Pesquisa com 747 espécimes e aprendizado de máquina reforça a hipótese de um Spinosaurus predominantemente aquático e revê antigos répteis marinhos O Spinosaurus pode ter passado a maior parte da vida submerso, segundo uma pesquisa que reuniu 11.410 medidas anatômicas de animais atuais e extintos.
Cientistas da Universidade Yale, nos Estados Unidos, utilizaram tomografias, fotografias e aprendizado de máquina para investigar como diferentes espécies se adaptaram à água. Os resultados reforçam uma hipótese controversa sobre o dinossauro e modificam interpretações sobre antigos répteis marinhos.
O Spinosaurus aegyptiacus viveu aproximadamente entre 113 milhões e 94 milhões de anos atrás, no norte da África. Seu focinho alongado, dentes cônicos e enorme estrutura dorsal sugerem adaptações incomuns entre dinossauros carnívoros, especialmente relacionadas à captura de peixes.
Entretanto, paleontólogos discordam sobre sua capacidade de nadar. Alguns defendem que perseguia presas debaixo d’água, enquanto outros o consideram um predador de margens, semelhante às garças atuais.
A dificuldade está em reconstruir movimentos e comportamentos utilizando esqueletos incompletos. A equipe comparou proporções dos membros de centenas de animais preservados em museus e instituições científicas.
O objetivo era identificar características ósseas associadas a diferentes hábitos, desde espécies predominantemente terrestres até aquelas adaptadas à vida aquática. O levantamento combinou cinco procedimentos importantes:
O vídeo A swimming dinosaur: The tail of Spinosaurus, publicado pela revista Nature em abril de 2020, apresenta fósseis da cauda e experimentos relacionados à capacidade de natação. É anterior ao novo estudo e aborda uma das hipóteses investigadas.
Animais que retornaram evolutivamente à água desenvolveram adaptações semelhantes, apesar de pertencerem a grupos diferentes. Nadadeiras, membranas entre os dedos e mudanças nas proporções dos membros podem melhorar a propulsão e o controle dos movimentos durante a natação.
Os pesquisadores identificaram o comprimento relativo das mãos como um indicador particularmente eficiente. Ao comparar espécies vivas de comportamento conhecido, o algoritmo aprendeu associações entre anatomia e ambiente.
Aplicado aos fósseis, classificou o Spinosaurus como altamente aquático, favorecendo a interpretação de uma vida predominantemente submersa. O estudo publicado na revista Current Biology foi divulgado em 20 de novembro de 2025, com publicação na edição de 15 de dezembro.
A pesquisa foi liderada por Caleb Gordon, com participação de Lisa Freisem, Christopher Griffin, Jacques Gauthier e Bhart-Anjan Bhullar. A equipe também adaptou uma técnica estatística utilizada durante a Segunda Guerra Mundial para distinguir sinais verdadeiros de alarmes falsos em radares.
Essa abordagem ajudou a avaliar a confiabilidade das classificações e a reconstruir características de tecidos moles que raramente sobrevivem à fossilização. O banco de dados reuniu 11.410 medidas lineares de 747 espécimes.
A análise também utilizou registros anatômicos tridimensionais e informações sobre parentesco evolutivo. Os modelos alcançaram precisão superior a 90% na previsão de nadadeiras e hábitos altamente aquáticos.
O resultado também surpreendeu ao reavaliar os mesossauros, répteis que viveram aproximadamente entre 290 milhões e 274 milhões de anos atrás. Suas proporções indicaram que ainda frequentavam ambientes terrestres, diferentemente de grupos posteriores mais especializados.
A pesquisa sugere que os mesossauros e outros répteis marinhos do Paleozoico ainda retornavam regularmente à terra. Já ictiossauros apresentaram adaptações muito mais completas à água, enquanto diferentes linhagens desenvolveram esse modo de vida de maneira independente.
Entretanto, a classificação do Spinosaurus como altamente aquático não encerra o debate. Estudos biomecânicos anteriores questionaram sua eficiência de natação e capacidade de mergulho.
O novo método oferece evidências estatísticas importantes, mas não observa diretamente o animal nadando ou caçando. Fósseis adicionais e simulações serão necessários para esclarecer seu comportamento.
O Antogonista