votos válidos registrados no primeiro turno, distantes do desempenho obtido pelo mesmo segmento no passado, que já chegou a superar os 10%. Para além do desafio de enfrentar dois candidatos com bases consolidadas, comum a outras disputas, a inclinação do grupo para a direita também lhes impôs um desafio adicional neste ano, explica o especialista.
— Eles queriam provar que eram melhores que o Flávio e que poderiam ocupar o lugar dele no bolsonarismo, mas pouco fizeram por merecer para se distanciarem dele. Assim como Flávio, defenderam a anistia aos envolvidos no 8/1 e, na segurança pública, eram até mais radicais porque falavam sobre o modelo El Salvador (questionado por ferir direitos humanos).
Era uma espécie de radicalização da segunda via e não uma terceira via que pudesse atender à demanda da população por um candidato de fora da polarização.
O Globo