Livro resgata futebol feminino proibido por decreto de Vargas

Livro resgata futebol feminino proibido por decreto de Vargas - Foto
Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

O livro Time dos Sonhos, da jornalista Angélica Kalil e da ilustradora Priscila de Paula, a PriWi, chega às livrarias para devolver às meninas o registro das pioneiras do futebol feminino brasileiro. A história em quadrinhos acompanha sete garotas que tentam montar um time de bairro e, no caminho, descobrem a trajetória das jogadoras que vieram antes delas.

A obra sai pela editora Bebel Books com apoio do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, o ProAC. O público-alvo é infantojuvenil, mas o livro não se limita aos mais jovens, e mistura memes, colagens e um projeto gráfico que imita um caderno de escola.

O ponto de partida do projeto veio das próprias autoras, segundo Bebel Abreu, fundadora da editora. PriWi foi goleira na infância e voltou ao futebol amador já adulta, enquanto Angélica nutria o desejo de contar a história das mulheres no esporte.

O futebol feminino foi proibido no Brasil durante quase quatro décadas, a partir do decreto-lei 3.199, assinado em 14 de abril de 1941 por Getúlio Vargas. O texto barrava as mulheres da prática de esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”, e um dos argumentos era o de que jogar bola poderia prejudicar a gestação.

Antes do veto, o futebol feminino tinha times organizados em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, com partidas registradas pela imprensa da época. O decreto apagou esses registros da memória esportiva do país e deixou uma lacuna que só agora começa a ser preenchida.

A proibição caiu em 1979, e a regulamentação oficial da modalidade só veio quatro anos depois. O retorno ao papel oficial não bastou para devolver às mulheres o lugar que elas já ocupavam nos campos antes do decreto.

A pesquisa de Angélica Kalil levantou documentos que mostram a imprensa como uma das principais articuladoras do veto. Nas capas de jornais dos anos 1930, manchetes como “Pé de mulher não foi feito para se meter em chuteiras” e “O futebol mata a graça da mulher” ajudaram a barrar o esporte.

Para a autora, a recusa ao futebol feminino não é exclusividade brasileira, mas aqui ela ganhou contornos próprios. “Mesmo décadas depois de cair a proibição, ainda existe uma recusa ao futebol jogado por mulheres”, diz Kalil, que enxerga no preconceito um reflexo de uma sociedade estruturada no racismo, na misoginia e na LGBTQIA+fobia.

As sete personagens do livro foram criadas por PriWi entre 2013 e 2018, com nomes que homenageiam mulheres que defenderam direitos. “Me inspirei em amigas da escola, meninas brasileiras, sonhadoras”, conta a ilustradora.

“Quero que as meninas consigam se enxergar nas personagens”, resume PriWi sobre o que espera do livro. A ideia é que a leitora encontre nas páginas uma imagem possível de si mesma, algo que faltou para gerações anteriores.

A HQ recupera, entre outras, as trajetórias de Fanta, Cebola, Soró, Sissi, Tafa, Kátia Cilene, Grazi, Lorena, Formiga, Cris e Marta. Todas aparecem como herdeiras de uma linhagem que o decreto tentou apagar.

Marta é a maior artilheira da história das Copas do Mundo, com 17 gols. Formiga acumulou sete Mundiais, recorde entre homens e mulheres.

As duas só puderam jogar bola depois que o futebol feminino voltou a existir oficialmente no país, em 1983. O caminho até a seleção brasileira passou por times que se organizaram à margem da federação, sem apoio oficial.

A seleção brasileira feminina chegou à final olímpica de Paris, em 2024, e ficou com a medalha de prata. O resultado ampliou a visibilidade do esporte e abriu caminho para o Mundial que o Brasil vai sediar.

O livro está à venda no site da Bebel Books, em 150 livrarias físicas do país e em lojas virtuais como a Amazon. Em São Paulo, o lançamento oficial ocorreu no Centro Olímpico, com a presença de mais de cem meninas boleiras.

O lançamento acontece na esteira da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será sediada no Brasil. É o primeiro Mundial da modalidade no país e deve colocar o futebol feminino no centro do noticiário esportivo pelos próximos meses.

Ao transformar o decreto de Vargas em ponto de partida da narrativa, Kalil e PriWi devolvem às meninas o capítulo que a lei tentou apagar. O leitor sai do livro com a certeza de que a bola sempre foi delas também.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
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