Reeleito, Lula pode indicar todas as 59 diretorias das agências até 2030. Crise com a Aneel e nomes travados no Senado mostram o tamanho do desafio.
Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria. Reeleito no domingo (25) para um quarto mandato inédito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) leva para 2027 um vespeiro que marcou o governo atual: as agências reguladoras.
Até 2030, ele poderá indicar todos os titulares das 59 cadeiras de direção das 12 agências federais. O problema é que, no Lula 3, essas indicações viraram moeda de negociação com o Congresso, e a relação com as próprias agências terminou em crise aberta.
O recado veio de dentro. O diretor-presidente interino da Agência Nacional de Águas (ANA), Leonardo Góes, defendeu que as diretorias fiquem fora do troca-troca político entre governo e partidos.
É exatamente o contrário do que se viu nos últimos quatro anos. Os diretores têm mandatos fixos, em geral de cinco anos, e escalonados justamente para que nenhum presidente troque todo o comando de uma vez.
Na prática, porém, a renovação total cabe dentro do novo mandato, que começa em 5 de janeiro de 2027. No curto prazo, o Planalto mira cerca de 20 cargos, incluindo postos hoje ocupados por interinos e vagas que abrem até dezembro.
Estão no radar a Aneel (energia), a ANP (petróleo), a ANS (planos de saúde) e a ANM (mineração). Na Aneel, chega ao fim o mandato do diretor-geral Sandoval Feitosa, personagem central da maior crise entre governo e agência do terceiro mandato.
O episódio que expôs o desgaste foi o apagão de outubro de 2024 em São Paulo. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), acusou a Aneel de omissão no caso da Enel e chegou a dizer que Feitosa teve um ato de covardia ao faltar a uma reunião sobre a crise.
A pedido de Lula, a Controladoria-Geral da União (CGU) abriu uma investigação preliminar sobre dirigentes da própria agência. A Aneel reagiu em nota, classificando como tutela indevida qualquer tentativa de intervenção do governo.
No calor da briga, o Planalto passou a defender que o mandato dos diretores coincidisse com o do presidente, mudança que, na prática, reduziria a autonomia das agências. A Advocacia-Geral da União (AGU) ficou encarregada de desenhar a proposta, e Silveira chegou a classificar o modelo atual como arcaico.
Se a relação com as agências azedou, a porta de entrada também emperrou. Toda indicação passa por sabatina e votação no Senado, e quem controla o ritmo é o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Em 2025, a lista de 17 diretores para nove agências só saiu depois de um acordo costurado com as cúpulas da Câmara e do Senado. Na posse dos aprovados, Lula fez questão de dizer que os nomeados não deviam nada a ele, a Alcolumbre nem a ministro algum.
A frase soou como recado, mas o próprio rito mostrava o contrário: as vagas tinham sido negociadas. O clima piorou em abril de 2026, quando o Senado rejeitou Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), a primeira derrota do tipo em 132 anos.
Integrantes do governo atribuíram a Alcolumbre papel central no resultado. Em maio, Lula segurava ao menos 11 indicações para órgãos reguladores, à espera de uma reaproximação com o presidente do Senado.
Agora, o Planalto corre contra o calendário. Segundo a Folha de S.Paulo, Lula quer acelerar as indicações nas próximas semanas para aproveitar a atual composição do Senado, vista como mais favorável do que a que toma posse em fevereiro, com a oposição mais forte depois das urnas.
A estratégia, de novo, passa por Alcolumbre. Lula pretende conversar com ele para medir quais nomes têm chance real de aprovação ainda neste ano.
Ou seja: para tirar as agências do troca-troca, o governo precisará, mais uma vez, negociar. As agências decidem sobre conta de luz, preço de combustível, reajuste de plano de saúde, concessões de rodovias e liberação de medicamentos.
Diretoria vaga ou ocupada por interino trava decisões e aumenta a insegurança de quem investe nesses setores. O desafio do Lula 4 é duplo.
Precisa preencher as cadeiras com quadros técnicos sem perder a corrida no Senado e, ao mesmo tempo, evitar repetir o confronto com agências que ele mesmo vai ajudar a montar. Joice Gonçalves é repórter do ND Mais em Brasília, de onde acompanha de perto as movimentações do Congresso Nacional, os bastidores dos Três Poderes e os rumos das Eleições 2026.
Possui sólida experiência política, tendo acompanhado ativamente os pleitos eleitorais, tanto municipais quanto gerais, nas edições de 2018, 2020 e 2022. Além de escrever matérias sobre política, processo legislativo, sociedade e comportamento, produz conteúdos que explicam decisões do governo e seus impactos na vida do leitor.
Formada em Comunicação pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), atua no jornalismo desde 2021 e tem experiência em grandes redações multimídia de TV e portais de notícia, com produção multiplataforma e projetos especiais que envolvem articulações políticas e o poder público.
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