Dois dias depois de uma virada histórica e ser eleito para um 4º mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) completa 81 anos nesta 3ª feira (27.out.2026). Aos olhos de aliados e adversários, o petista tenta transformar o resultado das urnas no capítulo final de uma biografia.
Quer deixar um legado e, para isso, diz que precisará governar de outro jeito. Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no domingo (25.out) por 51,79% a 48,21% dos votos.
Toma posse em 5 de janeiro de 2027 e deixará o Planalto aos 85 anos, em 2031. Será o presidente mais velho a assumir o cargo no país e o 1º eleito 4 vezes pelo voto direto.
Somados os mandatos, terá 16 anos no poder, o dobro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Virar no 2º turno e governar o país 4 vezes é um feito só de Lula.
A data tem peso na biografia do petista. Foi no dia em que completou 57 anos, em 27 de outubro de 2002, que Lula foi eleito pela 1ª vez presidente da República, com 61,27% dos votos válidos no 2º turno contra José Serra (PSDB).
No discurso da vitória, no domingo (25.out), o petista tratou a idade como compromisso, e não como obstáculo. “Eu estou com 80 anos e vou completar 81 depois de amanhã”, disse.
Prometeu fazer “o melhor mandato” que um presidente já fez na história do país e dedicar 24 horas por dia ao trabalho. Também lembrou Franklin Roosevelt, único presidente americano eleito 4 vezes, que não terminou o último mandato por causa de uma doença grave.
“O Lulinha vai terminar esse mandato correndo mais do que qualquer um de vocês”, afirmou. A lição do 1º turno
O tom de renovação tem origem numa campanha que quase deu errado. Lula terminou o 1º turno atrás de Flávio por mais de 2 milhões de votos, o que mudou a estratégia petista.
Ele próprio chegou a classificar a campanha como a menos organizada de que participou desde 1989. O diagnóstico interno foi de que o PT havia subestimado as redes sociais.
A campanha demorou a entender os formatos virais e seguiu a cartilha tradicional, com o 1º turno dedicado a propostas e o 2º ao desgaste do adversário. Foi nesse vácuo que cresceu o deputado André Janones (Rede-MG), responsável pelo “Exército do Lula”.
O canal de WhatsApp reuniu milhões de inscritos e passou a distribuir missões diárias de engajamento a militantes. Lula, que sempre se declarou distante do celular e das redes, aceitou participar de lives e vídeos curtos e viu a campanha ocupar um espaço antes dominado pela direita.
Leia análise do Poder360 sobre a mobilização digital. O resultado foi a 1ª virada entre os 2 turnos de uma eleição presidencial no país, e a experiência da campanha passou a orientar uma promessa de governo.
No discurso, Lula disse que ganhou um celular do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e que já está “aprendendo a conversar”. Afirmou que falará com a população “muitas vezes por dia, diretamente”.
Acrescentou também que a comunicação digital terá “um espaço muito grande” no governo. Num ambiente em que o bolsonarismo domina o debate on-line, o presidente quer criar um canal próprio com o eleitor.
Ricardo Stuckert/PT – 26.out.2026 Lula e André Janones fazem continência durante comemoração da vitória no 2º turno
Um país dividido A vitória veio com uma rejeição alta que ombreia a rejeição do governo –um problema que o Lula 3 sempre enfrentou.
O pico foi em maio de 2025: 57% desaprovavam e 40% aprovavam, o pior índice do 3º mandato. Naquela rodada, 56% dos entrevistados diziam que o 3º governo de Lula estava pior que os anteriores, e 31% apontavam o governo como responsável pelo desvio de dinheiro do INSS.
Em julho de 2026, a Quaest registrou 48% de aprovação e 47% de desaprovação, a 1ª vez com saldo positivo desde dezembro de 2024. No fim de agosto, a desaprovação voltou à frente.
No 2º turno, o Datafolha chegou a 50% de desaprovação em 15 de outubro e recuou para 48% no dia 22, com 49% de aprovação. O desafio de ampliar a base é maior entre os evangélicos.
Levantamento PoderData/Aya de agosto mostrou que 62% desse grupo desaprovam o presidente. A campanha também foi marcada por medidas de apelo eleitoral.
O Poder360 calculou em R$ 463,8 bilhões o impacto das “bondades” anunciadas em 2026, o que alimenta a desconfiança de parte do eleitorado e do mercado. O mercado financeiro recebeu a vitória com forte aversão ao risco.
Há um descompasso entre expectativa e resultado, já que investidores tinham se posicionado para uma vitória de Flávio. No 1º pregão após a eleição, a B3 acionou o circuit breaker às 10h05, o 1º desde 2020, e as negociações foram interrompidas.
Os juros futuros também dispararam. A taxa do DI para janeiro de 2033 saltou 1,93 ponto percentual, a 14,58% ao ano.
O Tesouro Direto ficou com negociações suspensas durante a manhã. No discurso da vitória, Lula não falou em ajuste das contas públicas, e o mercado olha com desconfiança a regra fiscal do governo, que permite despesas acima da inflação e é vista como uma das causas da piora na trajetória da dívida.
O que Lula vai resgatar Em linhas gerais, são 4 frentes.
A 1ª é social. O presidente quer consolidar a retirada do Brasil do Mapa da Fome e manter programas como o Bolsa Família, que teve reajuste de 15,04% antes da eleição.
Também defendeu o fim da escala 6 X 1 e o Pé-de-Meia. A 2ª é a defesa da democracia.
O vice, Geraldo Alckmin, disse no palanque que Lula “salvou a democracia brasileira” pela 2ª vez. É a imagem que o petista quer fixar: o político que enfrentou a prisão, a tentativa de golpe de Estado e voltou pelas urnas.
A defesa das instituições virou um dos motes do governo. A proximidade com o STF, alvo frequente de críticas do bolsonarismo, também é um ponto.
A 3ª é a soberania. Ele quer uma inteligência artificial brasileira, data centers no país e regulação das big techs, tema que marcou a campanha desde o atrito com os Estados Unidos.
A 4ª é o clima e a saúde. Lula citou a redução do desmatamento por 4 anos seguidos e a meta de ampliar o tratamento de câncer.
Lula prometeu que o povo participará mais das decisões do governo e disse que dará atenção especial aos idosos, “responsáveis pela nossa existência”. Afirmou que as mulheres serão tratadas “com muito mais respeito” e que todas as religiões serão respeitadas no Estado laico.
Disse ainda que o governo federal vai entrar na segurança pública, área que a Constituição de 1988 deixou a cargo dos Estados. “Para o bandido, a gente vai dar prisão”, afirmou.
O desafio é político. Lula assumirá com o Congresso mais à direita da redemocratização, com 276 deputados e 33 senadores de partidos desse campo, na maior onda de direita pós-ditadura.
Ele rejeitou a ideia de que terá dificuldade para governar. “Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu”, disse.
Afirmou ainda que, vencida a eleição, “não tem mais adversário” e que governará para 215 milhões de brasileiros. Há ainda uma tarefa que ele não nomeou: a sucessão.
Nenhum nome da esquerda construiu capital político comparável ao de Lula, e a ausência dele em 2018 levou à derrota para Bolsonaro. Uma vida de reinvenções
Reprodução/Instituto Lula Luiz Inácio Lula da Silva, então criança, posa ao lado de irmã Maria.
Mais tarde, a foto viraria um recorde para estampar o jingle de campanha de 2026, “Rap do Silva” Caçula de 8 irmãos, o pernambucano migrou aos 7 anos para Santos (SP) com a mãe, dona Lindu, em busca do pai que havia partido antes.
Ao chegar na cidade, o encontraram com outra família. A mãe se separou e se mudou para São Paulo em 1956.
O presidente começou a trabalhar aos 12 anos. Tornou-se torneiro mecânico formado pelo Senai.
