O contraste entre os resultados do primeiro e do segundo turno ajuda a decifrar a verdadeira natureza da vitória de Lula para um inédito quarto mandato. A surpreendente virada não resultou de uma súbita conversão dos brasileiros ao lulismo, mas de uma mobilização eleitoral que ultrapassou fronteiras partidárias e ideológicas.
Setores até então afastados das urnas decidiram sufragar o candidato que identificaram como o mais comprometido com a preservação dos direitos sociais e do Estado Democrático de Direito. Esse contingente de eleitores, que trocou o não voto pelo apoio ao candidato do PT, moveu-se menos por identificação com Lula do que pelo receio das potenciais ameaças representadas por uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
Eis o ponto fulcral para compreender o significado político da virada. Não foi uma vitória do PT, tampouco da esquerda.
Foi, sobretudo, uma manifestação de resistência a um projeto político percebido como ameaçador por parcela expressiva do eleitorado. O movimento que levou os brasileiros às urnas no segundo turno, reduzindo a abstenção de 21,08% para 19,22%, refletiu a convicção de que Lula representava a alternativa mais segura para preservar as conquistas sociais e os valores consagrados na Constituição Cidadã de 1988.
No primeiro turno, com outras candidaturas na disputa, os números expressaram com maior nitidez a força dos simpatizantes espontâneos de Lula e Flávio. Na balotagem, entretanto, a natureza da disputa se transformou.
A campanha petista conseguiu despertar setores desencantados com o crônico confronto entre lulistas e bolsonaristas. A escolha deixou de ser apenas entre dois candidatos para assumir, aos olhos de uma parcela decisiva do eleitorado, o caráter de um plebiscito sobre os riscos de uma eventual vitória do bolsonarismo.
Não era mais sobre Lula ou Flávio, mas, sim, sobre democracia. O grande mérito da campanha de Lula foi converter essa percepção de risco em força eleitoral.
A desconfiança em relação ao adversário superou a resistência ao próprio petista. Brasileiros céticos quanto às virtudes de ambos os contendores romperam a inércia, não para abraçar o lulismo, mas para impedir aquilo que passaram a enxergar como uma ameaça maior.
Os números ajudam a compreender a dimensão desse movimento. Lula conseguiu virar o resultado em Minas Gerais, na capital do Rio de Janeiro e em outras 209 cidades do país.
Na Baixada Fluminense, mesmo sob o domínio eleitoral do candidato do PL, ampliou sua votação nos 13 municípios da região. Flávio, por sua vez, perdeu votos em 929 cidades.
Em Campos dos Goytacazes, reduto conservador com forte influência da família Garotinho, registrou uma surpreendente perda de 1.389 votos. Esses deslocamentos revelam uma dimensão da vitória que não pode ser reduzida à aritmética partidária.
Uma parcela do eleitorado, desgastada pela polarização que se cristalizou na sociedade, decidiu intervir nos rumos do país quando percebeu que havia mais em jogo do que a simples alternância de poder. A conclusão política é incontornável: Lula venceu, mas não recebeu um cheque em branco.
O eleitorado que decidiu a disputa não necessariamente aderiu ao PT, à esquerda ou ao lulismo. Confiou-lhe, antes de tudo, a responsabilidade de preservar as garantias institucionais e os direitos inscritos na Constituição de 1988.
A expectativa é de que seu quarto e último mandato seja amplo o suficiente para abarcar todas as frações do eleitorado que lhe confiaram o voto. Consagrado nas urnas nessas circunstâncias e liberto da perspectiva de reeleição, Lula tem a possibilidade histórica de realizar um governo em fina sintonia com os anseios mais legítimos da sociedade, sem concessões descabidas a partidos e grupos.
Cabe-lhe ainda promover a pacificação nacional nos limites das regras constitucionais. Ou seja, ao lado de todos os que, como ele, acreditam nos direitos e deveres republicanos.
A virada começou com o despertar espontâneo dos estudantes — longe das máquinas partidárias. Quando tudo parecia perdido, estudantes da UFF, em Niterói, ganharam as ruas num impressionante movimento de determinação para mudar a correlação de forças da disputa.
Rapidamente, aquela demonstração de capacidade de luta se multiplicaria por todo o Rio, tracionada por jovens que faziam lembrar os caras-pintadas contra Collor de Mello. Em paralelo, a presença digital do petista disparou, alavancada pelo “Exército de Lula”, sob o comando de Janones.
Ruas pulsantes e redes ativas criaram uma onda irrefreável. Confundir, contudo, esse voto de proteção com adesão ideológica seria o primeiro grande erro de interpretação do novo mandato.
Lula conquistou a Presidência, mas não necessariamente a adesão política incondicional dos eleitores que lhe garantiram a vitória. Muitos não votaram por ele, mas pelo que acreditavam estar em risco sem ele.
Brasil 247