Um herdeiro de clã em constante provação: Flávio Bolsonaro supera desconfiança sob o desafio de aplacar divisões

Um herdeiro de clã em constante provação: Flávio Bolsonaro supera desconfiança sob o desafio de aplacar divisões - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Foi em um almoço no restaurante A Bela Sintra, um dos mais tradicionais de São Paulo, no coração dos Jardins, que Flávio Bolsonaro escreveu a postagem para confirmar sua candidatura à Presidência da República, no dia 5 de dezembro do ano passado. “É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação.” O texto foi feito a quatro mãos, com o amigo e conselheiro número um de Flávio na ocasião, o publicitário Marcello Lopes, conhecido como Marcellão.

Cerca de duas horas antes da publicação, o próprio Flávio havia passado a informação para o site Metrópoles de que o pai o havia escolhido. A reportagem foi publicada em off, sem indicar o senador como a fonte da informação.

Na ocasião, o ex-presidente estava preso na Superintendência da Polícia Federal de Brasília, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Antes de colocar a notícia na praça, Flávio foi até o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comunicar a decisão em um café da manhã no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Tarcísio deu os parabéns, se colocou à disposição de Flávio e se resguardou no discurso de que seu foco era continuar em São Paulo trabalhando pela reeleição. A conversa colocava um ponto final nas expectativas do mercado financeiro, de partidos do Centrão e do próprio governador de ser ungido por Jair Bolsonaro para ser seu sucessor na disputa pela Presidência.

Antes de bater o martelo pelo nome de Flávio, Bolsonaro sondou diretamente Tarcísio, em agosto do ano passado. Na época, o primogênito de Jair deixava claro que seu plano era ter uma reeleição tranquila para o Senado no Rio de Janeiro.

O plano A de Jair, o então deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), se inviabilizava cada vez mais, depois de mudar para os Estados Unidos. Com o ex-apresentador da Jovem Pan Paulo Figueiredo, Eduardo passou a articular junto à gestão Donald Trump retaliações a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em especial Alexandre de Moraes, e ao governo brasileiro, para tentar reverter a inelegibilidade do pai.

As ações culminaram num tarifaço imposto ao país. Diante desse cenário, Tarcísio se tornou a opção que restava e que tinha o apoio dos aliados do ex-presidente.

Mas o governador, apesar de desejar o posto, não mostrou a disposição que Bolsonaro buscava. Na conversa com o ex-presidente, pontuou o favoritismo de Lula, falou da importância de não perder São Paulo e tentou empurrar a decisão para o início de 2026.

—Tarcísio só não foi o candidato porque teve medo — disse uma liderança do Centrão que acompanhou as negociações. Em paralelo, o governador se tornou alvo da artilharia pública de Eduardo.

O ex-deputado deixava claro que se lançaria candidato se Tarcísio concorresse para presidente, mesmo que tivesse o apoio do pai. Além disso, Eduardo estava convicto de que se desenhava uma chapa com a madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, no posto de vice.

Para ele, nenhum dos dois representava o clã e isso foi dito em uma carta escrita por Eduardo ao pai quando ele ainda estava em prisão domiciliar — o ex-deputado foi enfático de que só abriria mão de concorrer se o irmão o fizesse. A escolha do senador foi sacramentada numa viagem que ele fez a Washington.

Na ocasião, Flávio ainda mostrava resistência em abraçar a ideia e disse que sua vida viraria um inferno. Eduardo e Paulo Figueiredo insistiam que o senador seria a única opção.

Flávio topou, mas queria segurar o quanto fosse possível a informação para não virar vidraça. O anúncio público da candidatura ocorreu cerca de dois meses depois desse encontro nos EUA e teve empurrão de Eduardo e Figueiredo.

Após uma conversa telefônica entre Lula e Trump, em 2 de dezembro do ano passado, os dois foram avisados por integrantes do governo americano que Moraes seria retirado da lista de sancionados da Lei Magnitsky. Para evitar que a notícia desanimasse a tropa bolsonarista, veio o movimento para que Flávio fosse anunciado candidato à Presidência, o que ocorreu três dias após a reunião de Lula com Trump e uma semana antes de Moraes sair oficialmente da lista.

— Flávio foi empurrado do armário o tempo todo — contou um aliado do senador envolvido na escolha de seu nome. Foram poucos os que participaram da articulação.

O principal coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN), estava convicto de que Tarcísio seria o candidato de Bolsonaro. Ele só tomou conhecimento da escolha de Flávio pelo Metrópoles.

O mesmo ocorreu com Michelle, que não foi comunicada pelo marido que o filho mais velho o representaria nas urnas. Dez meses depois desse anúncio, o candidato do PL chega à eleição como favorito, depois de uma vitória no primeiro turno por menos de dois pontos percentuais contra Lula.

No Datafolha de ontem, o candidato do PL apareceu com 51% das intenções de voto válido, contra 49% do presidente. Flávio tem prometido um governo mais ao centro, com composição mais ampla e menos embate entre os Poderes do que o do pai.

Faltou combinar com os irmãos. Na reta final da campanha, Eduardo e o senador eleito por Santa Catarina Carlos Bolsonaro (PL) publicaram indiretas dirigidas aos dois maiores cabos eleitorais de Flávio no segundo turno, Tarcísio e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

A aliados próximos, Eduardo admite que precisará puxar o governo do irmão para a direita e celebra o recorde de conservadores eleitos na Câmara e no Senado. Um dos pontos que o ex-deputado não está disposto a abrir mão é o processo de impeachment de Moraes.

Flávio criticou publicamente a omissão do Senado atual sobre a abertura do processo contra o ministro, mas seus aliados se dividem sobre qual estratégia adotar se ele vestir a faixa presidencial. Uma ala que inclui interlocutores junto ao Judiciário defende que, antes de partir para o impeachment, seja feita uma tentativa de diálogo com Moraes.

Outro grupo que tem entre seus membros Rogério Marinho, hoje homem forte de Flávio e principal articulador de sua campanha, avalia que não há como abrir mão do impeachment do ministro. Marinho foi o representante de Flávio escalado para conversar com os ministros da Corte na campanha.

Nas reuniões, deu três recados centrais. Disse que, se Flávio for eleito, não haverá revanchismo com o STF, garantiu que não acontecerão mudanças estruturais, como aumento do número de ministros, mas destacou que o Senado não será omisso sobre suas responsabilidades.

O último ponto é uma referência ao impeachment de Moraes, que não foi tema direto das conversas. O esvaziamento de poderes do Supremo é um eixo central de uma possível gestão Flávio.

O seu plano de governo tem como proposta retirar do STF a competência para julgar matérias penais. A ideia é que esses casos sejam analisados pelos Tribunais Regionais Federais ou pelo Superior Tribunal de Justiça.

Se prosperar, a medida resolve duas questões centrais para Flávio. Diminui a influência da Corte sobre parlamentares investigados e faz com que os inquéritos sobre desvios de emendas saiam das mãos do ministro Flávio Dino, outro que o clã Bolsonaro declara inimigo.

Enquanto o projeto não se tornar realidade, Flávio e seus auxiliares criaram uma linha de corte para tentar blindar um eventual governo da influência do tribunal. O plano é que nomes pendurados em processos no STF não ocupem cargos de primeiro escalão do governo, como ministérios.

O mesmo deve se estender para postos no Congresso. Esse tem sido o argumento usado por Flávio e Marinho para descartar o apoio à reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-RN) à presidência do Senado e da Câmara, respectivamente.

Ambos respondem a inquéritos que tramitam no STF. O próprio Flávio, no entanto, também é alvo de investigações da Polícia Federal que estão no Supremo.

Uma delas é referente ao pedido de R$ 134 milhões a ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark horse”, inspirado na biografia do pai — R$ 61 milhões foram pagos pelo dono do banco Master. A investigação mais recente incluindo o candidato do PL apura suspeitas de lavagem de dinheiro na relação entre o senador e seu amigo, o advogado Willer Tomaz.

Todos esses inquéritos podem ser suspensos se Flávio for eleito presidente, a depender do entendimento do próprio Supremo. Nas conversas com lideranças do Centrão, o senador tem sido aconselhado a buscar a pacificação para avançar com suas propostas num eventual governo, especialmente nas questões econômicas e fiscais.

Essas lideranças destacam que, se Flávio tiver o Supremo contra, sua vida será ainda mais difícil, pois várias pautas serão judicializadas. Por isso, aconselharam o senador a pacificar a relação e deixar em banho maria até o impeachment de Moraes.

Flávio ouviu e permaneceu em silêncio. Na reta final da campanha, o candidato do PL tem evitado o clima de já ganhou e rechaça conversas sobre nomes que integrarão seu possível governo.

O núcleo duro da campanha, porém, dá como certo a coordenadora da área econômica de Flávio, Daniella Marques, no comando de um ministério da área social. Rogério Marinho ocuparia a presidência do Senado, como almeja, mas não está descartado que Flávio peça para ele ocupar uma pasta-chave no Palácio.

O senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP) é o favorito para a pasta da Segurança Pública, que pode ser desmembrada da Justiça. Flávio rechaçou publicamente a chance de o irmão Eduardo ser o ministro das Relações Exteriores, mas a cúpula da campanha avalia que ele teria uma cadeira de destaque na área internacional, como o posto de embaixador dos EUA.

O único nome confirmado até o momento por Flávio foi o médico Cláudio Lottemberg, para a pasta da Saúde. Ele foi presidente do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Sobre Jair Bolsonaro, o foco é tirá-lo da prisão. No PL, o roteiro traçado como ideal é que Flávio até o convide para ter um assento no governo, mas que o capitão reformado abra mão disso e seja uma espécie de conselheiro de honra.

A opção de o senador ser derrotado por Lula não é colocada publicamente, mas seu futuro nesse cenário já foi traçado. Se o petista seguir como chefe do Executivo, Jair continuará preso e Eduardo foragido nos EUA, fazendo com que Flávio permaneça como o principal expoente da família.

Com mais conhecimento e uma campanha para a Presidência nas costas, o senador será ratificado herdeiro direto do tão disputado espólio de seu pai.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →