247 – Quantas gerações de crianças negras crescem sem se enxergar como protagonistas das narrativas de aventura e de seus super-heróis? É com o intuito de seguir rompendo com essa hegemonia, ocupar espaços e continuar construindo novos e prósperos imaginários para a infância preta que a animação brasileira “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” cumpre exibições na Mostra Internacional de Cinema São Paulo. As apresentações acontecem entre os dias 22 e 28 de outubro, no circuito competitivo da Mostra e em Centros Educacionais Unificados (CEUs) de São Paulo.
Representatividade começa na infância – A representatividade na infância vai muito além de ter corpos negros em tela; trata-se de como esses corpos ocupam o espaço. Em “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”, o protagonista negro não está ali para cumprir cota ou ser coadjuvante: ele conduz a própria história com inteligência, curiosidade e autonomia, expandindo as referências possíveis para as novas gerações.
As exibições acontecem em espaços descentralizados, reforçando o compromisso com o acesso da comunidade preta e periférica ao cinema. Brenda ainda reforça a importância de ter muitas crianças como espectadores. “Assistir ao filme com uma plateia repleta de crianças é uma experiência sensacional: elas são genuínas, espontâneas e não escondem sentimentos. Acredito muito no poder transformador da arte. Uma experiência artística na infância pode ampliar horizontes, despertar novas perspectivas e ajudar a criança a imaginar um mundo novo, colaborando para um Brasil mais justo e democrático. O futuro é ancestral“, pontua a diretora.
Fotos: Still Gab Felistoque e Will Prado
Intelecto preto como motor de transformação – Com direção e roteiro assinados pela cineasta negra Brenda Lígia, o longa desloca os estereótipos historicamente atribuídos a personagens negros no audiovisual. Em vez de forças sobrenaturais ou hiperfoco no sofrimento, o protagonista Amadeo conduz sua própria aventura a partir do conhecimento, da curiosidade e do intelecto.
Para Brenda Lígia, essa dimensão está diretamente ligada à própria concepção do longa.
“Estamos muito felizes com a grande quantidade de sessões do nosso longa-metragem de animação Amadeo e o Hipotético Mundo Novo na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, principalmente por termos a oportunidade de circular pelos CEUs e chegar aos bairros mais distantes do centro., destaca a diretora Brenda Lígia.
A trilha sonora do filme, de execução cuidadosa, se faz presente sob o primoroso trabalho original de Guilherme Picolo, músico, produtor executivo na DreamBox e compositor de trilhas sonoras, que assina mais de 8 trilhas de longas-metragens como “Flops – Agentes Nada Secretos”, “Crackland”, “Toro”, “Todo Carnaval tem Seu Fim” e “Amado”.
“Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” traz ainda um elenco de vozes originais de atores e atrizes consagrados como Sérgio Menezes, Edmilson Filho, Naruna Costa, Paolla Oliveira, Antônio Fagundes, Mateus Solano, Tiago Abravanel, Adriana Lessa, Igor Cotrim, Dexter – O Oitavo Anjo, Jéssica Miranda, Douglas Monteiro, Luiz Carlos de Moraes, Raul Miguel Pinheiro e a própria Brenda Lígia.
Fotos: Still Gab Felistoque e Will Prado
A Voz de Léa Garcia eternizada no filme – A atriz Léa Garcia também participou do longa, emprestando sua voz, talento e sensibilidade a um trabalho tão importante e representativo quanto ‘Amadeo e o Hipotético Mundo Novo’. Este foi o seu último trabalho. Léa faleceu em 15 de agosto de 2023, deixando um legado marcado pela dedicação à arte e pela constante luta antirracista, se posicionando e ocupando lugares que lhe eram de direito. Ao longo de sua trajetória, tornou-se uma referência fundamental para gerações de artistas negros.
Com cerca de 70 anos de carreira, Léa brilhou no teatro, na TV e no cinema. Construiu personagens marcantes e interpretou figuras que transcenderam os palcos e as telas, cravando seu nome no painel cultural brasileiro.
Portanto, este longa-metragem é também uma justa homenagem a Léa Garcia — uma artista que acreditou no projeto, engrandecendo a produção com sua arte e com toda a sua potência humana e artística.
Para o cineasta Carlos Rossi, “a permanência do estigma racial, que no mundo factual se vem atenuando pela passagem do tempo, mas ainda se faz presente, pesa sobre o personagem e, ainda que ele seja retratado em suas particularidades, esse peso universaliza sua existência. A ressignificação alcança ainda outros símbolos sociais. A limitação imposta às mulheres, sobretudo em relação ao direito de ter voz e acessar o estudo, que reverbera em um presente no qual o refúgio universal feminino é colocado em dúvida por uma discussão retrógrada, aparece contraposta a Linda (Naruna Costa – voz), que escapa ao destino esperado para alguém de seu gênero. Ser cearense nesse contexto é similarmente significativo, mas principalmente por razões extra famílias. Em um audiovisual brasileiro frequentemente concentrado no Sudeste, a presença de personagens vindos de outras regiões reforça a diversidade do povo e da cultura nacional.”
Fotos: Still Gab Felistoque e Will Prado
Formação de público e projeção nacional – Produzido pela Felistoque Cinema, em coprodução com Sol de Barros, Refúgio Onírico, Sagui Studio, Assum Filmes, Martinelli Filmes, Guarnicê Produções e Dream Box, o filme fez sua estreia mundial na mostra competitiva do 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai (SIFF), realizada em junho, na China, e participou do Festival de Brasília. “Amadeo e O Hipotético Mundo Novo” conta com o patrocínio do BNDES, com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (SECEC-DF) e com a realização do Governo do Distrito Federal, por meio da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
A participação de “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” nos festivais ressalta a trajetória da produtora do longa, Felistoque Cinema, com a administração de Denise Castelhano e do cineasta Edu Felistoque, e também da empresa coprodutora, Sol de Barros Filmes, gerida por Solange de Barros.
A trajetória do filme não termina no festival. Neste mês, “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” também ganhará um novo cartaz para seu circuito de festivais. A Downtown Filmes prepara o lançamento comercial da animação nos cinemas brasileiros para dezembro, após o período das celebrações do Dia da Consciência Negra, ampliando a circulação de uma produção que aposta na infância, no protagonismo negro e na possibilidade de apresentar às novas gerações um herói brasileiro com o qual muitas crianças poderão, finalmente, se identificar.
“É lindo ver nosso cinema alcançando as pessoas em seus territórios, afinal, cultura também é um serviço essencial à população. Nossa intenção sempre foi fazer C.P.B., Cinema Popular Brasileiro, obras que cheguem ao povo e provoquem reflexões”, completa Brenda Lígia.
Fotos: Still Gab Felistoque e Will Prado
Brasil 247