As semelhanças entre o “governo paralelo” liderado pelo venezuelano Juan Guaidó e a declaração - ao menos no primeiro momento - de Flávio Bolsonaro de que fala como “verdadeiro presidente eleito do Brasil” esgotam-se exatamente neste ponto: o da autoproclamação. Ao iniciar seu “mandato paralelo”, em janeiro de 2019, Guaidó se erguia contra o regime de Nicolás Maduro, acusado de ter fraudado a eleição de maio de 2018.
Guaidó - então presidente do Legislativo unicameral da Venezuela - tinha amplo apoio do governo americano. Maduro era um ditador, o que não tem paralelo no Brasil de hoje.
As circunstâncias políticas, institucionais e internacionais dos dois casos são fundamental e completamente distintas. A primeira diferença é a falta de reconhecimento internacional.
Além dos EUA - sob o primeiro mandato de Donald Trump -, Guaidó tinha também o apoio diplomático do Canadá, de dezenas de países europeus e de governos latino-americanos, incluindo o Brasil liderado pelo pai de Flávio, Jair Bolsonaro. O candidato do PL derrotado não conta, até aqui, com nada parecido em termos de reconhecimento.
Com exceção da Argentina e dos EUA, a maior parte dos governos do mundo reconheceu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e a lisura do processo eleitoral. Mesmo representantes da direita e da extrema direita, como Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e José Antonio Kast, no Chile, felicitaram o petista pela reeleição.
O reconhecimento ao triunfo de Lula também foi amplo fora da América Latina. Na Europa, os governos da Alemanha, da França, do Reino Unido e de outros países se manifestaram sobre o resultado.
A premiê italiana, Giorgia Meloni, também parabenizou Lula e o povo brasileiro pela “extraordinária demonstração de participação eleitoral”. A contestação de Flávio, portanto, não encontrou respaldo internacional comparável ao que sustentou a iniciativa de Guaidó.
Em outra diferença fundamental, de natureza institucional, Guaidó, como presidente da Assembleia Nacional, fundamentou sua reivindicação na interpretação de dispositivos constitucionais que previam uma Presidência interina diante da vacância do cargo. A oposição venezuelana e seus aliados internacionais consideravam ilegítimo o mandato de Maduro - abrindo a brecha para a declaração da vacância.
Assim, o reconhecimento de Guaidó não foi apenas uma manifestação de apoio político: envolveu uma disputa concreta sobre a legitimidade das instituições venezuelanas. Flávio, por sua vez, não ocupa posição institucional que lhe permita reivindicar a Presidência.
Nada que fuja da natureza de golpe de Estado o legitima na reivindicação de tornar-se presidente. A autodeclaração se baseia na acusação de fraude na eleição, sem apresentar provas capazes de sustentar a alegação.
Guaidó encerrou seu “mandato” de modo melancólico - “destituído” por outros membros da oposição a Maduro e acusado de casos de corrupção - em janeiro de 2023. Ele nunca conseguiu assumir o controle do Estado venezuelano.
A experiência mostrou que o reconhecimento externo, mesmo quando é amplo, não é suficiente para transferir poderes de Estado de forma efetiva. No caso brasileiro, a declaração de Flávio nem sequer altera a distribuição constitucional do poder.
Sem apoio institucional interno e sem respaldo internacional significativo, a autoproclamação tem alcance pífio e pode, efetivamente, complicar sua situação jurídica, acrescentando às investigações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas - ativas na Polícia Federal - a acusação de tentativa de golpe.
A hipótese de que o processo de acusações contra o governo Lula culmine numa “intervenção” armada dos EUA - do mesmo tipo que tirou Maduro do Poder na Venezuela nos primeiros dias de 2026 - também é amplamente remota. “Diferentemente de Maduro, Lula não tem nenhuma acusação contra si nos EUA.
Além disso, tem amplo reconhecimento internacional”, disse o analista político argentino Sergio Berensztein. “E, definitivamente, as instituições do Brasil são mais sólidas do que eram as venezuelanas”, afirmou.
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