Lula terá menor bancada de 'apoio consistente' na Câmara desde o governo Collor, aponta Diap

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Fonte da notícia: Globo Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará seu quarto mandato, em 2027, com a menor base de apoio consistente na Câmara dos Deputados entre os governos analisados pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). No Senado, o petista contará com uma das menores bases da série histórica, em um cenário de maior dependência de negociações com partidos que não integram necessariamente sua base governista.

O levantamento divide os parlamentares em três categorias: “apoio consistente”, “apoio condicionado” e “oposição”. A primeira reúne integrantes de partidos considerados aliados mais estáveis do governo, enquanto a segunda contempla aqueles cujo apoio depende de negociações e acordos políticos.

A entidade afirma que Lula poderá contar com “apoio consistente” de 124 deputados (24,2% do total de 513 na Câmara dos Deputados). Outros 246 parlamentares (48%) são classificados como apoio condicionado, enquanto 143 (27,9%) integram a oposição.

No Senado, o presidente terá 16 parlamentares (19,8% do total de 81 senadores) de “apoio consistente”, 31 (38,3%) de “apoio condicionado” e 34 (42%) de “oposição”. Na Câmara, a projeção de “apoio consistente” é a menor da série histórica apresentada pelo Diap, que começa no governo Fernando Collor, iniciado em 1990.

No Senado, os dados disponíveis permitem a comparação a partir do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), iniciado em 1995. Nessa Casa, é o segundo menor contingente, atrás apenas do início do terceiro mandato de Lula, em 2023, com 14 senadores (17,3%) classificados como apoio consistente.

Até o governo Itamar Franco (1992-1995), a Câmara era composta por 503 deputados. A diferença não altera o futuro cenário projetado para Lula.

Segundo o Diap, o presidente reeleito poderá reunir uma base potencial de até 370 deputados (72,1%), considerando tanto o “apoio consistente” quanto o “condicionado”. O número supera o identificado no início de seu terceiro mandato, em 2023, quando o levantamento apontava 140 deputados (27,3%) de apoio consistente e 159 (31%) de apoio condicionado, totalizando 299 (58,3%), além de 214 (41,7%) de oposição.

O cientista político e diretor de Documentação do Diap, Neuriberg Dias, afirmou no portal da entidade que essa configuração exigirá maior capacidade de articulação política do Executivo. "A maioria existe no papel, mas está concentrada no apoio condicionado — o segmento mais volátil da série comparada do Diap, que exigirá muito diálogo e negociações com os partidos e seus parlamentares", disse Dias.

Base de apoio na Câmara dos Deputados desde o governo Collor No Senado, a oposição terá seis integrantes a mais do que no início do terceiro mandato de Lula, enquanto o “apoio condicionado” perderá oito parlamentares e o “apoio consistente” ganhará dois.

A projeção de 34 oposicionistas representa o maior contingente dessa categoria entre os governos comparados pelo Diap. O quadro também se distingue de outros períodos presidenciais.

No início do primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT), o “apoio consistente” alcançava 351 deputados (68,4%) e 55 senadores (67,9%). Já no governo Jair Bolsonaro (PL), eram 257 deputados (50,1%) e 37 senadores (45,7%).

Apesar disso, Dias afirma não ser possível concluir que Lula enfrentará necessariamente o Congresso de menor governabilidade desde a redemocratização. O tamanho da base de apoio consistente é apenas um dos fatores que influenciam a aprovação de projetos, ao lado da disposição dos partidos para negociar e da capacidade de articulação do governo.

Base de apoio no Senado Federal desde o governo FHC 1 Avanço da direita

A análise do Diap também aponta uma reorganização ideológica do Legislativo, com crescimento da direita e redução de partidos tradicionalmente identificados com o centro e a centro-direita. Na Câmara, o número de deputados classificados como de direita passou de 244 para 260.

A centro-direita recuou de 94 para 81, enquanto o centro passou de 50 para 48. A centro-esquerda caiu de 27 para 21 parlamentares, e a esquerda avançou de 98 para 103.

No Senado, a direita passou de 32 para 48 integrantes, enquanto a centro-direita diminuiu de 21 para oito. O centro passou de nove para oito, a centro-esquerda caiu de oito para cinco e a esquerda cresceu de nove para 11.

Segundo o diretor de Documentação do Diap, o resultado não representa necessariamente uma renovação ampla do Congresso, mas uma mudança na distribuição das forças políticas. Na Câmara, a taxa de renovação foi de 40%, a menor desde 1990, segundo o levantamento.

No Senado, chegou a 74% das vagas em disputa, abaixo dos 82,15% registrados em 2018. Dias destacou que houve uma "reorganização ideológica na composição das Casas mais à extrema direita", com redução do espaço de partidos do chamado Centrão, especialmente da federação União Brasil-PP.

Divisão ideológica na Câmara dos Deputados a partir de 2027 O PL, partido do candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro, elegeu as maiores bancadas nas duas Casas, com 121 deputados e 29 senadores.

Para o Diap, essa representação poderá ampliar a capacidade da oposição de fiscalizar o Executivo, instalar comissões parlamentares de inquérito e atuar na apreciação de propostas e indicações do governo. A distribuição dos cargos de comando das comissões, que observa, em regra, a proporcionalidade das bancadas, também poderá fortalecer a atuação do partido.

Dias ressaltou no portal do Diap, porém, que o tamanho da oposição não determina, isoladamente, sua capacidade de barrar projetos. O resultado das votações dependerá dos quóruns exigidos, das regras regimentais e dos acordos entre as legendas.

Apesar das dificuldades previstas, o diretor do Diap avalia que Lula iniciará o quarto mandato com fatores favoráveis à articulação com o Congresso, entre eles a vitória eleitoral após uma virada no segundo turno, a mobilização de apoiadores e a possibilidade de preservar relações com integrantes de partidos que apoiaram Flávio na disputa presidencial.

O analista também considerou que a decisão do candidato derrotado de não reconhecer o resultado das urnas poderá contribuir para o isolamento político do PL e do Novo, reduzindo a capacidade dessas siglas de ampliar o campo de oposição ao governo. Outro fator decisivo será a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, que ajudará a definir a correlação de forças entre governo e oposição a partir de 2027.

Segundo o diretor de Documentação do Diap, a vitória de Lula abre uma nova etapa de disputas pela reorganização das forças políticas, diante de uma direita fortalecida nas urnas, que poderá manter sua vinculação ao bolsonarismo ou buscar novas formas de atuação no Congresso. Divisão ideológica do Senado Federal a partir de 2027

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