Em 1964, aos 18 anos, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente na metalúrgica Independência. A mão com 4 dedos se tornaria seu símbolo mais reconhecível.
PT/Ricardo Stuckert Mão de Lula sob a bandeira do Brasil; o presidente publicou esta imagem para comemorar a vitória no 2º turno da eleição presidencial contra o então presidente Jair Bolsonaro (PL)
Lula virou líder sindical no ABC paulista na década de 1970 e fundou o PT em 1980. Meses depois, foi preso pela ditadura militar e passou 31 dias no Dops.
Perdeu 3 eleições presidenciais, em 1989, 1994 e 1998, antes de se reinventar para 2002. Trocou o macacão pelo terno, aparou a barba e escolheu o empresário José Alencar como vice.
Lançou a “Carta ao povo brasileiro”, em que se comprometia com contratos e responsabilidade fiscal. Com o marqueteiro Duda Mendonça, virou o “Lulinha paz e amor” e venceu José Serra (PSDB), com 61% dos votos no 2º turno.
Wilson Dias/Agência Brasil – 1º.jan.2003 Luiz Inácio Lula da Silva sobe rampa do Palácio do Planalto pela 1ª vez durante a posse
Em 2006, o Mensalão abalou a reeleição. Lula não foi aos debates e acabou no 2º turno, com 48,61% dos votos válidos no 1º.
Obrigado a sair da zona de conforto, mudou de postura e derrotou Geraldo Alckmin, então no PSDB e hoje seu vice, com 60,83% dos votos válidos. Deixou o governo em 2010 com 87% de aprovação e curou um câncer de laringe em 2012.
A maior prova veio com a Lava Jato. Condenado em 2018 pelo então juiz Sergio Moro, apresentou-se à PF e ficou 580 dias preso em Curitiba.
A pena foi aumentada pelo TRF-4 e, na eleição que liderava, o petista foi barrado pelo TSE. Para boa parte da elite política, ali terminava a vida pública do ex-presidente.
Ele deixou a prisão em 8 de novembro de 2019. O STF anulou as condenações em 2021 e declarou Moro parcial.
No ano seguinte, Lula derrotou Jair Bolsonaro (PL) por 50,9% a 49,1%, na eleição mais apertada da redemocratização, e bateu o próprio recorde de votos. Tornou-se o 1º a vencer um presidente que tentava a reeleição.
O antigo rival Alckmin passou a ser seu vice. Ricardo Stuckert/PT
Lula em São Bernardo do Campo (SP), em 9 de novembro de 2019, um dia depois de deixar a prisão em Curitiba, onde ficou por 580 dias. Diante de apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, declarou: “Quanto mais me atacam, mais cresce minha relação com o povo brasileiro”
A fase mais recente testou a saúde. Em dezembro de 2024, ele passou por cirurgia na cabeça, após uma queda no Palácio da Alvorada.
Em abril de 2026, retirou um câncer de pele do couro cabeludo. Os episódios reabriram o debate sobre sua idade, que pesquisa PoderData de 2025 mostrou ser vista como “um problema” por 50% dos eleitores.
Em fevereiro de 2025, ele já havia condicionado a candidatura à saúde. Lula virou o argumento a seu favor.
Em comício em Fortaleza, em 29 de setembro, pediu que idosos com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, comparecessem às urnas. “A vida da gente não termina aos 70”, disse.
Resta saber se a reinvenção chegará ao governo. Lula assume com ambições grandes, Congresso de maioria conservadora e o desafio de converter em gestão o entusiasmo que viu na Avenida Paulista na véspera da vitória.
O próximo será tratado como o último, mas a promessa de se aposentar não é nova. Em 2022, Lula afirmou que, se vencesse, ficaria um mandato só e não disputaria 2026.
Acabou concorrendo, depois de dizer que a candidatura dependia da saúde. Aos 80 anos, ele já disse que quer chegar aos 120.
Para o 4º mandato, basta cumprir o que prometeu. Leia também:
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Poder 360