O iFood acaba de anunciar a compra da Caju – uma das principais startups de benefícios do País – dobrando o tamanho de sua operação numa área ainda dominada por incumbentes como a Alelo, Ticket e Pluxee (a antiga Sodexo). A aquisição está sendo feita pelo iFood Benefícios, e faz parte do pacote de R$ 24 bilhões em investimentos anunciado pelo iFood mês passado. As empresas não publicaram o valor do negócio, que ainda precisa do aval do CADE e do Banco Central, mas uma fonte com conhecimento da transação disse ao Brazil Journal que a Caju foi avaliada em cerca de R$ 1 bilhão.
Tanto a Caju quanto o iFood Benefícios movimentam cerca de R$ 1,3 bilhão por mês cada – o que, assumindo um take rate de 3%, dá um faturamento anual de cerca de R$ 450 milhões para cada uma. Combinadas, elas passarão a ter 3 milhões de usuários e 135 mil empresas como clientes. A transação marca uma saída eficiente para o fundador da Caju, que levantou relativamente pouco capital para construir a empresa e destravou múltiplas vezes seu liquidation stack. Desde a fundação da Caju em 2020, Eduardo e seu sócio Renan Mendes levantaram apenas US$ 50 milhões junto a fundos como Canary, Valor Capital Group, Caravela Capital e K1 Investment Management. Segundo Arthur Freitas, o CEO do iFood Benefícios, o negócio é significativo pela complementaridade das companhias: enquanto o iFood Benefícios construiu sua operação aproveitando o ecossistema de restaurantes, supermercados e consumidores da plataforma, a Caju também criou uma plataforma de gestão de recursos humanos. Hoje a Caju atende 70 mil empresas e 1,3 milhão de usuários. Nos últimos anos, a startup passou a oferecer soluções para despesas corporativas, reembolsos, adiantamentos e rotinas de RH, além de produtos financeiros como crédito consignado e contas para colaboradores. “Nós entramos nas empresas por meio da operação de benefícios, mas continuamos nelas por meio de uma plataforma que faz muito mais coisas,” disse Eduardo. Para o iFood, essa estrutura permite ampliar o relacionamento com os departamentos de RH sem precisar desenvolver todas as ferramentas do zero. Além disso, a operação da Caju poderá aproveitar o ecossistema do iFood, que reúne mais de 500 mil restaurantes e mercados parceiros, 600 mil entregadores e 65 milhões de consumidores. “Você tem uma capacidade de escala que permite ainda mais investimento no setor,” disse Freitas. A consolidação acontece também num momento em que as duas empresas buscam rentabilidade. Freitas disse que o iFood Benefícios já opera no azul, com resultados operacionais positivos tanto em 2025 quanto neste ano. A Caju, por sua vez, deve dar lucro ainda este ano. Eduardo continuará na nova companhia, mas a estrutura de comando da operação combinada ainda não foi definida. As empresas pretendem divulgar o plano de integração após as aprovações regulatórias. A aquisição ocorre num momento de transformação do mercado de benefícios, dominado historicamente por empresas como Alelo, Ticket, VR e Pluxee. Durante décadas, essas companhias operaram principalmente com redes fechadas: os trabalhadores só podiam utilizar seus cartões nos estabelecimentos credenciados por cada operadora, que também controlava as taxas cobradas dos restaurantes e supermercados. Esse modelo começou a ser desafiado por novos entrantes como Caju, iFood Benefícios e Flash, que apostaram em cartões com bandeiras tradicionais e redes de aceitação mais amplas. A disputa ganhou uma nova dimensão com as mudanças nas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador, o PAT. Um decreto publicado em novembro do ano passado estabeleceu um teto de 3,6% para as taxas cobradas dos estabelecimentos e determinou a abertura dos grandes arranjos de pagamento, além da interoperabilidade entre as redes. Na prática, as mudanças reduzem a vantagem competitiva das redes fechadas e pressionam as margens das operadoras tradicionais. O problema é que parte importante dessas mudanças foi estabelecida por um decreto do presidente Lula, que pode ser alterado por governos futuros sem passar pelo Congresso – criando uma incerteza regulatória para as empresas do setor.
As mudanças regulatórias ainda enfrentam resistência das operadoras tradicionais, que questionam aspectos das novas regras. “Acreditamos que, independentemente do governo, não haverá retrocessos no ambiente regulatório,” disse Eduardo. No ano passado, o iFood chegou a negociar a compra da Alelo, uma das líderes do setor, controlada por Bradesco e Banco do Brasil – num negócio que poderia chegar a R$ 5,5 bilhões. Questionado sobre por que o iFood preferiu comprar uma challenger em vez de uma das operadoras tradicionais, Freitas destacou a complementaridade dos produtos e serviços. “No momento em que a decisão passa a ser uma decisão por produto, uma decisão por serviço, vemos as duas empresas combinadas com uma capacidade de entregar todo esse valor,” disse o executivo. O Lazard assessorou a Caju. Mattos Filho e Pinheiro Neto fizeram a assessoria jurídica do iFood e do Caju, respectivamente.
Brazil Journal