Vitória nas urnas mantém projeto de Brasil de Lula por mais quatro anos, mas não resolve os problemas do país. Para governar, o presidente terá de negociar com um Congresso fortalecido, explicar como
Luiz Inácio Lula da Silva saiu vitorioso das eleições. Receberá, porém, um país dividido.
Mais de 48% dos eleitores que deixaram suas casas para votar escolheram Flávio Bolsonaro. A vitória lhe garante mais quatro anos no Planalto.
Construir uma maioria para governar será outra disputa. Mais uma vez, Lula promete governar para todos os brasileiros.
No mandato anterior, disse que manteria a frente ampla, mas conduziu um governo “à esquerda linha-dura”. Agora, terá de dialogar com um Congresso mais à direita e com uma parcela do eleitorado que rejeita o projeto de Brasil que ele representa.
As urnas confirmaram que o PT da década de 1980 ainda existe: incisivo, combativo, capaz de mobilizar. Há 45 anos, o partido leva multidões às ruas.
Seus adversários também. A direita perdeu a Presidência, mas manteve a maioria das cadeiras no Legislativo.
É com esse país que Lula começará a executar seu plano de governo. Sabe que venceu, mas algumas de suas decisões mais importantes dependerão de quem trabalhou para derrotá-lo.
Precisará desses parlamentares para aprovar projetos, financiar promessas e enfrentar problemas que não foi capaz de resolver em suas passagens anteriores pelo Planalto. A eleição encerrou a escolha do presidente; a disputa pelos rumos do país, porém, continua.
Lula encontrará um Congresso mais hostil do que o anterior. Com 30 senadores à direita e 130 deputados na Câmara, precisará negociar com o centrão e o centrão.
Esses partidos sabem o peso dos próprios votos. Durante a campanha, Lula chamou de “sequestro do orçamento” o poder das emendas parlamentares.
Agora, dependerá do Congresso para financiar suas promessas. A tarifa zero é um exemplo: o governo prevê destinar cerca de R$12 bilhões em 2027, por meio de emendas, para custear o transporte gratuito aos fins de semana.
A proposta exige uma PEC e a inclusão dos recursos no Orçamento, que também precisa ser aprovado pelos parlamentares. É nessa negociação que a promessa de “governar para todos os brasileiros” será testada.
Para tirar a tarifa zero do papel, Lula terá de convencer deputados e senadores a aprovarem uma mudança que afete o controle deles sobre parte do orçamento. Precisará convencer uma maioria parlamentar que, em grande parte, o rejeita a comprar seu projeto.
No mandato que se encerra, Lula “não fez o dever de casa econômico”. Recebeu o país com a dívida bruta do governo geral em 71,7% do PIB, em dezembro de 2022.
Segundo a mediana das projeções do Prisma Fiscal de outubro, o indicador deve chegar a 83,4% do PIB em 2026 e a 87% em 2027. Quanto maior a dívida, maior a pressão dos juros e menor o espaço para investimentos e políticas públicas.
A projeção de arrecadação também pode não se confirmar. O governo calcula crescimento real do PIB de 2,46%, enquanto o mercado estimava 1,31%, segundo o Boletim Focus de 26 de outubro.
Se a economia crescer menos do que o previsto pelo governo, a receita também poderá ficar abaixo da estimativa. Para muita gente, empreender é uma espécie de ato heroico.
Em 2026, o país apareceu como o terceiro mais complexo para fazer negócios entre 81 jurisdições avaliadas pela TMF Group. Burocracia, carga tributária e insegurança jurídica consomem tempo e recursos de quem precisa contratar, produzir e vender.
Também podem desestimular novos investimentos. A classe média também sente o peso dos custos.
No segundo trimestre de 2026, a renda mensal dessa faixa da população variava de R$3.738 a cerca de R$26 mil, segundo o PNAD do IBGE. Para o MEI, o limite atual de faturamento equivale a R$6.750 por mês, em média.
A partir de 2027, esse teto subirá. Para quem tenta fechar as contas com esses valores, o custo de vida continua no centro da disputa.
Para quem tenta fechar as contas com esses valores, o custo de vida continua no centro da disputa. Endividada, essa classe média recebeu, mais uma vez, a promessa de benefícios financiados pelo Orçamento.
A medida pode trazer alívio imediato. A pergunta é o que vem depois: se a dívida continua, o auxílio termina e o negócio não se sustenta, o alívio não resolve o problema.
É nesse espaço que a direita cresce. “Flávio e a direita vêm construindo um diálogo maior com quem quer prosperar”, afirma o gestor público Arilton Ribeiro.
Na avaliação dele, Lula e o PT concentraram sua atuação nas políticas sociais de acesso à renda, mas deixaram em segundo plano quem quer crescer com o próprio trabalho e o próprio negócio: “É preciso pensar que as políticas sociais são o primeiro passo.
Depois do Pé-de-Meia, do Fies e do ProUni, têm de vir o acesso à carteira assinada, o apoio ao empreendedor, menos impostos para quem emprega e assume riscos e a chance de prosperar.” As propostas para os microempreendedores mostram que o governo percebeu essa disputa.
O perdão das dívidas dos MEIs foi estimado em R$12,6 bilhões em receitas que a União deixaria de receber. Outros três auxílios anunciados em período de campanha – o Pé-de-Meia Universitário, o Gás do Povo e o transporte gratuito aos fins de semana – somam R$21,32 bilhões.
Para bancar essas promessas, Lula precisará explicar o que pretende cortar, preservar ou ampliar. Se buscar mais arrecadação, encontrará resistência de quem já se sente sobrecarregado: desde 2023, o governo Lula elevou a carga tributária ou criou novos impostos a cada 33 dias.
Se recorrer às emendas, terá de negociar com os parlamentares de que depende. A cobrança vai além do equilíbrio das contas.
Será preciso mostrar como quem deixa de depender de uma política social poderá prosperar e manter um padrão de vida mais elevado contando apenas com o próprio trabalho. Na segurança pública, Lula terá de ser ágil nas decisões.
A cobrança virá de quem sai para trabalhar, abre um negócio ou volta para casa com medo. Será feita, sobretudo, pelos 60 milhões de brasileiros que vivem em áreas influenciadas por facções criminosas.
Lula passou a campanha criticando a decisão dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas. Agora, terá de mostrar que seu projeto para combatê-las funciona.
Isso exige investigação, inteligência, controle de fronteiras e ações concretas para atingir o dinheiro das facções. Também demanda cooperação com governadores de oposição.
Parte desse trabalho depende da integração das forças de segurança. Mas há uma disputa sobre os limites dessa coordenação e sobre quem deve conduzi-la.
O cientista político Magno Karl aponta a resistência dos governadores às tentativas do governo de integrar bancos de dados e ampliar a coordenação das políticas de segurança. Para ele, “essa coordenação ameaça um pouco a independência operacional da polícia da Segurança Pública nos estados e por isso criou-se uma resistência bastante significativa por parte dos governadores”.
Karl também ressalta que ainda não é possível saber quem tem razão: “Pode ser que, de fato, o governo tenha razão e que essa integração seja necessária para a gente combater o crime organizado com mais eficiência.
Pode ser também que os governadores tenham razão e que essa centralização no governo federal acabe com a independência operacional das polícias que têm a sua própria realidade e que a centralização em Brasília só fará com que tudo fique mais engessado”, afirma. Ao longo da campanha, Lula reafirmou que, em seu governo, os indicadores de segurança melhoraram.
Ao mesmo tempo, culpou os governos estaduais pelos resultados negativos. Só que há uma questão: de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, dos dez estados com os piores indicadores, sete são administrados pelo PT e base aliada.
Cabe a ele, provar que a aprovação da PEC 18/2025 será capaz de resolver o problema. Um dos desafios do quarto mandato de Lula será viabilizar essa cooperação sem transformá-la em uma disputa por autoridade.
Para quem vive sob ameaça, a divisão de responsabilidades só fará sentido se houver alguém capaz de cumpri-las. Grande parte do eleitorado brasileiro escolheu seus políticos com uma pauta clara: independência para, se necessário, pautar processos de impeachment contra ministros do STF.
Senadores eleitos como Marcel van Hattem e Carol De Toni, Deltan Dallagnol e até os próprios Michelle e Carlos Bolsonaro, tinham uma pauta clara: questionar ministros quando, na avaliação deles, extrapolavam suas funções. O alvo prioritário é Alexandre de Moraes.
Diante disso, o plano de governo de Lula propõe uma reforma do Judiciário com mandatos de prazo determinado para ministros dos tribunais superiores e a criação de um conselho para participar da escolha dos integrantes do Supremo. Ainda falta explicar a duração desses mandatos, quem faria parte do conselho e como seria a transição.
O jurista Diego Tavares afirma, porém, que um projeto assim não responderá às demandas da sociedade: “O que pautará as reações do STF tende a ser o avanço no Senado dos pedidos de impeachment contra ministros.
Quanto mais o cerco se fechar no parlamento, menor a janela para barganha”, enfatiza. Lula terá de decidir o que aceita mudar e o que pretende defender.
Se tentar conter os adversários, poderá ser cobrado por proteger a Corte. Se apoiar alterações, poderá perder o apoio de aliados que, no terceiro governo Lula, o ajudaram a governar.
Terá de negociar seus limites com um Congresso que também tem interesses próprios. O quarto mandato começa sob essa tensão.
Lula terá de responder a quem o elegeu sem ignorar quem votou contra ele. Prometeu benefícios, precisará de dinheiro e dependerá de acordos para consegui-lo.
A vitória lhe deu mais quatro anos. Não lhe entregou o Congresso nem um país disposto a esperar mais quatro por respostas.
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