Após peso inédito na campanha, política externa colocará o novo presidente entre o pragmatismo e a afinidade ideológica

Após peso inédito na campanha, política externa colocará o novo presidente entre o pragmatismo e a afinidade ideológica - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

De forma inédita, a política externa virou tema central na disputa presidencial no Brasil. Dentre as razões, destacam-se os tarifaços de Donald Trump a partir de 2025 e interferências de Washington em favor de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa contra Lula (PT).

Quaest: Medo de volta da família Bolsonaro ao poder chega a 45%; temor de reeleição de Lula é de 42% Aprovação do governo, medo dos Bolsonaro, rejeição: Os sinais da Quaest que mantêm a esperança de virada entre lulistas

Governistas denunciaram a articulação do bolsonarismo nos EUA por penalidades contra o país tanto para fragilizar Lula quanto para assegurar a pressão americana pela anistia a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tramar um golpe após a derrota em 2022. A campanha do PT também defendeu as negociações técnicas conduzidas pelo Planalto com a Casa Branca e a impossibilidade de se aceitar as condições de Washington sem ferir a soberania do país.

Alinhamento aos EUA No mês passado, reportagem do jornal O Estado de S.

Paulo revelou a íntegra das exigências de Trump nas negociações do primeiro tarifaço. Constam na lista o fim de tarifas sobre o etanol e bens industriais americanos exportados para o Brasil, a limitação de investimentos estrangeiros de outros países no setor de mineração e salvaguardas para big techs.

Uma nova rodada de discussões está marcada para novembro, e a expectativa para um novo mandato de Lula é a continuação das linhas mestras da atual política externa de Brasília, que bate de frente com Washington. Entre elas, a defesa do Direito Internacional e do multilateralismo, a reforma no Conselho de Segurança da ONU e a oposição à Estratégia de Segurança Nacional anunciada pela Casa Branca no fim do ano passado, que considera a América Latina área de influência dos EUA, em recado direto à China.

A campanha de Lula celebrou a abertura de 700 novos mercados internacionais desde 2023 para o agronegócio e a alta, mesmo com os tarifaços, de 10,4% das exportações brasileiras neste ano, até setembro, em relação ao mesmo período de 2025. O governo também bateu bumbo para o crescimento de 30,7%, no mesmo comparativo, dos embarques para países europeus, já impulsionadas pelo Acordo Mercosul-União Europeia.

Internamente, um eventual quarto mandato de Lula terá de ser especialmente habilidoso nas relações com os vizinhos na América Latina, em sua quase totalidade na órbita dos EUA. A campanha de Flávio, por sua vez, acenou com o alinhamento imediato à potência comandada, ao menos até janeiro de 2029, por um parceiro ideológico.

Ao GLOBO, a cientista política Julia Thomson, analista no Brasil da consultoria americana Eurasia Group, referência na avaliação de risco geopolítico para o mercado, disse que gestos concretos de aproximação podem gerar benefícios, mas ponderou que há “expectativas exageradas” da direita sobre uma relação carnal com Washington.

A entrada do Brasil no Escudo das Américas — coalizão idealizada por Trump para o combate conjunto, armado e além-fronteiras ao narcotráfico na América Latina — com a classificação de facções armadas como grupos terroristas e as concessões ao etanol e ao setor automobilístico americano podem retirar as sobretaxas de 25% impostas a produtos brasileiros nos EUA neste ano por supostas práticas desleais, afirmou Thomson.

Ela apontou o interesse de Washington em vantagens na exploração de terras-raras, mas é cética sobre investimentos significativos dos EUA no Brasil. Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior e ex-embaixador do Brasil no Reino Unido e nos EUA, destacou três “ineditismos notáveis” neste ciclo eleitoral:

— Pela primeira vez na história das eleições presidenciais no Brasil a política externa esteve, ainda que de forma rasa, no centro do debate eleitoral. Ela terá de fato um enorme impacto político, social e econômico em um quarto governo Lula ou com um segundo Bolsonaro no poder.

E jamais um candidato ofereceu a um governo estrangeiro, como Flávio o fez a Washington, participação direta em processo de transição se vencer. Ainda assim, o plano de governo de Flávio tem apenas quatro das 76 páginas dedicadas às relações internacionais.

São oito tópicos que passam por comércio exterior, transição energética, defesa e soberania. Cita como linha mestra o compromisso de retomar princípios da gestão de seu pai.

Influência de Eduardo Entre 2019 e 2021, o Itamaraty foi comandado pelo diplomata Ernesto Araújo, admirador de Olavo de Carvalho (ideólogo do bolsonarismo morto em 2022), que pautou sua gestão por valores conservadores, em linha com o primeiro governo Trump.

Enfrentou renhida resistência do corpo diplomático e foi substituído por Carlos França, percebido como mais conciliador. Agora, a ala ideológica interessada em ditar a política externa em um eventual governo Flávio é encabeçada pelo irmão do candidato, Eduardo Bolsonaro.

O deputado cassado que vive nos EUA foi condenado a quatro anos e dois meses de reclusão por tentar interferir no julgamento da trama golpista no Supremo. Com boa entrada no Departamento de Estado dos EUA, articulou para os americanos aplicarem sanções ao inistro Alexandre de Moraes, do STF, e outras autoridades brasileiras.

Também fez lobby pelos tarifaços contra o Brasil. Mesmo com a afirmação de Flávio, na sabatina da TV Globo, de que Eduardo não será seu chanceler, há receio entre diplomatas, brasileiros e estrangeiros servindo em Brasília, especialmente europeus e chineses, da influência do ex-deputado no Itamaraty em um eventual governo do irmão.

Postagens em suas redes prometem perseguição a nomes próximos de Celso Amorim, assessor especial de Lula, e do atual ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Em vídeo publicado em setembro, Eduardo anunciou que, em caso de vitória de seu irmão, faria uma “faxina” no Itamaraty e iniciaria uma reforma na instituição, inspirada na tocada pelo secretário Marco Rubio nos EUA.

Desde que assumiu o comando da diplomacia americana, 1,5 mil funcionários foram demitidos, entre eles quase três centenas de diplomatas. Com pouco mais de dois anos para Trump deixar a Casa Branca, legalmente impossibilitado de disputar um terceiro mandato e com desaprovação recorde de 65% na média das pesquisas, mais da metade dos postos diplomáticos, inclusive no Brasil, segue sem embaixador.

Europa e América Latina Um alinhamento aos EUA é visto com preocupação nos bastidores por diplomatas europeus pelo risco de perda de um aliado de peso contra o unilateralismo do Trump 2.0 no momento em que um cinturão de países comandados pela direita se forma na América Latina.

Só México, Uruguai e Guatemala não são parceiros ideológicos do trumpismo. E a Venezuela, sintetizada ao GLOBO como “a maior derrota da política externa do governo Lula” pelo cientista político Steven Levistky, virou um estado-fantoche dos EUA.

Na segunda-feira, em campanha no Pará, Flávio prometeu acabar com “entraves ambientais” a produtores rurais na Amazônia, o que aumentou o temor de retrocessos que poderiam atravancar a implantação definitiva do acordo UE-Mercosul, prejudicando o agro e a economia do país. Uma vitória de Flávio também agravaria o enfraquecimento do Mercosul, criticado tanto pelo presidenciável do PL quanto por Javier Milei, presidente da Argentina, segunda maior economia do bloco.

Maior parceira comercial do Brasil, a China observa a eleição com cautela. Teme especialmente trocar a boa relação com Lula pela repetição dos ruídos que teve com Jair Bolsonaro num cenário de adesão mais explícita aos americanos.

Ao GLOBO, a campanha de Flávio informou que defende uma relação pragmática com todos os países, “da China à União Europeia; dos EUA aos mercados asiáticos”, com a diplomacia orientada “de acordo com o interesse do produtor e do trabalhador, e não por simpatia ou antipatia por este ou aquele governo”.

No comércio exterior, o candidato quer priorizar “ganhos mútuos, sem tratar nenhum parceiro comercial como adversário”. A equipe de Lula não respondeu perguntas enviadas.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →